Segundo o documento, a combinação entre cortes no financiamento internacional, redução dos serviços comunitários e dificuldades de acesso à prevenção pode comprometer décadas de progresso e provocar um ressurgimento da epidemia global de HIV. Embora as novas infecções e as mortes relacionadas à AIDS estejam nos menores níveis dos últimos 30 anos, o UNAIDS afirma que a resposta global está fragilizada e que o objetivo de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 corre risco caso não haja retomada da solidariedade internacional e redução das desigualdades. Em 2025, foram registradas 1,2 milhão de novas infecções por HIV no mundo e 570 mil mortes relacionadas à AIDS. Agora no g1 Progresso existe, mas é desigual O relatório mostra que os resultados variam significativamente entre os países. Enquanto sete países conseguiram reduzir em quase 80% o número de novas infecções desde 2010 e outros 11 atingiram as metas internacionais de tratamento conhecidas como 95-95-95, o avanço desacelerou ou retrocedeu em diversas regiões. Em 2025: as novas infecções aumentaram em três regiões do mundo; 21 países registraram crescimento nos casos; cerca de 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não estavam em tratamento; quase metade das crianças vivendo com HIV não teve acesso à terapia antirretroviral. Para o UNAIDS, esses números demonstram que o progresso é possível, mas depende da manutenção dos investimentos e da ampliação do acesso aos serviços. Ciência avança rumo a uma "revolução" na prevenção O relatório destaca que o mundo vive um momento considerado histórico no desenvolvimento de medicamentos preventivos contra o HIV. Segundo o UNAIDS, novas tecnologias oferecem níveis de proteção comparáveis aos de uma vacina. Entre os avanços estão: medicamentos injetáveis de aplicação mensal; medicamentos injetáveis semestrais; comprimidos de uso mensal que ainda estão em fase avançada de testes. Apesar desse cenário, a agência afirma que o principal obstáculo continua sendo garantir que essas tecnologias cheguem às pessoas que mais precisam. A diretora-executiva do UNAIDS, Winnie Byanyima, afirmou que a inovação só terá impacto se houver acesso amplo e preços acessíveis. "Os avanços científicos estão nos dando ferramentas com as quais as gerações anteriores só podiam sonhar. No entanto, inovação sem acesso não é inovação, é injustiça. O verdadeiro teste do sucesso não é se os medicamentos existem, mas se as pessoas que precisam deles conseguem obtê-los, e a um preço acessível." Brasil amplia uso da prevenção, mas enfrenta barreira para novo medicamento O relatório cita o Brasil entre os países que ampliaram o acesso à prevenção medicamentosa. Segundo o documento, o país registrou um aumento de 41% no número de pessoas que utilizaram medicamentos preventivos contra o HIV pelo menos uma vez no último ano. Etiópia e Uganda também ampliaram o acesso utilizando recursos domésticos e outras fontes de financiamento, enquanto a África do Sul negocia preços para as aplicações semestrais de lenacapavir. No entanto, o UNAIDS destaca que, apesar de ter participado dos ensaios clínicos do lenacapavir, o Brasil não recebeu da fabricante Gilead uma licença voluntária que permita preços mais baixos ou a produção de versões genéricas do medicamento. Diante desse cenário, o país avalia recorrer ao licenciamento compulsório. Lenacapavir ainda alcança pequena parcela da população O relatório considera positiva a iniciativa da UNITAID, do Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária e de outros parceiros para iniciar a implementação do lenacapavir com a meta de alcançar 3 milhões de pessoas até 2028. Mesmo assim, o UNAIDS afirma que esse número representa apenas uma pequena parte da necessidade mundial. A estimativa da agência é que 20 milhões de pessoas precisem ter acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para que seja possível reduzir de forma significativa as novas infecções. Queda histórica do financiamento preocupa ONU Um dos principais alertas do relatório diz respeito ao financiamento internacional. Segundo o UNAIDS, a assistência oficial ao desenvolvimento entrou em colapso em 2025. A ajuda internacional destinada ao desenvolvimento caiu 23%, a maior redução já registrada, afetando especialmente a área da saúde