Segundo o documento, a atuação da agência permitiu que a Voepass continuasse operando mesmo diante de violações identificadas durante fiscalizações. A conclusão coloca a Anac entre os fatores contribuintes para a tragédia, ao lado de falhas da companhia aérea e de erros de pilotagem. Entre 2022 e 2024, fiscais da Anac notificaram a Voepass dez vezes por irregularidades no sistema de degelo das aeronaves. De acordo com o relatório, a empresa informava que os reparos haviam sido realizados e mantinha as aeronaves em operação. O sistema de degelo é apontado pela investigação como um dos elementos centrais para a queda do avião. Em entrevista ao Fantástico, o diretor-presidente da Anac, Álvaro Faierstein, afirmou que o relatório do Cenipa aponta as ações da agência como fator contribuinte, mas fez uma distinção entre isso e uma responsabilização direta pela queda. “O Cenipa aponta as ações da Anac como fator contribuinte. Não necessariamente diz que a Anac foi responsável pela queda do avião.” Faierstein disse que a agência recebeu as conclusões da investigação com atenção e que pretende adotar as recomendações apresentadas no relatório. “A aviação é um sistema muito complexo. Mas nós estamos olhando com muita humildade as recomendações do Cenipa para nós e vamos adotá-las.” Questionado sobre por que a Voepass continuou voando mesmo após a identificação de irregularidades, o presidente da Anac afirmou que a empresa fornecia informações falsas aos fiscais. Segundo ele, em uma operação assistida, um fiscal da agência podia exigir a substituição de uma peça e, posteriormente, encontrar um documento informando que a troca havia sido realizada — embora, na prática, o reparo não tivesse sido feito. “Muitas das informações que a empresa nos enviava eram informações falsas. Eu vou citar um exemplo: na operação assistida, um fiscal da Anac chamava o mecânico da Voepass e falava assim: ‘Ó, você tem que trocar essa peça aqui’. Quando o fiscal ia lá ver, via que tinha o documento da troca, que ele tinha reportado a troca, mas que na prática não tinha trocado nada.” Ao ser perguntado se, em resumo, a Anac havia sido enganada pela Voepass, Faierstein respondeu: “Eu posso dizer que sim. Muito sim. O nosso time técnico, o nosso corpo técnico, fez análises baseadas em documentos que não eram documentos verdadeiros.” O presidente da Anac também afirmou que, antes do acidente, a equipe técnica da agência já havia identificado uma degradação na operação da companhia aérea. “Nesses anos anteriores ao acidente, o nosso time técnico detectou uma degradação. Foram vários problemas de manutenção, reportes mentirosos, que a companhia dizia que trocava um determinado equipamento ou não trocava. Ou fazia de uma maneira errada.” Diretor-presidente da Anac, Álvaro Faierstein, em entrevista ao Fantástico — Foto: Reprodução/TV Globo Segundo o relatório, em 2023, a Voepass concentrou 82% das falhas apontadas pela Anac entre as empresas aéreas do país, apesar de responder por apenas 0,6% dos voos realizados no Brasil. A agência proibiu definitivamente a companhia de operar apenas em junho de 2025, dez meses após o acidente. Faierstein afirmou que, após o caso, a Anac decidiu mudar o processo de decisão sobre a suspensão de empresas aéreas. Segundo ele, a definição sobre manter ou não uma companhia em operação deixará de ser apenas da área técnica e passará a envolver a diretoria da agência. “É uma decisão muito subjetiva. Então nós estamos trazendo isso para a diretoria tomar a decisão.” Questionado se isso significaria reconhecer que a Anac não é apenas um órgão técnico, Faierstein respondeu: “Não digo político. Mas é um órgão que tem que ter uma visão matricial, uma visão de cima.” Ao ser confrontado sobre que argumento poderia ser mais importante do que aviões operando em condições precárias e com risco de causar mortes, o presidente da agência reiterou que as fiscalizações haviam identificado não conformidades, mas afirmou que o problema estava nas informações repassadas pela empresa. “As fiscalizações foram feitas, foram detectadas não conformidades. Mas o que acontecia era que a empresa reportava à Anac que tinha feito a manutenção. E, na verdade, não tinha.” Presidente da Anac diz que agência foi enganada pela Voepass — Foto: Reprodução/TV Globo O que revelou o relatório do Cenipa O relatório final do Cenipa concluiu que uma combinação de falhas da Voepass, erros da tripulação e deficiências na fiscalização da Anac contribuiu para a queda do avião em Vinhedo (SP), em agosto de 2024. O documento, com 258 páginas, aponta que a companhia mantinha uma cultura organizacional que permitia o adiamento de reparos e a continuidade de problemas considerados graves. O sistema de degelo aparece como um dos principais pontos da investigação. Segundo o Cenipa, o ATR 72 que caiu decolou com o equipamento inoperante e enfrentou sucessivos alertas de formação de gelo durante o voo. A investigação concluiu que, diante do acúmulo de gelo nas asas, a tripulação manteve a aeronave em uma altitude onde havia condições favoráveis para a formação de gelo, em vez de buscar um nível mais seguro. Com a perda de sustentação, o avião entrou em estol e, depois, em um parafuso chato — uma situação considerada rara na aviação comercial. A aeronave perdeu cerca de 14 mil pés de altitude em aproximadamente um minuto antes de atingir o solo. Em nota, a Voepass afirmou que sempre adotou procedimentos rigorosos de segurança, treinamento e manutenção, e disse que seus pilotos eram experientes e certificados. A Anac suspendeu definitivamente as operações da companhia em junho de 2025. Com a conclusão do relatório do Cenipa, as investigações criminais sobre o acidente continuam. Fantástico mostra detalhes revelados em relatório do Cenipa sobre tragédia da Voepass — Foto: Reprodução/TV Globo Ouça os podcasts do Fantástico O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.