Mesmo depois das críticas feitas por institutos de pesquisa, o ministro Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não descarta a ideia de premiar com um selo as empresas responsáveis pelos levantamentos que mais espelharem o resultado das eleições. Ele também avalia a possibilidade de exigir mais informações sobre metodologias utilizadas e disponibilizá-las em um banco de dados amplo. As medidas podem ser formalizadas por meio de uma portaria. Leia mais A interlocutores, o presidente do TSE rebateu algumas das críticas feitas pelos institutos sobre o selo, entre elas a de que pesquisas refletem o momento em que são realizadas e não funcionam como um “exercício de futurologia”. O ministro tem afirmado que a ideia não é fazer uma média geral de acertos levando em conta todos os levantamentos de uma determinada disputa eleitoral, mas avaliar especificamente a última pesquisa feita por cada instituto antes da eleição ser realizada (excluídas as de boca de urna, feitas no dia do pleito). Para ele, saber quais pesquisas mais acertam os resultados beneficiaria a população. Ao justificar a interlocutores o motivo de não descartar a iniciativa, o presidente do TSE tem afirmado que os levantamentos de intenção de voto não influenciam só a percepção dos eleitores sobre o cenário eleitoral, mas podem impactar o pleito em si. Nesse sentido, alguns levantamentos teriam grande potencial de induzir eleitores e impactar as disputas. O ministro também teria indicado preocupações sobre a utilização das pesquisas como um tipo de “ativo político” com potencial de direcionar os resultados. O presidente do Conselho de Opinião Pública (COP) da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), João Francisco Meira, discorda do selo. Para ele, o selo pode agraciar empresas sem rigor metodológico. Entre os filiados à Abep estão grandes institutos, como Quaest Pesquisas, Datafolha, Real Time Big Data e Ipsos. “Ainda que considerem só a pesquisa realizada 48 horas antes do pleito, para fazer um paralelo, é igual você ter um mau aluno que tem a média baixa o semestre inteiro, aí cola na prova e entrega uma prova final colada para tentar atingir a nota máxima. Se a cola der certo, ele vai parecer bom aluno do mesmo jeito que os que tiveram nota boa ao longo do semestre”, disse. “Então isso é uma bobagem. Mostra que ainda há uma incompreensão sobre o que é a pesquisa e para que ela serve. O que a pesquisa mede é a intenção de voto, o que pode mudar até o último segundo antes da votação. A série de pesquisas mostra as idas e vindas do processo de decisão. Não é concurso de beleza, nem provinha de vestibular”, afirmou Meira. Ele também questiona argumentos de que as pesquisas precisam ser mais escrutinadas porque teriam peso no cenário eleitoral. "Às vezes criticam as pesquisas porque elas erram. Às vezes, porque elas acertam. A pesquisa revela cenários à sociedade, de uma forma fria. Chega e a pesquisa e mostra que um determinado assunto não está convencendo o eleitorado. O político inteligente vê e diz: ‘precisamos mudar. O político que não é inteligente diz: precisamos calar essa pesquisa’". Mais dados sobre metodologia Apesar de Nunes Marques não ter descartado a ideia do selo, pessoas próximas afirmam que o objetivo principal do ministro é garantir transparência quanto às metodologias utilizadas pelos institutos de pesquisa. Nesse sentido, o selo seria secundário. De acordo com esses interlocutores, o ministro defende que os institutos disponibilizem mais dados, como um plano de trabalho melhor detalhado, mais informações sobre a metodologia, explicitação de práticas utilizadas (se a empresa irá, por exemplo, exibir aos entrevistados mídias, como áudios e vídeos), entre outras. Nunes Marques também entenderia que é preciso anexar mais informações sobre as empresas responsáveis pelo levantamento, mostrando, por exemplo, desde quando elas atuam e quando fizeram a sua primeira pesquisa. Ele tem afirmado, segundo pessoas próximas, que há institutos que são criados no ano da eleição e que não teriam histórico consolidado. Por fim, o ministro planeja disponibilizar essas informações mais detalhadas em um banco de dados. Hoje, a corte já tem um sistema, chamado PesqEle, em que é possível acessar os levantamentos por eleição, por Estado e município, por instituto e por período de registro. O objetivo, no entanto, é que, para cada pesquisa registrada, haja dados como região geográfica, número de entrevistados e quem financiou a pesquisa. As informações ficariam mais claras, sem que interessados precisassem abrir cada levantamento individualmente. Meira também discorda sobre esse ponto. Para ele, o TSE divulga um grande número de dados sobre as pesquisas e as empresas responsáveis por levantamentos já enfrentam regulamentação ampla. “A Abep acredita que a regulamentação, tal como existe hoje, é boa e não precisa mexer”, afirma. Quanto a ampliar demais os dados divulgados, afirma, há dificuldades técnicas para os institutos. Em 14 de julho, após Nunes Marques informar sobre a ideia de instituir o selo, a Abep criticou a iniciativa. A associação disse que o TSE não é “árbitro de qualidade” e que premiar acerto é “confundir ciência com bola de cristal”. Áudio e vídeo em pesquisas As discussões sobre a utilização de mídias, como áudios e vídeos, nas pesquisas, também seguem na mesa e podem ser retomadas a partir de agosto. Em junho, Nunes Marques suspendeu a divulgação da pesquisa AtlasIntel que mostrou a queda da intenção de voto em favor do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a revelação de que o político pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, para o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao suspender a divulgação da pesquisa, o ministro entendeu que a exibição de um áudio após o questionário principal apresentado aos entrevistados pode ter induzido respostas negativas com relação ao senador. Em vez de a corte discutir apenas se manterá ou não a liminar, há ministros que defendem ampliar a análise, para que ela se debruce sobre a possibilidade de utilização de áudios e vídeos em pesquisas de intenção de voto. O debate é defendido por outros ministros, como Dias Toffoli. Depois de a análise da liminar de Nunes Marques ser suspensa por um pedido de vista, Toffoli afirmou que o levantamento da AtlasIntel já circulou e que agora a corte precisa tratar do futuro. “Pode fazer vídeo? A gente sabe o que vai acontecer. Vai ter vídeo para tudo que é lado e pesquisa que mostra aquele vídeo e depois faz a pergunta. Diante desse vídeo, você votaria em A, B ou C? Vamos decidir o futuro”, defendeu.
Além de selo, Nunes Marques quer mais dados sobre metodologia dos institutos de pesquisa
As medidas poderão ser formalizadas por meio de uma portaria







