Avanço de sistemas híbridos e biodigestores permite ampliar acesso a eletricidade em regiões remotas e reduzir o uso de fósseis 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Projeto da (re)Energisa instalou painéis solares em Vila Restauração (AC). Agora, moradores têm acesso a eletricidade 24 horas por dia — Foto: Divulgação/Grupo Energisa RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/07/2026 - 14:43 Energia limpa transforma regiões remotas do Brasil com inovação sustentável Projetos de energia limpa estão transformando regiões remotas no Brasil, onde a rede elétrica não chega, através de sistemas híbridos e biodigestores. Em locais como Vila Restauração, no Acre, a energia agora está disponível 24 horas, melhorando a vida comunitária. A queda nos preços dos painéis solares e avanços em baterias impulsionam essa expansão, reduzindo o uso de combustíveis fósseis e promovendo uma transição energética justa. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em Vila Restauração, comunidade às margens do rio Tejo, no Acre, a energia elétrica ficava disponível por apenas três horas por dia, tempo de funcionamento do gerador a diesel. Depois disso, a comunidade voltava a ficar no escuro. Alimentos deixavam de ser refrigerados, o posto de saúde enfrentava dificuldades para conservar vacinas e medicamentos e boa parte das atividades econômicas era interrompida. Hoje, uma usina que reúne painéis solares, baterias de íons de lítio e geradores movidos a biodiesel garante energia 24 horas por dia. A implantação do sistema exigiu investimento de R$ 20 milhões e uma operação logística complexa. Cerca de 200 toneladas de equipamentos seguiram por rodovias e rios amazônicos até chegar à comunidade, em uma viagem que incluiu mais de sete dias de navegação. — A principal lição é que levar energia de qualidade a áreas remotas exige soluções desenhadas para a realidade de cada território — afirma Gabriel Mussi, diretor de grandes clientes da (re)Energisa, empresa responsável pelo projeto. Com energia durante todo o dia, o posto de saúde passou a armazenar vacinas e medicamentos com segurança, comerciantes instalaram geladeiras e freezers, a escola ganhou acesso permanente à internet e a cobertura de telefonia móvel viabilizou o uso de serviços bancários e meios eletrônicos de pagamento. — A gente sofreu muito aqui no escuro. A falta de energia estragou muito alimento que não tínhamos como conservar. Quando a gente viu a luz chegando, foi uma alegria para a comunidade inteira — conta Maria Ivone Cunha, moradora de Vila Restauração. Projeto da (re)Energisa instalou painéis solares em Vila Restauração (AC). Agora, moradores têm acesso a eletricidade 24 horas por dia — Foto: Divulgação/Grupo Energisa O projeto implantado na comunidade acreana integra uma estratégia que começa a avançar em regiões onde a expansão da rede elétrica continua difícil ou tem custo elevado. Em vez de depender exclusivamente da construção de novas linhas de transmissão, essas localidades passaram a receber sistemas que combinam diferentes tecnologias de geração e armazenamento para garantir o fornecimento de energia. A queda no preço dos painéis solares, a evolução das baterias e o desenvolvimento dos sistemas de controle ampliaram a adoção de sistemas híbridos em regiões onde a expansão da rede elétrica continua inviável. A combinação de geração solar, armazenamento e geradores convencionais vem reduzindo o consumo de combustíveis fósseis sem comprometer a segurança do abastecimento. Três em um Em Caiambé, no Amazonas, entrou em operação uma usina híbrida que combina geração a diesel, energia solar e armazenamento em baterias. O sistema deverá reduzir em cerca de 130 mil litros por ano o consumo de diesel e evitar a emissão de aproximadamente 405 toneladas anuais de dióxido de carbono. A iniciativa faz parte do esforço para modernizar os chamados sistemas isolados, que ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis para garantir o abastecimento de comunidades sem ligação com o Sistema Interligado Nacional. A expectativa é que modelos semelhantes avancem nos próximos anos à medida que novas tecnologias se tornem mais acessíveis. Para Rafael Segrera, presidente da Schneider Electric para a América do Sul, a expansão desse modelo encontra um ambiente favorável no Brasil, mas depende de investimentos em tecnologia e qualificação profissional. A empresa inaugurou recentemente um polo de energia sustentável no Amazonas, voltado ao desenvolvimento e à disseminação de soluções adaptadas à realidade local. Não por acaso, a maioria dessas iniciativas está concentrada na região, onde se encontram praticamente todos os sistemas elétricos isolados do país. Nesses locais, a combinação de diferentes fontes de geração tem se mostrado uma alternativa para reduzir o consumo de diesel sem comprometer a segurança do fornecimento. — O Brasil reúne condições muito favoráveis para acelerar essa expansão. Além de possuir uma matriz elétrica composta por cerca de 84% de fontes renováveis e um dos maiores potenciais do mundo para geração de energia limpa, o país dispõe de capacidade tecnológica e de um ambiente cada vez mais propício à inovação em eletrificação, automação e digitalização — afirma Segrera. Segundo ele, o próximo passo é ampliar a formação de mão de obra capaz de instalar e operar essas soluções em diferentes regiões do país. A lógica de produzir energia perto de onde ela será consumida também avança fora das comunidades isoladas da Amazônia. No meio rural, em vez de painéis solares e baterias, o combustível pode estar disponível diariamente dentro da própria propriedade. Dejetos produzidos por animais alimentam biodigestores, onde microrganismos transformam resíduos orgânicos em biogás. Ao final do processo, o que sobra ainda pode ser utilizado como biofertilizante em lavouras. Além de reduzir os custos com eletricidade e combustíveis, a tecnologia permite dar uma destinação produtiva aos resíduos da atividade agropecuária. Energia de resíduos Para Felipe Marques, diretor-presidente do CIBiogás, o potencial dessa tecnologia tende a crescer junto com a expansão da produção de proteína animal: — O país caminha para continuar liderando a exportação de proteína animal, ainda mais com as perspectivas de aumento do consumo do alimento pela Ásia e pelo novo acordo de comércio exterior com a União Europeia. Dessa forma, teremos ainda mais produção de proteína já conectada à agenda de produção de biogás e biometano e de transição energética justa. Os projetos também refletem uma mudança de lógica nos investimentos em eletrificação. Em vez de uma única solução para todo o país, ganha espaço um modelo que combina diferentes tecnologias segundo as características de cada região, aproximando a geração do consumo e reduzindo a dependência de grandes obras de infraestrutura. Essa tendência, de acordo com Mussi, da Energisa, deverá se consolidar à medida que os projetos forem sendo adaptados às necessidades de cada território: — Em um país com realidades geográficas tão diversas como o Brasil, não existe uma única solução para universalizar o acesso à energia. *Especial para O GLOBO