A resposta global ao HIV vive hoje um dilema: de um lado, avanços científicos como as tecnologias de prevenção de ação prolongada, como cabotegravir e lenacapavir, administrados a cada dois ou seis meses; do outro, preços impagáveis e cortes de financiamento internacional, que já reduzem drasticamente a entrega desses mesmos avanços às pessoas que mais precisam deles.

A América Latina vive essa contradição de forma direta: apesar de participar dos estudos clínicos dessas novas tecnologias, pela terceira vez seguida a região ficou fora de um acordo internacional de produção de genéricos que ampliaria o acesso a uma tecnologia contra o HIV.

"Eu acho que, a nível global, a gente está vivendo um dilema terrível, terrível", disse à Folha Beatriz Grinsztejn, médica infectologista e pesquisadora brasileira, atual presidente da IAS (International Aids Society), durante congresso internacional de Aids, que acontece no Rio de Janeiro.

Grinsztejn é a primeira mulher latino-americana a chefiar a entidade e chefia o Laboratório de Pesquisa Clínica em IST e Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (Fiocruz), no Rio.

Segundo ela, mesmo os países que já têm acordos de compra a preços baixos enfrentam entrega muito aquém do necessário. O impacto dos cortes recai com mais força sobre populações-chave e sobre crianças. Dentro das regras do Pepfar, o programa americano de combate à Aids, a PrEP (profilaxia pré-exposição) só está disponível para gestantes, o que vem gerando protestos de ativistas durante o evento.