Talamini, da Embrapa: nos últimos anos, houve uma forte modernização da cadeia produtiva — Foto: Divulgação A carne suína ganhou mais espaço no prato dos brasileiros nos últimos anos. Em 2025, o consumo per capita atingiu 20,3 quilos, segundo levantamento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) com base em dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Há uma década, o patamar era de 16 quilos por pessoa. O valor bruto da produção, valor movimentado pelo setor, avançou 14,6% no ano passado, para R$ 63 bilhões, enquanto o volume produzido cresceu 6%, para 5,6 milhões de toneladas. Depois dos resultados impressionantes, porém, a suinocultura brasileira enfrenta em 2026 um cenário de oferta superior à demanda, na avaliação de Marcelo Lopes, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS). Nos últimos anos, o setor ampliou a produção com investimentos em tecnologia, ganhos de eficiência e expansão das granjas. O crescimento foi impulsionado pelo aumento do consumo interno. Mas depois da fase de expansão consistente entre 2016 e 2022, o mercado entrou em uma fase de acomodação. Desde 2022, o consumo per capita permanece praticamente estável, na faixa dos 19 ou 20 quilos por habitante ao ano. A produção no primeiro trimestre em toneladas cresceu em ritmo mais lento, de 2,6%. A expansão nos últimos anos também foi sustentada pelas exportações, especialmente para a China, que ampliou as compras após a peste suína africana (PSA) reduzir seu rebanho, entre 2018 e 2019. As vendas externas cresceram 11,6% em volume em 2025 (para 1,5 milhão de toneladas) e 19,3% em valor (para US$ 3,6 bilhões). O ritmo se manteve neste ano: no acumulado de 2026 até maio, o valor exportado cresceu 11,9% (para 653 mil toneladas). A produção chinesa, no entanto, vem se recuperando e desde 2023 supera os níveis pré-crise. Lopes, da ABCS, considera que o balanço entre custos e preços estava mais favorável ao produtor até 2025 e, neste ano, entrou em descompasso. Ele avalia que o quilo do suíno vivo (indicador do Cepea/Esalq) num patamar acima de R$ 7 garantiria remuneração adequada ao produtor. Esse valor vem sendo negociado entre R$ 5,30 e R$ 6, dependendo da localidade, levando criadores a operar com prejuízo ou retorno muito baixo. Por isso, o momento exige atenção. Diante do quadro mais delicado, Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), aponta o caminho: a suinocultura brasileira continuar se mobilizando para expandir exportações e fortalecer o consumo doméstico. “Oscilações pontuais podem ocorrer em função dos custos dos grãos e do comportamento das demandas interna e externa”, diz. “Os fundamentos do mercado, porém, permanecem positivos.” A Frimesa, do Paraná, prevê novo salto no faturamento em 2026 — Foto: Divulgação Vários fatores permitem projetar bons cenários à frente. A carne suína tem preço atraente, principalmente em períodos de adequação do orçamento das famílias. Diante da média de consumo nacional de 20 quilos per capita por ano, o Nordeste consome apenas de três a cinco quilos. Há uma imensa oportunidade na região. “Temos um trabalho gigantesco de divulgar a carne suína nos Estados nordestinos”, diz Lopes, da ABCS. Outro diferencial do país é o elevado status sanitário. “O Brasil tem uma situação sanitária extremamente privilegiada. Muitas doenças nocivas aos suínos na Europa e na América do Norte não estão presentes aqui”, afirma o executivo. Antes muito concentradas no mercado chinês, as exportações passaram a ter destinos mais diversificados nos últimos quatro anos. Os principais compradores, em volume, são Filipinas, China, Chile, Japão, Hong Kong, México e Singapura, segundo dados da Secex/Mdic. Isso ocorreu mesmo num período em que conflitos geopolíticos afetaram o comércio, devido à alta do frete marítimo. A suinocultura brasileira tem investido para elevar ainda mais seus padrões de eficiência e sustentabilidade. Dirceu Talamini, pesquisador