Oliver Stuenkel, especialista em relações internacionais, chama atenção para o avanço de novos tratados comerciais em reação ao isolacionismo dos EUA: ‘Não acredito em desglobalização’ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Há questões inegociáveis, como Pix e ação do Judiciário, diz Oliver Stuenkel — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/07/2026 - 22:33 Protecionismo dos EUA impulsiona novos acordos comerciais globais O especialista Oliver Stuenkel analisa o protecionismo do governo Trump, que impôs tarifas a 60 países, incluindo o Brasil, sob alegações de práticas de trabalho forçado. Para Stuenkel, apesar das tarifas persistirem após Trump, não haverá uma "desglobalização". A postura dos EUA impulsiona novos acordos comerciais globais, mostrando um cenário paradoxal de protecionismo e incentivo ao livre comércio. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Com uma nova ofensiva contra 60 parceiros comerciais, incluindo o Brasil, por meio da imposição de tarifas de 10% a 12,5% sob a alegação de que eles falham no combate à importação de produtos com vínculo ao trabalho forçado, o governo do presidente Donald Trump segue com sua cruzada de protecionismo à economia americana. Para Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, e pesquisador no Carnegie Endowment for International Peace, em Washington, e do Belfer Center na Harvard Kennedy School (HKS), as tarifas continuarão existindo mesmo após o fim deste governo. Mesmo assim, Stuenkel não acredita numa “desglobalização”. Para o especialista, os países estão reagindo e assinando novos acordos comerciais. A escalada tarifária de Trump neste mês incluiu a taxação de 25% para produtos brasileiros por supostas práticas desleais de comércio, uma sobretaxa de 50% para determinados itens canadenses, o anúncio de alíquota de 100% sobre genéricos e a imposição de taxas por suposto vínculo a trabalho forçado para uma gama de países. Na sexta-feira, o republicano indicou um novo front em sua guerra comercial, ao ameaçar a União Europeia com uma investigação após o bloco multar o Google em US$ 1 bilhão por não respeitar a Lei de Mercados Digitais. Na prática, um sinal de que tarifas podem ser a nova arma em defesa de big techs. O senhor avalia que as tarifas que o presidente Donald Trump está impondo ao Brasil e a diversos países serão revistas após o fim deste governo? Acredito que as tarifas provavelmente continuarão existindo mesmo após a era Trump, mas não por uma questão de arrecadação tributária, já que a receita proveniente delas é muito pequena e não chega nem perto do que os Estados Unidos arrecadam com o Imposto de Renda e tributos similares. Além disso, uma vez adotadas políticas protecionistas, o setor beneficiado por elas ganha poder econômico e político, passando a se organizar para manter esses privilégios. Portanto, é mais fácil criar barreiras do que removê-las. E o Partido Democrata não é um partido defensor do livre comércio. Houve uma mudança de consenso. Nesse sentido, algumas tarifas permanecerão. Acredito que aquele período de defesa do livre comércio chegou ao fim por lá. Essa postura predominou nas primeiras décadas após a Guerra Fria, mas dificilmente retornará hoje em dia. Impor essa alíquota de 12,5%, por exemplo, faz sentido? Ou é apenas uma forma de tentar justificar legalmente mais uma onda de tarifas? O presidente Donald Trump está claramente lançando essas “investigações” para justificar as tarifas. É um plano B para ter uma justificativa mais robusta do ponto de vista jurídico. O Brasil tem uma atuação muito sofisticada no combate ao trabalho escravo, com tributação, multas, esse tipo de coisa. E há também outros países nessa lista que contam com leis contra esse tipo de prática. Então, trata-se basicamente de buscar motivos, temas para justificar o acionamento desse instrumento, a Seção 301 da Lei de Comércio. Poderiam buscar qualquer outra coisa como justificativa. Qual o impacto desta multiplicação de sobretaxas para o comércio global? Não acredito que entraremos em uma fase de “desglobalização”. Pelo contrário, outros países estão reagindo e assinando novos acordos comerciais. Paradoxalmente, a postura protecionista dos EUA gera, no restante do mundo, uma tendência mais favorável ao livre comércio. Qual deve ser a resposta a esse novo tarifaço americano? O ideal seria uma resposta multilateral. Isso porque o Brasil, a princípio, tem a chance de formar um bloco e agir em conjunto com os países afetados. Trata-se, claramente, de uma tarifa de cunho político, visto que o Brasil apresenta déficit comercial com os Estados Unidos. O superávit é dos americanos. Ou seja, do ponto de vista comercial, não faz sentido taxar um país com o qual se mantém um superávit. Há, portanto, toda uma visão de um mundo mais protecionista por trás disso. O senhor avalia que usar a Lei de Reciprocidade é uma alternativa para o Brasil? Acredito que o Brasil deva reagir com muita calma e firmeza, mantendo todos os canais abertos e sem fazer concessões desnecessárias. Deve também atuar por meio da Organização Mundial do Comércio (OMC) e estudar a possibilidade de aplicar a Lei de Reciprocidade, mas sem provocações excessivas e sem tributar produtos americanos sem antes analisar cuidadosamente o impacto disso sobre o consumidor brasileiro. No entanto, o mais importante, e o governo já fez isso, é deixar bem claro que existem questões inegociáveis: o Pix não é negociável, a atuação do Judiciário brasileiro não é negociável. Portanto, há uma série de pontos que não devem ser incluídos na negociação. Esse tarifaço pode impactar negativamente o governo Trump, considerando que pode causar aumento de preços de produtos nos EUA? Sem dúvida, as tarifas geram inflação. E quem paga essa conta é o consumidor americano. E isso explica, em parte, a inflação que já estamos observando agora nos EUA. Além disso, o tarifaço contribui para a baixa taxa de aprovação do governo. E os integrantes do governo sabem disso. Vários assessores de Donald Trump tentaram convencê-lo a adiar essas medidas, especialmente antes das eleições de meio de mandato (que renovam a Câmara de Representantes e um terço do Senado dos EUA), em novembro.