Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) enfrenta um desafio novo e mais imprevisível: milhões de painéis solares instalados nos telhados de residências e empresas em todo o país 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Painéis solares sendo instalados em um telhado no Rio de Janeiro — Foto: Bloomberg RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/06/2026 - 15:10 Crescimento de energia solar no Brasil desafia estabilidade elétrica O crescimento acelerado de painéis solares no Brasil desafia o sistema elétrico durante eventos como a Copa do Mundo. Com 20% da capacidade energética do país, a geração solar em telhados escapa ao controle direto do ONS, aumentando riscos de instabilidade elétrica. O curtailment, ou corte controlado da geração, impacta grandes usinas renováveis e desestimula novos investimentos. A ABGD defende armazenamento por baterias para aliviar a rede e garantir viabilidade econômica futura. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Enquanto o Brasil enfrentava o Japão na Copa do Mundo nesta segunda-feira, em Houston, os operadores do sistema elétrico do país tinham outra preocupação em mente: manter o sistema estável enquanto milhões de brasileiros deixam fábricas, escritórios e lojas para assistir à partida. Grandes eventos, como a Copa do Mundo, e até hábitos cotidianos, como o banho no início da noite, há muito tempo colocam à prova o sistema elétrico brasileiro. Tradicionalmente, o sistema depende das hidrelétricas, apoiadas por usinas termelétricas que podem ser acionadas ou desligadas quando a demanda por energia aumenta ou diminui. Desta vez, porém, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) enfrenta um desafio novo e mais imprevisível: milhões de painéis solares instalados nos telhados de residências e empresas em todo o país. Construída ao longo dos últimos 15 anos com apoio do governo, a rede brasileira de painéis solares responde hoje por quase 20% da capacidade instalada de geração de energia do país — pouco menos da metade da capacidade das usinas hidrelétricas. A maior parte dessa geração, porém, está fora do controle direto do ONS. Enquanto os operadores podem desligar um parque eólico ou uma usina solar de grande porte, ou decidir acionar termelétricas para equilibrar a oferta e a demanda, a produção dos painéis solares instalados em telhados depende, em grande medida, da incidência do sol. Isso significa que a primeira partida do Brasil disputada durante o dia nesta Copa do Mundo poderá se transformar em um teste para a capacidade do sistema elétrico de absorver oscilações bruscas. A expectativa é de que a demanda por eletricidade caia à medida que fábricas reduzam o ritmo de produção, escritórios esvaziem e lojas fechem as portas para que os trabalhadores acompanhem a seleção brasileira. Durante a Copa do Mundo de 2022, o consumo de energia ficou cerca de 15% abaixo da média enquanto o Brasil estava em campo, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico. Se o desequilíbrio entre oferta e demanda não for corrigido rapidamente, o sistema pode se tornar instável, aumentando o risco de um apagão com consequências políticas potencialmente graves em um ano eleitoral. O risco não é apenas teórico. O grande apagão que atingiu Espanha e Portugal em 2025 mostrou como uma perda repentina de estabilidade da rede pode interromper a vida cotidiana e rapidamente se transformar em um tema político. Embora os investigadores tenham concluído que o apagão na Península Ibérica foi causado por uma sequência de eventos complexos — e não apenas pela geração distribuída — o episódio serve de alerta para o Brasil sobre a pressão que a rápida expansão desse tipo de energias renováveis exerce sobre redes elétricas ainda em processo de adaptação. A rápida expansão das fontes renováveis de geração variável “impõe desafios operativos, especialmente em períodos de baixo consumo combinados com alta geração, como ocorre em domingos e feriados”, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). “Nessas condições, pode haver excesso de geração em relação à carga, exigindo a adoção do curtailment, que é a redução controlada da geração determinada pelo ONS.” Sem conseguir controlar diretamente a geração distribuída dos telhados, o ONS passou a ordenar cortes nas fontes sobre as quais tem controle, começando pelas grandes usinas renováveis. Isso gerou um efeito colateral na transição energética brasileira: a política criada para incentivar a energia limpa também enfraqueceu a atratividade econômica de novos investimentos privados em grandes projetos de geração renovável. No ano passado, o ONS reduziu aproximadamente 20% da geração renovável do país, aumentando a preocupação dos investidores e levando alguns desenvolvedores a reconsiderar seus planos de expansão. Segundo a consultoria Volt Robotics, esses cortes obrigatórios custaram aos operadores de parques eólicos e solares cerca de R$ 6,5 bilhões em 2025. Módulos fotovoltaicos em uma usina solar da AES Tietê S.A. em Guaimbê, no estado de São Paulo — Foto: Bloomberg — Quem mais esta sofrendo com o curtailment é a própria indústria que contratou estes projetos anos atrás com incentivos do governo — afirmou Victor Iocca, diretor de energia elétrica da ABRACE, associação que reúne grandes consumidores de energia, incluindo indústrias. A Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD) estima que existam cerca de quatro milhões de unidades de geração distribuída em operação, sendo aproximadamente 90% compostas por painéis solares instalados em telhados de residências e empresas. Segundo a entidade, esses sistemas fornecem energia para cerca de 21 milhões de pessoas. A ABGD afirma que o armazenamento por baterias é a forma mais eficiente de reduzir a pressão sobre a rede elétrica. As baterias permitiriam armazenar o excedente de energia para vendê-lo posteriormente, quando os preços da eletricidade fossem mais altos. Esse modelo poderia, no futuro, substituir os subsídios atuais, preservando ao mesmo tempo a viabilidade econômica da energia solar em telhados e de outras formas de geração distribuída. O armazenamento em baterias está entre as alternativas avaliadas pelas autoridades, juntamente com propostas para ampliar a exportação de eletricidade aos países vizinhos. O tema está em discussão tanto na Aneel quanto no Ministério de Minas e Energia. Em maio, o ministro Alexandre Silveira afirmou que ainda são necessários avanços no arcabouço técnico e jurídico que possa dar segurança às soluções propostas para enfrentar o problema. — Precisamos apresentar uma solução para o sistema elétrico para que essa expansão possa, em algum momento, se equilibrar — disse Christino Áureo, diretor de Relações Governamentais e Institucionais da ABGD.— É muito claro para mim que a solução passa pelas baterias.
'Boom' de painéis solares coloca rede elétrica do Brasil à prova na Copa
Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) enfrenta um desafio novo e mais imprevisível: milhões de painéis solares instalados nos telhados de residências e empresas em todo o país









