Especialistas apontam risco de baixa efetividade no auxílio a setores afetados pelo tarifaço Lívio Ribeiro: “O Brasil Soberano tem cada vez mais cara de política industrial; a questão do tarifaço é muito mais um pretexto” — Foto: Leo Pinheiro/Valor O programa Brasil Soberano 3, a resposta do governo ao tarifaço americano com base na investigação da seção 301, ode não ser a resposta mais adequada, conforme economistas ouvidos pelo Valor. Uma das principais críticas é a de que o plano se presta mais a estimular a economia do que a socorrer efetivamente os setores afetados pelo tarifaço. Para o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, o plano Brasil Soberano 3 não deve ser efetivo em ajudar as empresas impactados pela perda de concorrência de suas exportações ao país da América do Norte e repete a mesma fórmula de subsídios que deram errado no passado. “Lembra os planos que o governo tanto fazia especialmente na saída da crise financeira de 2008. É mais um plano de estímulo de crescimento utilizando recursos do Tesouro e do BNDES que levou à crise econômica de 2015 e 2016”, critica Vale. “É uma medida que tem aquela mesma ideia de preservar empregos e estimular a economia. Não funcionou daquela vez e tenho dúvidas de que possa funcionar”, acrescenta. Para Vale, a única resposta possível para ajudar efetivamente as empresas brasileiras impactadas é abrir novos mercados no exterior. O economista-chefe da MB Associados pontua que a iniciativa do presidente Donald Trump de utilizar a imposição de tarifas com a ambição de reindustrializar o seu país é o grande equívoco da questão toda, mas avalia que a resposta do Brasil representada pelo plano Brasil Soberano 3 não substituirá a abertura de novos mercados que precisa ser feita com o respaldo do governo. Vale também mostra preocupação com o impacto fiscal do Brasil Soberano 3 em um cenário que já de desconfiança em relação ao atual governo neste aspecto, apesar da promessa do governo de que não haverá impacto no resultado primário porque se tratar de despesas financeiras reembolsáveis. “Entendo que o governo tenha que dar uma resposta no meio dessa crise, até porque tem uma eleição complicada adiante. Mas esse tipo de política mais atrapalha do que ajuda. Piora a indústria brasileira. O caminho precisa ser outro”, afirma Vale, reforçando que a perda de competitividade no mercado americano deve ser duradoura e que o ideal é fortalecer os esforços para abrir novos mercados para as empresas brasileiras no mundo. O programa tem se distanciado do objetivo original de socorrer empresas diretamente impactadas pelo tarifaço dos Estados Unidos, na visão de Lívio Ribeiro, sócio da BRCG e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Segundo ele, as três edições do Brasil Soberano mostram uma ampliação gradual do alcance da política, incorporando fornecedores e outros segmentos da cadeia produtiva, o que faz com que a iniciativa “tenha cada vez mais cara de política industrial” e menos de uma medida focalizada para enfrentar os efeitos das tarifas. Na avaliação de Ribeiro, embora o valor total destinado ao programa tenha diminuído em relação às edições anteriores, os subsídios concedidos cresceram e os critérios para acesso aos recursos ficaram mais amplos. Ribeiro afirma ainda que o crédito subsidiado gera custos para as contas públicas por meio da equalização de juros, pressionando a dívida pública e reduzindo a potência da política monetária, o que pode exigir juros básicos elevados por mais tempo para controlar a inflação. Para ele, a principal mudança ao longo das três versões do programa, que começou em julho de 2025, foi a ampliação de seu escopo. “O Brasil Soberano tem cada vez mais cara de política industrial. A questão do tarifaço é muito mais um pretexto do que efetivamente a focalização que está sendo buscada para as políticas colocadas em circulação”, afirma. Na avaliação do economista, a expansão do crédito subsidiado também tende a dificultar a redução dos juros básicos da economia. Também da BRCG, o economista Matheus Ribeiro afirma que o programa já era esperado, porque o atual governo tem optado por medidas via despesas financeiras, diz. “São instrumentos que o governo tem utilizado com alguma preferência, que não necessariamente aparecem no resultado primário, mas que, nem por isso, não vão desembocar na dívida direta ou indiretamente”, afirma Matheus Ribeiro. Ele diz que a área técnica do governo já sinalizou, em estudos recentes, ter a avaliação de que medidas de impulso creditício via despesas financeiras afetam pouco ou nada a inflação de forma significativa e que, por outro lado, podem ter efeitos positivos sobre arrecadação, PIB e emprego. “O governo não enxerga essas políticas com o potencial de impacto para inflação e condução da política monetária que o mercado, incluindo nós, enxerga”, diz Ribeiro. Para ele, como o governo já vinha tomando outras medidas de crédito facilitado, juntou-se “a conveniência do ponto de vista eleitoral com a efetiva justificativa do ponto de vista geopolítico”, afirma. Pelos cálculos da consultoria, as despesas financeiras orçadas saíram de 0,9% do PIB em 2023 para 2,2% até 21 de julho deste ano. Como a análise é feita pela despesa orçada e o governo sinalizou que deve utilizar sobras de recursos de outras medidas, pode ser que esse número não mude expressivamente após a publicação da Medida Provisória (MP) do Brasil Soberano 3, observa Ribeiro. “Mas a ideia de que esses recursos têm sido utilizados pelo governo para além de questões geopolíticas está cristalina”, afirma.
Brasil Soberano 3 é mais estímulo à economia que plano de socorro, avaliam economistas
Especialistas apontam risco de baixa efetividade no auxílio a setores afetados pelo tarifaço













