Na Ilha Arena, ninguém recolhe o lixo. Ninguém mora lá; não há lojas, hotéis ou turistas permanentes. No entanto, esta pequena ilha no Caribe colombiano tornou-se um depósito inesperado de resíduos plásticos. Em um único dia de trabalho de campo, os pesquisadores coletaram 830 resíduos de lixo em apenas 779 metros quadrados. Mais de 95% desse lixo era plástico e, desse total, quase 80% eram garrafas de bebidas. A descoberta faz parte de uma investigação liderada pela Universidad del Atlántico e publicada na revista científica Marine Pollution Bulletin, que conclui que a Ilha Arena funciona como um ponto de acumulação de lixo transportado por correntes oceânicas de diferentes setores do Caribe colombiano. Uma ilha que reflete o que acontece no continente Localizada no departamento de Bolívar e a menos de um metro acima do nível do mar, a Ilha Arena não gera resíduos próprios. Precisamente por causa dessa condição, os pesquisadores a consideram um laboratório natural para entender como os resíduos produzidos em terra acabam afetando ecossistemas distantes dos centros urbanos. A densidade encontrada foi de 1,07 resíduo por metro quadrado, um valor comparável ao registrado em diversas ilhas habitadas ao redor do mundo. — A Ilha Arena não gera um único resíduo, mas serve como um espelho do que consumimos no continente. O fato de quase 80% do que encontramos serem garrafas de bebidas mostra que a simplificação dos nossos hábitos de consumo está sendo escrita, literalmente, nas praias do Caribe — explicou Nelson Rangel-Buitrago, pesquisador da Universidad del Atlántico e principal autor do estudo. Cientistas alertam que a ilha funciona como uma zona de retenção onde convergem detritos transportados por ventos, correntes e ondas provenientes de áreas costeiras densamente povoadas. Do plástico ao responsável Além da quantidade de lixo encontrada, o estudo introduziu uma ferramenta que pode mudar a forma como a poluição marinha é analisada. Os pesquisadores combinaram o sistema internacional de classificação de resíduos com uma metodologia desenvolvida pela própria equipe científica, que permite a identificação do fabricante, da marca e do país de origem. Graças a esse procedimento, foi possível determinar que 28% dos plásticos ainda continham informações suficientes para rastrear sua origem. Entre os resíduos identificáveis, a Colômbia apresentou o maior número de itens, com 225 dos 233 cuja origem pôde ser determinada. Embalagens do Panamá, Guatemala e Tailândia também foram encontradas. — O grande avanço neste trabalho é que deixamos de contabilizar o lixo anonimamente e começamos a nos perguntar quem o produz. Isso abre caminho para conversas sobre responsabilidade compartilhada e prevenção que antes eram impossíveis com os métodos convencionais — destacou Rangel-Buitrago. Uma ferramenta para combater a poluição Os autores esclarecem que o estudo corresponde a uma única campanha de amostragem e que seus resultados não podem ser automaticamente extrapolados para todas as ilhas do Caribe. No entanto, acreditam que a metodologia desenvolvida representa um avanço no fortalecimento das políticas de responsabilidade estendida do produtor e na melhoria do monitoramento da poluição plástica. O estudo também destaca que ecossistemas sensíveis, como a Ilha Arena, onde existem recifes de coral, macroalgas e pradarias marinhas, acabam por receber o impacto dos resíduos gerados a quilômetros de distância. Mais do que apenas uma ilhota desabitada, a Arena tornou-se um indicador silencioso de como os hábitos de consumo e as deficiências na gestão de resíduos acabam por deixar a sua marca mesmo em locais onde ninguém vive. E isso, concluem os investigadores, é talvez a prova mais clara de que a poluição por plástico já não reconhece fronteiras. Derretimento de gelo no Everest permite expedição em busca de vítimas da montanha 1 de 10 Derretimento de gelo no Everest permite expedição em busca de vítimas da montanha — Foto: Prakash Mathema/AFP 2 de 10 Campanha de limpeza, com um orçamento de mais de 600 mil dólares, empregou 171 guias e carregadores para trazer de volta 11 toneladas de lixo — Foto: Prakash Mathema/AFP X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 Tendas fluorescentes, equipamento de escalada descartado, botijões de gás vazios e até excrementos humanos cobrem o caminho trilhado até o cume — Foto: Prakash Mathema/AFP 4 de 10 Expedições estão sob pressão para remover os resíduos que criam, mas o lixo histórico permanece — Foto: Prakash Mathema/AFP X de 10 Publicidade 5 de 10 Toneladas de lixo estão sendo recolhidas do Everest — Foto: Prakash Mathema/AFP 6 de 10 Além do lixo, há o custo de milhares de dólares e até oito socorristas para resgatar cada corpo — Foto: Prakash Mathema/AFP X de 10 Publicidade 7 de 10 Um corpo pode pesar mais de 100 kg e, em grandes altitudes, a capacidade de uma pessoa de transportar cargas pesadas é gravemente afetada — Foto: Prakash Mathema/AFP 8 de 10 Grande quantidade de lixo é encontrada nas montanhas — Foto: Prakash Mathema/AFP X de 10 Publicidade 9 de 10 Mais de 300 pessoas morreram na montanha desde o início das expedições na década de 1920, oito só nesta temporada — Foto: Prakash Mathema/AFP 10 de 10 Devido aos efeitos do aquecimento global, corpos e lixo estão tornando-se mais visíveis à medida que a cobertura de neve diminui — Foto: Prakash Mathema/AFP X de 10 Publicidade Mais de 300 pessoas morreram desde o início das expedições, na década de 1920
Pesquisadores encontram em ilha desabitada no Caribe colombiano 830 resíduos de lixo plástico
Estudo liderado por pesquisadores aponta que a Ilha Arena se tornou um depósito natural de detritos vindos do mar










