O arsenal de crédito do Plano Brasil Soberano 3 às empresas afetadas pelo tarifaço de Donald Trump, conforme anunciado pelo governo, é apenas uma das estratégias necessárias para o país se posicionar no comércio internacional, avaliam economistas. Em um ambiente de maior protecionismo, dizem, a longo prazo é preciso fortalecer a negociação comercial com Washington e acelerar políticas de promoção das exportações e diversificação de mercados. Os especialistas observam ainda que o uso de crédito subsidiado aumenta a pressão sobre as contas públicas e dificulta o trabalho do Banco Central para controlar a inflação. Para Katherine Hennings, pesquisadora associada do FGV Ibre e analista da BRCG Consultoria, o socorro às empresas precisa ser acompanhado de uma estratégia para reduzir a dependência do mercado americano: — O governo tenta negociar (com os EUA), mas não é fácil. Ele já deveria estar trabalhando para abrir novos mercados e ampliar acordos comerciais. Essas negociações levam muito tempo. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, defende que o Brasil Soberano seja focalizado e tenha duração limitada. Ele diz ainda que o governo deve trabalhar mais para conquistar mercados e costurar novos acordos comerciais, pois as barreiras comerciais não sairão do horizonte tão cedo: — Num mundo que está se fechando e ficando mais protecionista, o caminho de fazer acordos comerciais, como o que fizemos com a União Europeia, é o melhor que se pode conseguir para a indústria brasileira. E, nesse caso, podemos tentar trabalhar com os europeus no sentido de redirecionar o que iria para os EUA. Dívida mais elevada Os economistas alertam também para a possibilidade de o governo criar um programa mal calibrado em relação à quantidade de setores que podem captar recursos, bem como de sua duração. Katherine considera que o governo acabou virando alvo das pressões do empresariado e, não por acaso, o programa flexibilizou a regra de participação das exportações no faturamento das empresas para a obtenção do crédito, o que acabou ampliando o público beneficiado. — O governo incluiu empresas afetadas pela instabilidade no Golfo Pérsico e setores como o farmacêutico, o mineral e o têxtil — diz Katherine, da BRCG. — Essas características foram mantidas do Brasil Soberano 2 para o 3. Há uma diferença entre o que o governo anuncia e a forma como vem utilizando o programa, ampliando o alcance para financiar um número cada vez maior de empresas. É claro que as empresas vão querer pegar crédito a um custo mais baixo — explica. Como consequência, segundo Katherine, o programa acaba ampliando pressões sobre o lado fiscal das contas públicas e gera distorções no mercado de crédito: — O governo vai criando canais de financiamento justamente em um momento em que a política monetária busca desacelerar a economia. Ele dá incentivos com a outra mão e dificulta o trabalho do Banco Central de calibrar os juros e controlar a inflação. Zeina Latif, sócia da Gibraltar Consulting e colunista do GLOBO, concorda que o montante destinado à terceira edição do programa, por mais que sejam utilizados recursos de fora do Orçamento, se torna impulso fiscal, o que dificulta o trabalho da autoridade monetária no seu trabalho de condução dos juros. — O país falha em abertura comercial, há um ambiente de negócios hostil, um ambiente macroeconômico difícil, em que não é possível prever qual deve ser a taxa de juros daqui a três anos— diz ela. — Qualquer que seja o caminho, no fim do dia estamos falando de dívida pública mais elevada, mesmo que seja fora do Orçamento, mesmo com uso de fundos. E o BC está aí, num esforço (para baixar os juros). São oportunidades que você teria para ter uma dívida pública menor, criando um ambiente macroeconômico melhor e mais competitivo, e não se faz. A sócia da Gibraltar avalia que o montante anunciado à nova edição é bastante representativo comparado com outras economias. Ela diz também não conhecer os resultados efetivos das últimas duas edições do programa na economia brasileira, dado que não se sabe qual o impacto no PIB das rodadas anteriores. Para Zeina, falta hoje um “plano de voo” no desenho de negociações comerciais com o mundo, o que acaba refletindo em medidas emergenciais, como o Brasil Soberano número três: — Poderíamos estar discutindo a redução de tarifas de importação, mas o setor produtivo reage, então é preciso fazer algo paulatinamente. Hoje há, pelo governo, algum desenho de acordo, como com a Coreia e a Índia, o que é positivo. Mas não vemos um plano de voo claro na política externa, de movimentos de mais longo prazo. Para Sergio Valle, resta saber por quanto tempo o governo manterá o programa. Ele lembra que, em 2008, o socorro agravou o lado fiscal, desaguando na crise de 2015/2016. A Apex Brasil chegou a reservar R$ 130 milhões para diversificar os mercados de exportação do Brasil após a sobretaxa de 25% imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros. O plano, porém, será implementado no começo de agosto. Mas as empresas já amargam os impactos do tarifaço ao longo do mês de julho, especialmente com a entrada em vigor dos 25%, além da previsão da aplicação de outros 12,5% sobre produtos brasileiros que deve ser anunciado ainda esta semana pelos EUA. José Velloso, presidente executivo da Abimaq, que reúne as empresas de máquinas e equipamentos, disse que “os recursos (do plano) parecem bastante suficientes”. Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o programa “ajuda a aliviar o duro golpe” do tarifaço.
Para analistas, programa de socorro às empresas afetadas pelo tarifaço é apenas uma das estratégias necessárias
Brasil Soberano ainda elevará pressão sobre as contas públicas e sobre o BC













