Formado pela UCLA, Henrique Berri França transformou uma necessidade pessoal em duas marcas e defende que o consumidor masculino evoluiu mais rápido do que a oferta de produtos especializados no Brasil Divulgação — Foto: Divulgação Henrique Berri França estava na Califórnia quando percebeu o que faltava no Brasil. Morador de Los Angeles durante a graduação em Economia pela UCLA, ele havia incorporado à rotina uma série de produtos de cabelo que simplesmente não existiam no mercado brasileiro. Quando voltou ao país, em 2024, foi pesquisar onde comprar e encontrou o vazio. Foi ali que decidiu preencher a lacuna ele mesmo. A história poderia soar como mais um caso de empreendedor jovem com uma ideia boa. Mas o que Henrique construiu nos últimos anos sugere algo mais consistente: uma tese de mercado testada, validada e agora em expansão acelerada. A primeira prova Antes da Better, veio a Druon. Em 2023, ainda estudante, Henrique identificou nos Estados Unidos uma categoria praticamente inexistente no Brasil: calçados masculinos com tecnologia de elevação discreta, que adicionam altura sem revelar a estrutura do produto. Fundou a marca em sociedade com o pai, com capital próprio, e em pouco tempo transformou a ideia em negócio. A Druon faturou R$ 2,5 milhões em 2024, acumula mais de 25 mil clientes e projeta chegar a R$ 4 milhões até o final de 2026. A Druon não é o foco agora. Mas foi ela que confirmou a hipótese central de Henrique: o homem brasileiro compra quando encontra o que procura. O problema, na maioria das categorias masculinas, é que ele raramente encontra. O produto que não existia A Better nasceu de uma experiência pessoal direta. Henrique tem o cabelo liso e, nos Estados Unidos, havia começado a usar sea salt spray, produto que adiciona volume e textura de forma natural, como se o cabelo tivesse passado um dia na praia. Ao voltar para o Brasil e tentar repor o produto, descobriu que não havia equivalente nacional disponível. Contratou uma química, desenvolveu a fórmula, registrou a titularidade e lançou a marca em março de 2026. Três meses depois, os números já impressionam. Com recursos próprios, Henrique investiu no desenvolvimento da fórmula, identidade da marca e produção do primeiro lote. A Better foi lançada em março de 2026 e, nos três primeiros meses, vendeu quase 6 mil unidades e superou R$ 500 mil em faturamento. A meta para o primeiro ano é R$ 5 milhões. A marca está presente no TikTok Shop, Mercado Livre, site próprio e na loja física Matalab, no complexo Cidade Matarazzo, em São Paulo. "O homem brasileiro já quer consumir melhor. O problema não é demanda. O problema é oferta. Ainda faltam marcas que combinem performance, design, branding e experiência de forma sofisticada", diz Henrique. O que o mercado ainda não entendeu A tese de Henrique parte de uma comparação direta entre o mercado americano e o brasileiro. Nos Estados Unidos, marcas masculinas há anos operam com foco em construção de desejo, identidade e comunidade. No Brasil, grande parte das categorias ainda trata o homem de forma genérica e funcional. O dado que ele costuma citar ilustra bem o argumento: a indústria de beleza brasileira figura entre as maiores do mundo, mas a fatia voltada ao público masculino ainda é proporcionalmente pequena e dominada por grandes generalistas. Para Henrique, esse desequilíbrio não é um problema de demanda. É um problema de oferta e de visão de mercado. "Lá fora, as marcas entendiam o homem como um consumidor de lifestyle. Não vendiam só um produto. Vendiam disciplina, confiança, performance e identidade. No Brasil, isso ainda está muito no começo", afirma. É justamente esse começo que ele quer ocupar. A Better deve ampliar o portfólio nos próximos meses, com pomadas, produtos para cabelo ondulado e outras linhas de styling masculino. Em setembro, Henrique se muda para Nova York para se especializar em inteligência artificial aplicada a pequenos negócios, com foco em automação de operações. Para quem construiu duas marcas antes dos 24 anos operando de forma majoritariamente remota, com equipe enxuta e logística terceirizada, o próximo passo parece natural: usar tecnologia para escalar sem perder eficiência. "O futuro do consumo masculino no Brasil passa por marcas mais específicas, mais sofisticadas e mais honestas sobre as dores reais do homem moderno. Quem entender isso primeiro vai liderar essa transformação."