global. Os recursos internacionais destinados especificamente ao HIV passaram de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, uma queda de 18% e o menor nível em quase duas décadas. A situação é especialmente preocupante para países africanos de baixa renda, muitos dos quais dependiam de recursos externos para financiar mais de 90% de suas ações contra a epidemia. Segundo Winnie Byanyima, os governos precisarão ampliar seus investimentos internos. "A era de depender da ajuda internacional acabou. Os países não podem esperar e não podem retroceder. O mundo deve corrigir urgentemente o sistema financeiro que já não é mais funcional e acelerar a reestruturação da dívida para que os governos possam investir no que mais importa: a saúde, a educação e o futuro de suas populações." Cortes ameaçam serviços comunitários O relatório mostra que os programas comunitários foram um dos setores mais afetados pelos cortes. Na África Subsaariana, por exemplo, 80% dos recursos para prevenção vinham de financiamento internacional. As organizações lideradas pela comunidade chegaram a receber até 25% da assistência internacional destinada ao HIV em 2024 e, em alguns países, alcançaram: 22% das pessoas vivendo com HIV; até 60% das populações marginalizadas. Sem novos investimentos, o UNAIDS afirma que esses serviços correm risco de colapso. Em alguns países, o financiamento para preservativos foi reduzido em mais de 90%. Um estudo realizado em 2026, envolvendo 47 países, identificou reduções expressivas nos serviços comunitários: 50% nos serviços de apoio à prevenção baseada em medicamentos e ao cuidado do HIV; 85% nos serviços destinados a homens gays e outros homens que fazem sexo com homens; 82% nos serviços voltados para profissionais do sexo; 72% nos serviços para sobreviventes de violência baseada em gênero. Retrocessos em direitos humanos preocupam Além da crise financeira, o relatório aponta um aumento da criminalização de populações vulneráveis. Segundo o UNAIDS, pela primeira vez desde que começou a acompanhar essas tendências, houve crescimento no número de países que criminalizam grupos mais expostos ao HIV. Em 2025, Burkina Faso e Níger passaram a criminalizar relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo. Em 2026, o Senegal ampliou as penalidades para essas relações. De acordo com o relatório, atualmente: 168 países criminalizam o trabalho sexual; 152 países criminalizam a posse de pequenas quantidades de drogas; 66 países criminalizam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo; 14 países criminalizam pessoas trans. Para Winnie Byanyima, essas medidas dificultam o controle da epidemia. "Não é possível acabar com a AIDS enquanto se criminalizam as pessoas que vivem com HIV e aquelas mais vulneráveis à infecção. Quando as pessoas têm medo de prisão, violência ou discriminação, elas se afastam dos serviços de HIV. Os direitos humanos não são algo separado da resposta ao HIV; eles são essenciais para o seu sucesso." Novas metas para 2030 Apesar dos desafios, o relatório destaca que, em junho de 2026, 149 Estados-Membros adotaram uma nova Declaração Política sobre HIV e AIDS, alinhada à Estratégia Global para a AIDS 2026-2031. As metas estabelecidas para 2030 incluem: colocar 40 milhões de pessoas em tratamento; garantir acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para 20 milhões de pessoas; reduzir para menos de 10% a proporção de pessoas vivendo com HIV ou em risco que sofram estigma e discriminação; reduzir para menos de 10% a proporção de mulheres, meninas e pessoas vivendo com HIV ou em risco expostas à desigualdade de gênero e violência; reduzir para menos de 10% o número de países que mantenham legislações e políticas punitivas que limitem o acesso aos serviços de HIV. Segundo o UNAIDS, o cumprimento integral dessas metas poderá evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes relacionadas à AIDS até 2030. Ao apresentar o relatório, Winnie Byanyima afirmou que o fim da epidemia ainda é possível, mas depende de decisões tomadas agora. "Apesar dos enormes desafios, acabar com a AIDS ainda está ao nosso alcance. A escolha diante de nós é nítida: recuar e arriscar um ressurgimento da epidemia, ou repensar, reconstruir e avançar para acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030."