na Embrapa Suínos e Aves e doutor em economia rural, explica que a cadeia passou nos últimos anos por forte modernização em genética, biosseguridade, ambiência, sanidade, nutrição, manejo, gestão e logística. Outra frente de trabalho essencial é a agregação de valor à carne suína, contemplando cortes diferenciados, produtos prontos para consumo, porções de tamanhos variados, novas receitas e temperos. Lopes, da ABCS, vê espaço para mais especialização na cadeia. “Quanto mais indústrias houver, mais bem remunerado será o produtor”, completa. O setor também se reorganiza por meio de consolidação. O cenário cria, para os grupos maiores, oportunidades de aquisição das operações de pequenos e médios produtores independentes, que vêm operando com margens apertadas. O processo ocorre num setor que já tem pouca participação dos independentes e se organiza preponderantemente pelos sistemas de cooperativismo e integração (modelo em que a agroindústria fornece animais, ração e outros insumos, para os produtores fazerem a criação e a engorda — o que mitiga riscos da atividade e assegura a destinação da produção). Marcelo Lopes, presidente da ABCS: "O Brasil tem uma situação sanitária extremamente privilegiada" — Foto: Divulgação A trajetória da Frimesa, do Paraná, demonstra o êxito do modelo de integração. Trata-se de uma cooperativa central que conta com cinco filiadas — Copagril, Lar, Copacol, C.Vale e Primato —, com foco no processamento de carne suína e derivados do leite. Com quase 50 anos de atuação, é a quarta maior empresa de abate e processamento de suínos do Brasil, com mais de 560 produtos, entre cortes, embutidos e pratos prontos, atendendo mais de 48 mil clientes do varejo, atacado, food service e indústria de alimentação, incluindo exportações. O modelo reduz a exposição dos produtores às oscilações do mercado. “A Frimesa recebe o suíno independentemente do preço no mercado e da cotação do milho e do farelo de soja. O produtor recebe sua bonificação, que hoje está em torno de R$ 60 por cabeça”, afirma Elias José Zydek, presidente-executivo da companhia. Segundo ele, a diversificação nas propriedades, com produção também de leite, frango, soja e milho, aumenta a resiliência dos cooperados. Em 2025, a cooperativa registrou faturamento bruto de R$ 7 bilhões, alta de 7% sobre o ano anterior. Para 2026, a expectativa é alcançar R$ 8 bilhões. O crescimento resulta de investimentos realizados nos últimos anos. Com aporte de R$ 1,3 bilhão, a nova unidade em Assis Chateaubriand (PR), inaugurada há cerca de um ano e meio, é considerada a maior planta de suínos da América Latina. Atualmente opera com cerca de 50% da capacidade, abatendo 7,5 mil animais por dia, mas se prepara para chegar a 15 mil até 2032. A Seara, do Grupo JBS, também aposta na diversificação de produtos. A companhia desenvolve novos cortes e formatos para diferentes momentos, do preparo rápido ao churrasco. Segundo João Campos, presidente da empresa, por muitos anos o consumidor associou a categoria a poucos produtos, como bisteca, lombo e linguiça. “A Seara trabalha para mudar essa percepção, apresentando novas possibilidades de consumo”, afirma. O cardápio inclui alcatra suína, patinho suíno e medalhão de filé mignon suíno. Para apresentar as novidades ao consumidor, a empresa lançou o programa Açougue Suínos Seara Reserva, presente em mais de 1,3 mil lojas do varejo. A iniciativa amplia a gama de cortes disponíveis e orienta os estabelecimentos sobre novas formas de apresentá-los. Um levantamento da Nielsen aponta que as lojas participantes registram alta de 18% em valor na categoria de carnes suínas logo após a implementação do modelo e chegam até a 26% nos meses seguintes. O brasileiro está gostando — e ainda tem muito a experimentar.
Carne suína busca mais espaço no Brasil e no mundo
Após anos de expansão, cadeia aposta em novos produtos, exportações e diversificação para sustentar o crescimento








