Essa conduta, segundo o órgão da Força Aérea, mascarava o "caráter crônico" das falhas e resultava "na operação de aeronaves em condições sabidamente degradadas, ultrapassando os limites temporais previstos nos regulamentos em vigor". Em nota, a Voepass afirmou a tripulação do voo 2283 era experiente e treinada, afirmou seguir padrões internacionais de segurança e informou que continua colaborando de forma transparente com as investigações do Cenipa. Leia o texto na íntegra abaixo. Já a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ressaltou que a investigação do Cenipa tem caráter preventivo e serve para identificar os fatores que contribuíram para o acidente e propor medidas para aumentar a segurança da aviação civil. As recomendações serão analisadas em até quatro meses. Destroços de avião em Vinhedo — Foto: Miguel Schincariol/AFP Como a prática funcionava As regras da aviação permitem que um avião voe temporariamente com alguns equipamentos quebrados. Esses casos ficam na Lista de Equipamentos Mínimos (MEL), documento que define quais falhas são aceitáveis e o prazo máximo para o conserto. LEIA MAIS: No caso do sistema de degelo das asas, por exemplo, o avião podia operar por até três dias seguidos com o defeito. Depois disso, o reparo era obrigatório. Além disso, a aeronave não podia decolar se houvesse previsão de gelo na rota. O Cenipa descobriu que a Voepass burlava essas regras da seguinte forma: o defeito era registrado na MEL;quando o prazo para o conserto terminava, a empresa registrava que o sistema havia voltado a funcionar, sem que o reparo tivesse sido realizado;isso fazia o prazo recomeçar do zero;quando a falha reaparecia em voos seguintes, era registrada como um problema novo. Para o piloto e coronel da reserva da Força Aérea Brasileira (FAB) Enio Beal Jr., que atua há mais de 40 anos na aviação e é especialista na elaboração de MEL, o relatório mostra que o problema não era a falta de regras, mas o descumprimento delas. "Eu vejo o relatório final como uma oportunidade. Manter a casa em ordem é simples, é de baixo custo e está ao alcance de qualquer operador. Basta registrar toda pane, sempre, e que as empresas tenham essa cultura justa de não punir quem anota", afirma. Segundo o coronel, a própria MEL foi construída para permitir que aeronaves operem com segurança mesmo diante de falhas específicas. "É raríssimo um avião decolar com todos os itens funcionando. A Lista de Equipamentos Mínimos foi exaustivamente estudada por engenheiros e analistas de risco, que avaliam item por item o que pode estar inoperante, em que condições e por quanto tempo. Já está tudo escrito como eu tenho que fazer", detalha. O relatório, porém, não afirma que essa prática ocorreu com os itens registrados na MEL da aeronave que caiu em Vinhedo. Os 10 equipamentos lançados na lista de controle do ATR 72-500 estavam dentro dos prazos previstos pelas normas de manutenção. Aeronaves da Voepass no Aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto (SP) — Foto: Marcelo Moraes/EPTV O avião do acidente Na aeronave que caiu, um dos principais problemas encontrados foi a falta de anotações. O sistema de degelo falhou em viagens anteriores e no dia do acidente, mas essas ocorrências não foram registradas no diário de bordo. Sem o registro, a falha não entrava na lista de controle. Isso impedia a contagem do prazo para o conserto e evitava medidas de segurança, como trocar de avião ou desviar de rotas com gelo. Para Beal, deixar de registrar um defeito compromete todo o sistema de segurança porque impede que pilotos e equipes de manutenção conheçam o histórico real da aeronave. "Se você não registra, entrega o avião para outra tripulação que não necessariamente sabe o que está acontecendo. É possível até que a gente se esqueça de transmitir todas essas informações. Além da próxima tripulação não saber, a manutenção não toma conhecimento e isso não é corrigido", destaca. "Esse processo informal configurava uma forma de pressão sobre os PIC [pilotos], com o intuito de evitar o lançamento de discrepâncias que poderiam resultar na indisponibilidade prolongada da aeronave enquanto se efetuava a correção das falhas apontadas", apontou o Cenipa no relatório. "O problema aparece quando nós começamos a achar que aquele equívoco é algo normal. Se desde o começo o registro é frouxo, se ninguém reporta, se o desvio já virou a regra da casa, todo mundo passa a agir como se aquilo fosse comum. É assim que se instala aquilo que nós chamamos de normalização do desvio. E isso é muito mais perigoso porque, muitas vezes, não acontece por má intenção. Acontece por hábito, porque o ambiente criou essa condição permissiva", frisa o coronel. Guichê da VoePass no Aeroporto de Guarulhos no dia 12 de agosto de 2024 — Foto: Fábio Santos/g1 Problemas persistentes O relatório também concluiu que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) já conhecia os problemas relacionados ao sistema de degelo da Voepass antes do acidente. Entre 2022 e 2024, a agência: emitiu 10 notificações sobre falhas no sistema de degelo;fez auditorias e inspeções na companhia;suspendeu aviões com risco de voo (24 suspensões em 2023 e cinco em 2024). Como resposta às exigências da agência, a Voepass substituiu, no primeiro semestre de 2024, todos os boots de degelo, borrachas infláveis instaladas nas asas que quebram o gelo acumulado durante o voo. Apesar da medida, os problemas continuaram sendo identificados. "O processo de gerenciamento de risco da Anac não foi suficiente para auxiliar nas tomadas de decisões estratégicas necessárias à mitigação e ao controle dos riscos no ambiente operacional por ela regulado e fiscalizado", concluiu o órgão. Diante das conclusões do relatório, o Cenipa orientou que a Anac: aperfeiçoe os mecanismos para identificar empresas com problemas repetitivos de segurança;adote medidas mais eficazes ao encontrar irregularidades;fortaleça o acompanhamento das companhias para evitar que práticas como as identificadas na investigação se repitam. Para Beal, o relatório deixa uma mensagem que vai além do caso da Voepass e serve para toda a aviação. "A principal lição é que a gente tem que fazer o dever de casa. É muito mais importante, ainda que seja desagradável para o passageiro ouvir que o voo foi cancelado, parar e fazer o que está previsto do que querer, de qualquer maneira, cumprir a missão transgredindo regras que já estão previstas. Isso passa pela educação de todos: do tripulante, da empresa e até do próprio passageiro", orienta. Prédio da Anac, em Brasília — Foto: Anac/Divulgação Relembre a tragédia Logo após a tragédia, duas investigações foram abertas. O Cenipa passou a apurar os fatores que contribuíram para a queda e indicar medidas para evitar novos acidentes. Tragédia da Voepass: vídeo mostra como foi acidente de avião em Vinhedo O que diz a Voepass "A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS. Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória. Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação. A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões de segurança internacionais, contando inclusive com a certificação IOSA desde 2012, um requisito de excelência operacional emitido apenas para empresas auditadas IATA. A tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação. Desde o início das apurações, a VOEPASS atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário". VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região
Relatório do Cenipa aponta prática da Voepass para burlar manutenção | G1
Investigação detalha como a companhia registrava panes como corrigidas sem reparo, aponta falhas na cultura de segurança e faz recomendações à Anac.
















