Instrumentistas querem mostrar ao Brasil que o compositor e arranjador pernambucano, reconhecido pela MPB e pelo jazz internacional, é mais que apenas um verso do ‘Samba da bênção’, de Vinicius de Moraes 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Moacir Santos, em 2001, com os músicos que iriam gravar um disco em sua homenagem — Foto: Fabio Seixo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Nascido no sertão de Pernambuco, músico superou infância humilde para se tornar referência internacional no jazz e professor de grandes nomes da MPB, como Nara Leão e Baden Powell. No centenário de seu nascimento, o maestro é homenageado com a primeira edição de um festival em sua cidade natal e por tributos de diversos músicos no Brasil e no exterior. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Nascido há cem anos em Flores do Pajeú, no sertão pernambucano, Moacir Santos foi deixado para adoção, teve uma infância pobre, entre trabalhos braçais e maus-tratos, e foi salvo pela educação musical: aos 14 anos já tocava vários instrumentos e chegou a ser maestro de uma banda antes de fugir de casa e virar músico itinerante. No Rio dos anos 1950, encontrou reconhecimento na Rádio Nacional, entre os músicos e, mais tarde, igualmente entre músicos, nos Estados Unidos, onde morou até a morte em 2006. A totalidade do Brasil, no entanto, nunca reconheceu sua genialidade. Desde sábado, a cidade natal sedia a primeira edição do Festival Ouro Negro do Pajeú — Festi’Ouro, com concertos de músicos da cidade homenageando a obra do maestro. Pelo país, músicos como a pernambucana Neris e o paulistano Allan Abbadia (ambos trombonistas e com 40 anos) fazem shows com foco em músicas de Moacir. Nos Estados Unidos, o violonista brasileiro Marcello Gonçalves e a clarinetista israelense Anat Cohen seguem apresentando o show de “Outra coisa”, disco que lançaram há dez anos para celebrar composições e arranjos do pernambucano. — Tem músicos incríveis em Flores. Deve ser alguma coisa na água daqui. Só que na cidade não tinha uma banda sequer que tocasse Moacir Santos — conta Tiago Martins Rêgo, curador e diretor de produção do Festi’Ouro. — A gente quer que os jovens se identifiquem com a obra dele. No festival, a gente tem uma camerata clássica, um quarteto de trombones, uma banda de pífanos, percussionistas do Morro da Conceição. O maestro Moacir Santos, nos anos 1960, em foto do livro "Tempo feliz", do jornalista Renato Vieira, sobre a gravadora Forma — Foto: Divulgação Aluno, no Rio, de mestres da música clássica como Hans-Joachim Koellreutter e Guerra-Peixe, o pernambucano desenvolveu a escrita de arranjo para big bands e se tornou professor de música de nomes como Nara Leão, Roberto Menescal e Baden Powell. Sua fama de sumidade da música correu aos poucos. “A bênção, Moacir Santos, tu que não és um só, és tantos”, saudou Vinicius de Moraes em verso do “Samba da bênção” (1966). Autor de trilhas para cinema, o maestro chamou a atenção dos americanos, que o convidaram para trabalhar (muitas vezes sem crédito) em filmes de Hollywood. Em 1967, Moacir se mudou para Pasadena, na Califórnia, com a mulher, Cleonice. Os LPs que gravou nos anos 1970 para o respeitado selo jazzístico Blue Note (como “Maestro” e “Saudade”) mal chegaram ao Brasil. Desconhecido era pouco a se dizer sobre Moacir Santos em 2001, quando os músicos e produtores Mário Adnet e Zé Nogueira gravaram o álbum “Ouro Negro”. Zé conheceu Moacir quando estava em Los Angeles e o maestro fez um arranjo para “Capim”, faixa do LP “Luz” (1982), de Djavan. Mario sabia dele por causa do LP “Baden Powell swings with Jimmy Pratt” (1963), em que o violonista gravou “Coisa n° 1” e “Coisa n° 2”. — Moacir era um arranjador que cuidava de todos os