Em uma praia do Rio, experimente o seguinte: deite numa canga (com travesseirinho de areia embaixo, por favor) e feche os olhos. Preste atenção à caótica e deliciosa trilha sonora local. "Ô mate!", "Mate limão e bixxxcoito", "Heineken, Stella, olha o latão...". É música para os ouvidos. Cariocas gostam desse fuzuê, que fica mais gostoso ainda se contar com o inconfundível "Poc! Poc!" das bolinhas de frescobol ao fundo.

Patrimônio imaterial do Rio desde 2015, o jogo sempre foi uma ode à não competitividade, em que o importante é explorar os pontos fortes do parceiro (jamais adversário), ao contrário dos outros esportes.

"O frescobol é elegante e dinâmico o tempo todo", já dizia Millôr Fernandes.

Ele foi pioneiro da modalidade mais raiz, sem vitoriosos ou derrotados, e exaltava exatamente esse aspecto do "me ajuda que eu te ajudo" do bate-bola despretensioso, mas nem por isso pouco vigoroso. Vieram, há alguns anos, os campeonatos com velocidade da batida aferida por radar, regras, minutagem, o escambau. Era tudo o que Millôr não queria.

Mas recorro a ele para falar da elegância do jogo, quase uma dança entre duas (ou até três) pessoas —quanto mais entrosadas, melhor. Manter a bola no ar, "no trilho", atacando e defendendo com potência e elasticidade é de uma beleza quase artística, à qual cariocas já estão acostumados. É mais ou menos como ver o Chico Buarque caminhando no calçadão. Normal.