Uma Porto Alegre cinzenta, deserta, na iminência de ser destruída por enchentes apocalípticas. Esse é o cenário do filme "Futuro Futuro", de Davi Pretto, uma distopia sobre o ápice das mudanças climáticas. O que o diretor não imaginava era que, durante as filmagens, a ficção se tornaria realidade.

Em maio de 2024, a prefeitura da capital gaúcha decretou a evacuação do centro da cidade, onde Pretto gravava as últimas cenas de "Futuro Futuro", devido às enchentes reais. As chuvas torrenciais fizeram o rio Guaíba transbordar e alagar Porto Alegre. O mesmo ocorreu por todo o Estado, no desastre natural potencializado pela crise climática e apontado como o pior da história do Rio Grande do Sul.

"Futuro Futuro" só foi terminar três meses depois, quando as águas baixaram. Em setembro do ano passado, o longa foi eleito melhor filme no 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e, agora, chega aos cinemas por todo o país.

"Essa coincidência trágica nos fez pensar como dar conta desse sentimento de luto coletivo", reflete Pretto, por videochamada, autor também do terror "Continente", de 2024, e do suspense "Rifle", de 2016.

O longa acompanha K., homem que acorda sem memórias de si mesmo na periferia da cidade, segregada dos bairros nobres por muros. Ele é acolhido pelo idoso Silvio, que como os outros do bairro, participa de um curso que ensina a trabalhar com inteligência artificial. É nessa escola que K. usa um dispositivo de IA que gera imagens de acordo com as memórias de cada indivíduo, capturadas pelo aparelho durante uma espécie de hipnose.