Mundial com 48 times teve de interferência nas regras do esporte a rixa entre países O presidente da Fifa, Gianni Infantino, e o presidente dos EUA, Donald Trump, foram os protagonistas da Copa do Mundo mais politizada da história — Foto: Jacquelyn Martin/AP Questões de imigração, rixas geopolíticas, interferências políticas na disputa e calor extremo foram algumas das marcas negativas da maior de todas as Copas do Mundo - com 48 seleções, sedes em três países e realizada em dez dias a mais do que a anterior. De positivo, fica um Mundial de estádios invariavelmente lotados e uma média de quase três gols por partida, a maior em décadas. “Esta foi a Copa mais política da história”, disse Simon Chadwick, disse o professor de Esporte Afro-Eurasiático na Emlyon Business School, em Xangai. Extrapolando os limites do futebol, o torneio teve, por exemplo, a interferência de Donald Trump. “A Fifa e o seu presidente [Gianni Infantino] demonstraram grande disposição para fazer política e participar de jogos geopolíticos”, afirmou. Desafiando interpretações da regra da Fifa, Trump interferiu diretamente para que a Fifa anulasse um cartão vermelho recebido pelo atacante dos EUA, Folarin Balogun. Antes, em 2025, Infantino decidiu premiar o presidente americano com a primeira edição do Prêmio de Paz da Fifa, em 2025. “Talvez Infantino enxergue a Copa do Mundo atual mais como um produto de entretenimento [do que desportivo], algo parecido com ir à Disney ou assistir a uma produção da Netflix”, afirmou. A política também se mostrou presente na forma como as regras imigratórias restritivas do governo Trump impediram a participação do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan e obrigaram a seleção do Irã, país com o qual os EUA travam uma guerra há quase cinco meses, a transferir sua preparação de Tucson, no Arizona, para Tijuana, no México. David Niven, professor de Ciência Política da Universidade de Cincinnati, em Ohio, afirmou que os EUA contrariaram a tradição de países-sede ao restringirem a participação de integrantes de delegações e de torcedores, o que acabou prejudicando sua imagem internacional. Segundo ele, a Fifa também se desmoralizou ao colocar a política acima do futebol e ceder repetidamente às pressões de Trump. “A Fifa encorajou futuros países-sede a imitar os EUA e a excluir do Mundial aqueles que considerarem indesejáveis. Também estimulou futuros anfitriões a fazer escândalo por causa de cartões vermelhos. Na prática, a entidade convidou os líderes dos próximos países-sede a transformar o torneio em uma celebração de si próprios, em vez de uma celebração do esporte do mundo”, disse. A logística complicada em um torneio de três países também fez parte da lista de polêmicas. A Inglaterra, por exemplo, chegou às semifinais como a seleção que mais percorreu quilômetros, em razão da decisão de instalar sua base em Kansas City, cidade que não recebeu nenhuma partida da equipe. Apenas nas cinco primeiras partidas que disputaram no torneio, os ingleses viajaram, em média, cerca de 2.960 quilômetros por jogo. Com a semifinal em que foram eliminados pela Argentina, haviam viajado mais do que o dobro do que a seleção de Lionel Messi. Talvez Infantino veja a Copa como um produto da Disney ou Netflix” A Colômbia foi a primeira - e única - equipe a jogar partidas nos três países-sede. Questionado se as distâncias percorridas influenciaram na derrota pela Suíça nas oitavas de final, o meia-atacante colombiano John Arias disse que “infelizmente, nesta indústria nem todos competimos com as mesmas condições em pé de igualdade”. “Isso não é uma coisa de agora, isso não acaba aqui, isso vai continuar e a tendência é que piore”, afirma. Chadwick diz que, para 2030, o desafio da Fifa será justamente garantir condições minimamente equilibradas para as seleções. O próximo Mundial terá jogos de abertura em Uruguai, Argentina e Paraguai e o restante das partidas em Portugal, Espanha e Marrocos. Apesar das críticas que antecederam o torneio de 2026, a Copa de 2026 teve recorde de público. Após a conclusão das oitavas de final, 6.259.584 pessoas haviam assistido às partidas e ocuparam 99,7% dos lugares disponíveis, com uma média de 65.204 torcedores por jogo. Os maiores públicos do torneio foram registrados no Estádio da Cidade do México, que recebeu uma média de 80.824 torcedores em cada uma das cinco partidas da Copa do Mundo de 2026, somando um público total de 404.120 pessoas. O sucesso do formato com 48 seleções - que abriu oportunidade a países estreantes em copas, como Cabo Verde, Curaçao e Jordânia - deu novo impulso à proposta de ampliar ainda mais o Mundial. Infantino já confirmou que a Fifa discutirá a possibilidade de expandir o torneio para 64 seleções para 2030. Já as altas temperaturas em cidades americanas levaram a entidade a tornar obrigatórias as pausas de três minutos para hidratação, medida que dividiu jogadores, treinadores e especialistas. Michael Mann, climatologista da Universidade da Pensilvânia, afirma que as pausas para hidratação estão longe de resolver o problema do calor extremo. Ele diz que parada deveria ser definida com base no risco de estresse térmico e estruturada para resfriar efetivamente os jogadores, e não pela programação das transmissões ou por interesses comerciais. As pausas também foram criticadas por treinadores e jogadores, uma vez que abrem espaço para a mudança de ritmo do jogo e orientações técnicas não previstas pelas regras do futebol. Segundo Mann, um exemplo que coloca as alternativas encontradas pela Fifa, como as próprias pausas para hidratação, em xeque é o fato de a federação ter permitido a realização da partida entre França e Paraguai, na Filadélfia, apesar de a temperatura do gramado ter atingido cerca de 38°C. “O cínico que há em mim, e que conhece o histórico da Fifa, acredita que as pausas para hidratação têm mais a ver com a criação de intervalos adicionais para a TV e o aumento da receita publicitária”, completou.