Força Aérea Brasileira divulgou na quinta-feira o relatório final da investigação da queda de aeronave que deixou 62 mortos em 2024; companhia afirma que colabora com as autoridades 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Avião da Voepass que matou 62 pessoas ao cair em Vinhedo (SP) — Foto: Nelson Almeida/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/07/2026 - 09:09 Voepass defende segurança após relatório da FAB sobre acidente de 2024 A Voepass afirmou que opera sob padrões internacionais de segurança após a FAB divulgar o relatório sobre o acidente de 2024 em que 62 pessoas morreram. O relatório aponta que o acúmulo de gelo nas asas, não registrado e ignorado, foi a causa direta, revelando falhas na manutenção e supervisão da empresa. A Voepass destacou sua certificação IOSA e a experiência da tripulação. A Anac analisará as conclusões. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A Voepass afirmou, em nota divulgada nesta sexta-feira (24), que sua atuação “sempre esteve pautada em padrões internacionais de segurança”, além de contar com uma “tripulação experiente”. O posicionamento foi divulgado após o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) apresentar o relatório final sobre o acidente que matou 62 pessoas em Vinhedo, no interior de São Paulo, ocorrido em agosto de 2024. O órgão, vinculado à Força Aérea Brasileira (FAB), afirmou que o acúmulo severo de gelo nas asas, em meio a condições meteorológicas extremas, foi a causa direta da queda do avião, e que o desastre resultou de uma cadeia de falhas que envolveu problemas recorrentes no sistema de degelo da aeronave, panes não registradas pela companhia, alertas ignorados pela tripulação e deficiências na fiscalização da empresa. No texto, a empresa afirma que a queda do voo 2283 “foi o episódio mais difícil da história da Voepass” e diz que esteve solidária às famílias das vítimas desde o momento do acidente. Além disso, destaca que esse foi o primeiro acidente em mais de 30 anos de operação (leia a íntegra abaixo). A nota ressalta que a atuação da empresa “sempre esteve pautada em padrões internacionais de segurança”, incluindo a certificação IOSA, obtida em 2012. A certificação avalia e atesta a segurança operacional, a qualidade da gestão e os processos de controle das companhias aéreas. A Voepass também afirma que a tripulação era “experiente, capacitada e devidamente certificada”, acumulando mais de 5 mil horas de voo, além de treinamentos técnicos e acompanhamento de saúde “rigorosamente atualizado”. Por fim, a empresa afirma que atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e que segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário. Causas do acidente O acúmulo severo de gelo nas asas, em meio a condições meteorológicas extremas, foi a causa direta da queda do avião da Voepass que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em agosto de 2024. Mas, segundo a investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o desastre foi resultado de uma cadeia de falhas que envolveu problemas recorrentes no sistema de degelo da aeronave, panes não registradas pela companhia, alertas ignorados pela tripulação e deficiências na fiscalização da empresa. A Força Aérea Brasileira (FAB) divulgou na quinta-feira o relatório final da investigação. O sistema responsável por impedir o acúmulo de gelo nas asas do avião já havia apresentado falhas em voos anteriores, mas os problemas não foram registrados nos documentos de manutenção. A prática, segundo o Cenipa, era recorrente na Voepass: pilotos e mecânicos deixavam de comunicar panes para que as aeronaves continuassem recebendo autorização para operar. O avião que caiu em Vinhedo, por exemplo, apresentou a mesma falha no sistema de degelo em três voos consecutivos antes do acidente. A aeronave poderia ter continuado a operar, segundo os investigadores, desde que obedecesse a restrições de altitude e duração dos voos e não fosse utilizada em condições de gelo severo. No entanto, no dia do acidente, enfrentou um cenário de alta umidade e intensa formação de gelo. O comandante conhecia as condições meteorológicas e também tinha conhecimento de panes apresentadas pela aeronave no voo anterior, apontaram as investigações. Durante o voo, o avião recebeu oito alertas sobre o acúmulo de gelo nas asas. A caixa-preta mostra que, enquanto os alertas eram emitidos, os dois pilotos conversavam sobre assuntos pessoais. Em uma das ocasiões, o comandante afirmou ter esquecido de acionar o sistema de degelo e disse ao copiloto que o teria ligado. Segundo o Cenipa, porém, o sistema permaneceu desligado. ‘Cegueira por desatenção’ A tripulação também não declarou emergência às autoridades, mesmo diante de um aviso grave sobre a possibilidade de perda de desempenho da aeronave. Sob estresse, os pilotos não teriam conseguido reconhecer a gravidade da situação e reagir de maneira adequada. Os investigadores definiram o fenômeno como “surdez e cegueira por desatenção”. O Cenipa também apontou que problemas pessoais enfrentados pelo comandante afetaram negativamente seu desempenho. Havia ainda outras panes. Entre elas, uma falha no limpador de para-brisa, que, pelas regras de operação, impedia o voo caso houvesse previsão de chuva uma hora antes ou depois da decolagem ou do pouso. A aeronave, no entanto, continuou em operação. — A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem. Isso também valia para o horário estimado de pouso para a decolagem de destino ou na localidade da alternativa — disse o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado pelo Cenipa. Panes omitidas Na noite anterior à queda, o avião apresentou uma falha no sistema de degelo das duas asas. O problema não foi registrado pela tripulação no diário de bordo, documento obrigatório que reúne informações sobre panes, manutenção e substituição de peças. A mesma situação voltou a ocorrer na asa direita nos dois voos seguintes, sem ser comunicada. A repetição do problema por três tripulações diferentes levou os investigadores a analisarem um ano de operações da aeronave. O levantamento revelou outras falhas que também não haviam sido adequadamente registradas. Para o Cenipa, o padrão revelava uma cultura organizacional de “normalização de desvios” na Voepass, antiga Passaredo, que chegou a ser a quarta maior companhia aérea do país. Os investigadores também encontraram outro episódio grave. Meses antes da queda em Vinhedo, uma aeronave da Voepass entrou em condição de stall, quando perde sustentação. O caso não foi comunicado à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) nem ao próprio Cenipa. O órgão da FAB apontou que auditorias e inspeções realizadas pela Anac antes do acidente revelaram “diversas não conformidades” relacionadas à manutenção das aeronaves da Voepass, à rastreabilidade de componentes e à prática recorrente de reporte informal de panes — ou até o não reporte. Em janeiro de 2023, a agência havia suspendido oito dos 15 aviões que a empresa possuía na época. O relatório da investigação, porém, também apontou deficiências na fiscalização da agência. Segundo o Cenipa, as constatações da Anac “não foram capazes de auxiliar nas tomadas de decisões estratégicas necessárias à mitigação e ao controle dos riscos”. Em nota, a Anac afirmou que vai analisar as conclusões do Cenipa em até 120 dias. Leia a nota da Voepass na íntegra “A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da Voepass. Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória. Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de 3 décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação. A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões de segurança internacionais, contando inclusive com a certificação IOSA desde 2012, um requisito de excelência operacional emitido apenas para empresas auditadas pela Iata. A tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação. Desde o início das apurações, a Voepass atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário”.