detalhes. Ele escrevia o baixo, uma coisa que faz toda diferença numa música, para você construir o arranjo depois — disseca Mario Adnet. — Era genial, de uma intuição extrema. Foi um menino prodígio, de as pessoas ouvirem falar daquele garotinho que tocava clarinete pra cacete. Mais tarde ele pôde estudar profundamente tudo aquilo que sabia intuitivamente. Painel em homenagem ao compositor e arranjador Moacir Santos na Rua Benjamin Constant, na Glória, Rio de Janeiro — Foto: Marina Calderon A ideia em “Ouro Negro” era a de regravar as composições de Moacir com grandes astros da MPB (Djavan, Milton Nascimento, Gilberto Gil, João Donato, Joyce Moreno, Ed Motta), em especial as do LP “Coisas” (1965), gravado por Moacir antes de ir para os Estados Unidos, que estava esquecido, sem reedição (seria reconhecido por críticos como um dos grandes discos brasileiros do jazz). Com letra de Mário Telles, “Coisa n° 5”, gravada nesse disco, virou “Nanã”, um clássico da música brasileira em gravações de Wilson Simonal e Nara Leão. — Os arranjos do “Coisas” tinham desaparecido. Tivemos de ouvir as gravações para tirá-los e reescrevê-los — conta o produtor, lembrando que Moacir veio ao Brasil para acompanhar as gravações, já com a saúde bem prejudicada por um AVC em 1995 que lhe tirou os movimentos da mão direita. — Quando a gente botou para tocar as músicas, ele falou: “Ué, como é que vocês me puseram aí?” Para nós, foi como ganhar estrelinha do professor. Painel em homenagem ao compositor e arranjador Moacir Santos na Rua Benjamin Constant, na Glória, Rio de Janeiro — Foto: Marina Calderon Complementado por um DVD com entrevistas e um songbook, “Ouro negro” apresentou Moacir ao Brasil e garantiu que Mario Adnet e Zé Nogueira gravassem “Choros & Alegria”, de 2005, que contou com participação especial do trompetista e gigante americano do jazz Wynton Marsalis. Uma biografia (“Moacir Santos — Ou os caminhos de um músico brasileiro”, 2016, da flautista Andrea Ernst Dias) e muitos tributos se seguiram ao disco, decisivo para jovens músicos, como Allan Abbadia. — Moacir usou essa formação dele, de bandas do interior, em contraponto a tudo que estudou da música ocidental e das musicalidades africanas. Ele frequentou muito, no Rio, a Orquestra Afro-Brasileira do Abigail Moura — conta Allan, que na terça-feira apresenta no Sesc Copacabana o show “Ifè”, dedicado a Moacir, Abigail, Pixinguinha e Letieres Leite (da Orkestra Rumpilezz, que em 2022 lançou o LP “Moacir de todos os Santos”). — Ele traz toda essa bagagem ancestral, folclórica, e se coloca como um modernista. Primeira mulher bacharela em trombone do Nordeste, Neris Rodrigues (que faz show comemorativo dos 100 anos de Moacir) conta como as análises que fez das composições do maestro a apoiaram em suas decisões musicais: — Quando você se depara com uma pessoa que pensa no deslocamento de tempo, em outros padrões rítmicos, percebi que estava indo no caminho certo. Fã de “Ouro Negro” (que hoje Mario Adnet tenta reeditar pela Três Selos Rocinante como um LP triplo), Anat Cohen foi convencida por Marcello Gonçalves (que tocou nas gravações de “Choros & Alegria”) de que era a hora, em 2016, de gravar um disco para Moacir Santos. — Em qualquer momento que a gente pega uma música do Moacir, sempre é fresca, não tem som de música antiga. Então, é sempre um prazer reencontrar essas melodias e imaginar novas formas de expressá-las — diz a israelense.
O maestro que não era 'um só, mas tantos': nos 100 anos de nascimento, os tributos a Moacir Santos
Instrumentistas querem mostrar ao Brasil que o compositor e arranjador pernambucano, reconhecido pela MPB e pelo jazz internacional, é mais que apenas um verso do ‘Samba da bênção’, de Vinicius de Moraes







