Quando Mario Adnet estava recriando as partituras de "Coisa Nº 3", do maestro Moacir Santos, ele se deparou com um problema. "Parecia uma música em três [tempos por compasso], mas era um quatro com um três dentro. Não era fácil entender a matemática dela", diz o violonista, que regravou parte da obra do gênio pernambucano no projeto "Ouro Negro", de 2001, ao lado do saxofonista Zé Nogueira, morto em 2024.

As partituras originais do disco "Coisas", de Moacir, se perderam. O próprio álbum, de 1965, passou décadas fora de catálogo e, de tão raro, seu vinil original chegou a custar mais de R$ 3.000. Adnet e Nogueira desvendaram algumas engrenagens musicais das "coisas", mas o enigma por trás do maestro que criou um jeito próprio, altamente sofisticado, de fazer música brasileira, ainda não foi totalmente desvendado.

Neste domingo, quando Moacir faria cem anos, segue pertinente a observação do produtor Roberto Quartin em texto-manifesto publicado no encarte de "Coisas". "Esse seu disco pode ser um grito de desespero contra tudo isso que está errado, contra tudo que impediu que fosse ele reconhecido mais cedo. Posso, porém, assegurar: Moacir deu um grito de desespero afinado."

O reconhecimento a Moacir veio em parcelas, e não parece contemplar a magnitude de sua obra. Menino prodígio nas bandinhas militares do sertão nordestino, ele passou a juventude peregrinando, tocando por um prato de comida, até se estabelecer no Rio de Janeiro. Foi o primeiro e único maestro negro da Rádio Nacional, deu aulas para a nata da bossa nova e se tornou um nome respeitado nos círculos de jazz dos Estados Unidos, onde morou desde 1967 até a sua morte, em 2006.