É um comportamento persistente que não nasce de evidências 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Eleitor vota na urna eletrônica em 2022 — Foto: Custódio Coimbra RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/07/2026 - 22:08 Flávio Bolsonaro Questiona Urnas em Alinhamento com Jair Bolsonaro Flávio Bolsonaro questionou a confiabilidade das urnas em evento com diplomatas, ecoando a postura de seu pai, Jair Bolsonaro. Apesar de não haver evidências que justifiquem a desconfiança, o discurso busca reenergizar sua base política e responde a denúncias recentes. A desconfiança persiste, mesmo sem provas, e é vista como estratégia eleitoral, refletindo uma crença genuína compartilhada por muitos brasileiros. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Flávio Bolsonaro questionou a confiabilidade das urnas brasileiras em evento com diplomatas estrangeiros na última terça-feira. O episódio lembra o encontro com embaixadores convocado pelo então presidente Jair Bolsonaro em julho de 2022 no qual também atacou as urnas. O caso levou à inelegibilidade do ex-presidente. Embora Jair Bolsonaro fosse à época presidente da República e tivesse convocado os embaixadores usando a estrutura de governo e Flávio seja apenas pré-candidato, convidado a um evento privado com diplomatas, o paralelo se impõe. Do ponto de vista da estratégia eleitoral, há duas explicações para o movimento arriscado de Flávio. A primeira é que a retomada do discurso de descrença nas urnas buscaria reenergizar a base depois do surgimento de novas denúncias apontando vínculos com Daniel Vorcaro — entre elas, a foto com Sicário em um hotel e as notas fiscais de consultoria advocatícia com empresas ligadas ao Banco Master. Nessa explicação — de uma radicalização estratégica —, Flávio estaria tomando emprestado do pai tanto os posicionamentos radicais em temas como urnas e segurança pública quanto as lives inflamadas filmadas em ambiente improvisado, com o propósito de agitar a militância. A segunda explicação, mais especulativa, é que Flávio poderia estar cavando a sua própria cassação. Se ele souber que a Polícia Federal dispõe de evidências fortes de seus vínculos com Vorcaro, poderia ser mais vantajoso para ele ser cassado e aparecer como mártir da Justiça Eleitoral do que sangrar com as denúncias e perder para Lula com grande margem. Porém, além de excessivamente especulativa, essa explicação não parece consistente com a linguagem cuidadosa que Flávio adotou, enfatizando que não põe em questão a confiabilidade das urnas brasileiras. Seja como for, é preciso lembrar que, embora seja certo que Flávio se posiciona sobre as urnas de maneira estratégica, não há motivos para supor que ele — ou seu pai — o façam de maneira cínica. Tudo leva a crer que os dois realmente têm dúvidas sobre a segurança das urnas — no que são seguidos por milhões de brasileiros, como mostram as pesquisas. Supor que eles sabem que as urnas são seguras, mas mentem e manipulam os seus seguidores, é um grande equívoco de interpretação política. As evidências reunidas nos inquéritos dos atos antidemocráticos mostraram que Jair Bolsonaro usou dos recursos institucionais do Estado brasileiro para investigar a questão da segurança das urnas. Ele não forjou uma história e a difundiu, mas ficou tentando provar que sua desconfiança tinha fundamento. Por isso, recebeu o hacker de Araraquara, incentivou a formação da comissão de militares e encomendou o parecer do PL apresentado à Justiça Eleitoral. A fala de Flávio foi motivada pela publicização, na semana passada, de um relatório da CIA relatando que o governo venezuelano teria tentado fraudar as eleições de 2012 com urnas fornecidas pela empresa Smartmatic. A empresa prestou serviços logísticos e de conexão de dados ao TSE na década passada, mas nunca teve acesso à programação das urnas. A ligação foi suficiente para Flávio alegar que as urnas brasileiras “têm a mesma origem” das venezuelanas, o que é completamente falso. Em seguida, ressalvou que não estava questionando o sistema de votação, mas apenas pedindo o acompanhamento de observadores internacionais. As suspeitas envolvendo a Smartmatic são antigas. Em 2017, a empresa acusou o governo venezuelano de fraudar as eleições e encerrou operações no país no ano seguinte. Naquele ano, Rodrigo Constantino, então aliado dos Bolsonaros, escreveu que, se as urnas eletrônicas puderam ser fraudadas na Venezuela, também poderiam ser fraudadas no Brasil. O argumento foi usado nos anos de 2017 e 2018 e resgatado agora. A desconfiança das urnas é um comportamento persistente que não nasce de evidências. É como se os desconfiados buscassem argumentos para sustentá-la, invertendo o ônus da prova. O comportamento é o mesmo de outras desconfianças populistas contra instituições como a mídia ou a Justiça. Flávio questiona as urnas pela razão mais banal e mais difícil de combater: porque acredita que não são seguras — e porque sabe que não está sozinho.