A Copa do Mundo testou o limite da paciência dos torcedores com os militantes da ideologia identitária de direita e de esquerda. À direita, foi desmoralizada a tese de que o sangue é o fator decisivo na identidade nacional. À esquerda, foi ridicularizada a tentativa de submeter o torcedor a um catecismo decolonial, antirracista e geopolítico. A paixão rompeu os cabrestos que tentaram lhe impor tanto os fiscais de pureza étnica quanto os patrulheiros da consciência.
A Espanha campeã ofereceu a imagem mais eloquente do fracasso da narrativa identitária de direita. Lamine Yamal e Nico Williams não foram selecionados em nome da diversidade nem celebrados por dever moral. São celebrados porque jogam demais, decidem partidas, fazem milhões de espanhóis felizes e tornam sua seleção admirada mundo afora. Do maravilhoso elenco da França, nem se fala. Tornaram-se todos, por mérito e afeto, símbolos nacionais.
O mesmo vale para Bukayo Saka na Inglaterra, Jamal Musiala na Alemanha e tantos jogadores negros, mestiços ou filhos de imigrantes nas seleções da Copa. Para uma criança que veste a camisa de Yamal ou tenta imitar o drible de Saka, a origem familiar do ídolo não diminui sua condição de espanhol ou inglês. Ao contrário, é por meio dele que a nação aparece em sua forma mais admirada: talentosa e vitoriosa.






