A Copa do Mundo sempre esteve ligada à política. Governos usaram o evento com vários objetivos. Mas o torneio que começa hoje na América do Norte é um dos mais politizados, tensos e complexos da história. E isso pode prejudicar a maior festa do futebol. Boa parte da tensão atual tem nome e sobrenome: Donald Trump. Nos últimos 17 meses, o presidente americano bombardeou, sobretaxou, criticou, ofendeu, humilhou, aplicou sanções e/ou cortou ajuda a quase todos os países que entrarão em campo a partir de hoje. Seu governo também barrou, perseguiu, expulsou e/ou deportou cidadãos de muitos desses países. A Fifa prega neutralidade política. Seu estatuto prevê a suspensão de países que intervenham politicamente na federação local. Mas a política é indissociável do futebol e das Copas. Investigações já mostraram que até a escolha do país-sede depende de política (e, em certos casos, de corrupção). A própria Fifa politizou esta Copa ao entregar a Trump um prêmio da paz criado “ad hoc”. A Rússia está suspensa desde 2022 por uma decisão política, devido à guerra na Ucrânia. Japão e Alemanha ficaram fora da Copa de 1950, por causa da Segunda Guerra Mundial. A África do Sul foi barrada de 1966 a 1990, pelo apartheid. Em 1966, países africanos boicotaram a Copa. As ditaduras de Itália e Argentina buscaram reduzir tensões internas, estimular o patriotismo, desviar a atenção da repressão e projetar uma imagem positiva nas Copas de 1938 e 1978, respectivamente. Em 2002, a Fifa juntou as candidaturas de Japão e Coreia do Sul, o que ajudou a aproximar os dois países asiáticos, que têm uma relação difícil. A Copa deste ano, na América do Norte, dificilmente conseguirá melhorar as relações ruins dos EUA com os demais países-sede, Canadá e México. E será permeada por problemas recentes entre Washington e a maioria dos participantes (veja quadro com uma classificação da tensão entre os EUA e os demais países). O Irã é, sem dúvida, o caso mais extremo. O país, que já era alvo de sanções econômicas e políticas, está sob ataque dos EUA desde 28 de fevereiro. Os principais líderes iranianos foram mortos. Teerã ameaçou boicotar a Copa. Trump ameaçou barrar o Irã. Ao final, a seleção iraniana jogará. Mas teve de mudar sua base para o México e não poderá pernoitar nos EUA, devendo chegar e partir no dia dos jogos. Alguns membros da delegação não receberam visto e não poderão acompanhar as partidas em território americano. O país terá uma das menores torcidas da Copa, pois a entrada de iranianos é quase impossível. Desde que voltou à Casa Branca, em 2025, Trump aplicou tarifas ao comércio com todo o mundo. Porém, foi mais agressivo com alguns países. Dos que estão na Copa, Brasil (sobretaxa de 50%), Suíça (39%), Canadá, Iraque (35%), África do Sul, Argélia, Bósnia (30%), México e Tunísia (25%) foram os mais atingidos. Parte dessas tarifas foi derrubada pela Justiça, mas o governo Trump está tentando reintroduzi-las. A sobretaxa proposta agora, ligada a trabalho forçado, só não pega 9 dos 47 demais países da Copa. Trump quer drenar riqueza do resto do mundo para fazer os EUA grandes novamente. Apesar de EUA, Canadá e México terem acordo comercial (cuja revisão começará durante a Copa), Trump foi especialmente duro com os vizinhos. Ameaçou ainda anexar o Canadá e atacar cartéis de narcotráfico em território mexicano. O Canadá foi um dos poucos países que retaliaram os EUA. A província de Ontário proibiu a venda de bebidas alcoólicas americanas. O presidente americano ameaçou ainda tomar a Groenlândia (que pertence à Dinamarca), o que gerou forte reação dos europeus, sobretudo os escandinavos Suécia e Noruega. O governo Trump criticou seus principais aliados militares (europeus, Japão, Coreia do Sul, Canadá e Austrália) por não o ajudarem na guerra ao Irã. Muitos países europeus proibiram o uso de bases e de seu espaço aéreo para ações contra o Irã. Insatisfeito, Trump ameaçou deixar a Otan (a aliança militar ocidental). Em diversas ocasiões, o presidente também ofendeu nações e líderes estrangeiros. Qualificou o Haiti e países da África de “buracos de merda” (shitholes). Descreveu a capital da Bélgica como “hellhole” (lugar dos infernos) por causa da imigração. Chamou o ex-premiê canadense, Justin Trudeau, de “desonesto e fraco” e o tratava como governador, como se o Canadá fosse um estado americano. Menosprezou a capacidade militar europeia. Qualificou os mexicanos de estupradores. Os EUA fecharam as portas para muitos desses países considerados desagradáveis e hostis. Cidadãos de Irã, Haiti, Congo, Senegal, Costa do Marfim, Argélia e Cabo Verde dificilmente entram nos EUA. Cabo Verde informou que a Fifa retirou sua quota de ingressos para a Copa. As seleções de Senegal e Uzbequistão tiveram de passar por uma humilhante revista na pista de pouso no aeroporto nos EUA. Segundo a pesquisa Global Country Perceptions 2026, os EUA são hoje um dos países com pior imagem no mundo. Quais são os riscos dessa animosidade para a Copa? O primeiro é a segurança. Nenhuma Copa foi alvo de atentado até hoje, mas sabe-se que houve plano de ataque terrorista à Copa da França, em 1998. É possível que ocorram protestos, inclusive de jogadores. Trump foi vaiado num jogo de basquete em Nova York nesta semana. Há ainda o risco de um apagão dos torcedores estrangeiros, devido às dificuldades de entrada nos EUA e ao clima negativo para estrangeiros gerado por Trump. Talvez nada disso influencie as equipes em campo, mas ameaça tirar o brilho da competição mais aguardada do principal esporte mundial.