Consumo cresce no país, enquanto cadeia aposta em inovação, produtos de maior valor agregado e vendas externas Unidade da Nater Coop em Santa Maria de Jetibá (ES): 2026 marca o início da exportação — Foto: Divulgação O consumo de ovos no Brasil saltou quase 50% em apenas dez anos, passando de 189 para 278 unidades per capita em 2025, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O ovo ganha espaço na mesa do brasileiro por ser versátil, barato e nutritivo, segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Estudos científicos derrubaram antigos mitos que colocavam o produto como vilão da dieta. “O resultado é um mercado bastante aquecido. A produção segue crescendo para atender à demanda interna robusta, enquanto as exportações começam a ganhar relevância, especialmente em produtos de maior valor agregado”, afirma Santin. As vendas externas ainda são incipientes, mas a receita gerada avança mais rapidamente que o volume embarcado. Hoje, os principais destinos são Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Chile, Japão, México e Singapura. “Há potencial para ampliar as exportações, considerando que representam somente 2% da produção, em comparação com 40% do frango”, ressalta Dirceu Talamini, pesquisador da área de socioeconomia da Embrapa. A cadeia vive um dos momentos mais dinâmicos da sua história. “Observamos o fortalecimento de nichos específicos, como ovos enriquecidos, produtos voltados para consumidores ligados ao esporte e linhas premium”, acrescenta Santin. Talamini, da Embrapa, afirma que o setor ganhou, nos últimos anos, escala e profissionalização. Acompanhando a demanda, novos investimentos modernizaram as instalações. Santin, da ABPA, destaca que avançam tecnologias ligadas à automação, monitoramento ambiental, inteligência de dados, biosseguridade e bem-estar animal. Hoje, os principais Estados produtores de ovos são São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Pernambuco — onde um grupo de produtores exportou pela primeira vez em 2026. Em Pernambuco, maior produtor de ovos do Nordeste, a produção avançou com investimentos em genética, nutrição animal, tecnologia e gestão. A Associação Avícola de Pernambuco (Avipe) atua há mais de cinco décadas. A produção sempre se voltou ao mercado doméstico, até que o cenário começou a mudar neste ano. Utsch, CEO global da Mantiqueira Brasil: produtos com maior valor agregado — Foto: Nunno Fonseca/Divulgação “Granjas associadas realizaram a primeira exportação de ovos da história do Estado. Embarcaram pelo porto de Suape com destino à África, especificamente Serra Leoa e Mauritânia”, diz Giulliano Malta, presidente da Avipe. A operação movimentou cerca de cinco milhões de unidades e mais de R$ 2 milhões, reunindo a produção de três granjas do Agreste e da Zona da Mata – São Luís (São Bento do Una), OvoNovo (Caruaru) e Ovos Enavis (Orobó). Conforme Malta, além da África, o setor mira o Oriente Médio como próximo destino. No Espírito Santo, que responde por cerca de 9% da produção nacional, o município de Santa Maria de Jetibá (ES) é reconhecido como capital nacional do ovo e tem o maior valor de produção do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cidade abriga a sede da Nater Coop, que nasceu em 1964 da união de 20 avicultores e tem hoje mais de 25 mil cooperados. Com atuação 100% voltada ao mercado doméstico, a organização produz ovos in natura e pasteurizados e apoia os produtores, do fornecimento de insumos até as vendas, por meio da marca Liva. Entre os desafios atuais do setor está o aumento do custo da ração, afirma Marcelino Bellardt, CEO da Nater Coop. A alta nos preços do milho, do farelo de soja e de outros insumos pressiona as margens dos produtores e exige maior eficiência na gestão da produção. Mesmo lidando com questões similares, a Mantiqueira afirma que seu faturamento dobrou nos últimos quatro anos e cresceu 15% em 2025 (a companhia não divulga o resultado). A entrada da JBS na Mantiqueira foi concluída no ano passado, após aprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em abril. As participações ficaram em 48,5% para a JBS, 48,5% para o fundador Leandro Pinto e 3% para Márcio Utsch, CEO global da Mantiqueira Brasil. A companhia tem projetos de ampliação em Lorena (SP) e Céu Azul (PR) e de uma nova unidade em São Sebastião do Rio Verde (MG). Para capturar oportunidades, mantém operações integralmente no exterior. “Preferimos ter todo o ciclo de receita em moeda internacional do que apenas exportar e ficar sujeitos à variação cambial”, explica Utsch. No ano passado, a companhia comprou a Hickman’s Egg Ranch e, recentemente, assumiu o controle completo da Colorado Eggs, ambas nos Estados Unidos. De acordo com Utsch, a operação trouxe vantagens, especialmente em inovação. A estratégia da companhia é se consolidar como uma empresa de marcas e produtos de maior valor agregado, como uma bebida proteica à base de clara de ovo hidrolisada, com sabores variados, desenvolvida para atender consumidores em busca de alimentação funcional. Ovos de galinhas livres de gaiolas, ovos orgânicos e ovo líquido pasteurizado expandem o cardápio de produtos da companhia. A companhia enfatiza nas embalagens de ovos e derivados a quantidade de proteína. Essa comunicação acompanha a mudança no comportamento dos consumidores, com maior busca por alimentos proteicos, especialmente entre o público mais atento à saúde. Com o envelhecimento da população e a difusão de canetas emagrecedoras, como conta Utsch, a preservação de massa muscular passou a ser preocupação generalizada – e o ovo está ao alcance de todos para ajudar.
Ovo brasileiro se reinventa com novos produtos e mercados
Consumo cresce no país, enquanto cadeia aposta em inovação, produtos de maior valor agregado e vendas externas








