Quando a candidatura conjunta de EUA, México e Canadá foi apresentada à Fifa, em 2017, para sediar a Copa do Mundo de 2026, o torneio foi vendido como um símbolo de integração continental e cooperação internacional. No dia do início da competição, porém, o cenário não poderia ser mais diferente: guerras em curso, tensões comerciais, restrições migratórias e rivalidade crescente entre as nações - inclusive entre os três países-sede - colocam em xeque o espírito de união que inspirou o projeto original e desafiam o sucesso do torneio. “A candidatura original parece um documento de outra época, algo que deveria estar guardado em um arquivo histórico”, afirma Jules Boykoff, professor de ciência política na Universidade Pacific e ex-jogador profissional de futebol. “Naquele momento, ninguém poderia imaginar que o presidente dos EUA, Donald Trump, estaria alimentando tensões políticas ao redor do mundo às vésperas do torneio”. Enquanto o Estádio Azteca, na Cidade do México, se preparava para receber o primeiro jogo entre a seleção anfitriã e África do Sul, fora de campo parte significativa das tensões vem das relações entre os próprios países-sede. Desde que Trump retornou ao cargo, em 2025, ele impôs tarifas tanto ao México quanto ao Canadá como parte de sua guerra comercial e adotou uma retórica crescentemente hostil em relação aos dois vizinhos - chegou a ameaçar transformar o Canadá no “51º Estado americano” e sugeriu o envio de tropas ao território mexicano para combater cartéis de drogas. “É irônico que a Copa da América do Norte devesse representar a estreita cooperação, mas acontece justamente em um momento em que essa cooperação está mais fraca do que nunca”, diz Edward Alden, especialista em imigração e comércio internacional do Conselho de Relações Exteriores (CFR, na sigla em inglês). “Os canadenses estão organizando seus jogos à sua maneira. Os mexicanos fazem o mesmo. Os americanos também. Não vejo praticamente nenhuma cooperação transfronteiriça relevante. Também não acredito que veremos qualquer celebração significativa da relação entre os três países associada ao torneio. Já não existe uma visão mais ampla como aquela que inspirou o projeto originalmente”. Nesse cenário, Jonathan Wilson, colunista sobre futebol do jornal britânico The Guardian e autor do livro “The Power and the Glory: A New History of the World Cup” (O Poder e a Glória: Uma Nova História da Copa do Mundo, em tradução livre), avalia que esta Copa se realiza em um nível de tensão global sem precedentes - comparável, segundo ele, apenas ao contexto da Copa de 1974, sediada na Alemanha Ocidental, quando a Guerra Fria estava no auge. “Mesmo naquela época, não tínhamos o país-sede bombardeando uma das seleções participantes”, afirma Wilson. “Além do que os EUA estão fazendo, o Irã bombardeou alvos no Catar, na Jordânia e na Arábia Saudita - países que também se classificaram para a Copa. Acho que será um torneio absolutamente diferente de tudo o que já experimentamos”. Além das tensões geopolíticas, especialistas alertam que a política agressiva de imigração de Trump e as deportações em massa ameaçam diretamente o objetivo da Fifa de realizar o maior e mais inclusivo torneio da história. A seleção iraniana, que disputará partidas em Los Angeles e Seattle na fase de grupos, teve sua base transferida para o México após o governo americano impor restrições e negar vistos a integrantes da delegação. Com a proximidade do início do torneio, aumentaram os relatos de dificuldades para entrar no país e de revistas ostensivas. Apenas nesta semana, o renomado árbitro somali Omar Abdulkadir Artan teve a entrada negada nos EUA e foi impedido de participar da Copa sob a alegação de envolvimento com terroristas. Além disso, o atacante da seleção iraquiana Aymen Hussein foi interrogado por sete horas no Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago, após desembarcar no país, enquanto um avião da seleção do Senegal foi submetido a uma inspeção de segurança ao pousar. Esta se tornou uma Copa dos ricos e a mais exclusiva da história” “As restrições de vistos, a fiscalização rigorosa nas fronteiras e ações policiais direcionadas levantam sérias preocupações sobre se jornalistas e torcedores conseguirão participar do torneio com segurança e sem sofrer discriminação’, diz Andrea Florence, diretora-executiva coalizão global de direitos humanos “Sport & Rights Alliance”. Outro fator que reforça o caráter excludente do evento é o preço dos ingressos, à medida que a Fifa implementou um sistema de preços dinâmicos que variam conforme a demanda. Segundo apuração do New York Times, os valores iniciais - que nunca foram divulgados oficialmente pela Fifa - foram os mais altos da história das Copas do Mundo. Entre outubro do ano passado e abril deste ano, os ingressos para a fase de grupos variam de US$ 140, em partidas de menor apelo, a US$ 890 para o jogo entre Colômbia e Portugal. Já a partida de abertura, entre México e África do Sul, chegou a ter bilhetes vendidos por quase US$ 3.000. Um ingresso para a final pode custar até US$ 10.990, valor muito superior aos cerca de US$ 1.600 cobrados na decisão da Copa do Catar, em 2022, segundo o jornal. Os preços ficaram muito acima das projeções apresentadas no documento da candidatura conjunta de EUA, México e Canadá. O plano previa que o ingresso mais caro para a final custaria US$ 1.550, enquanto os demais jogos teriam entradas entre US$ 300 e US$ 700. Após a repercussão negativa entre torcedores, a Fifa passou a oferecer um número limitado de ingressos por US$ 60, o equivalente a cerca de 1,6% da capacidade comercializável dos estádios. “Esta se tornou uma Copa dos ricos. É a Copa mais exclusiva da história”, afirma Wilson. “Existe um risco real de perdermos aquilo que torna o futebol especial. As pessoas vão aos jogos para fazer parte daquela paixão coletiva, mas você não encontrará isso nos EUA, porque os estádios estarão cheios de americanos muito ricos. As famílias comuns que criam a atmosfera e fazem o barulho estarão excluídas”. De forma paralela, a postura cada vez mais politizada do presidente da Fifa, Gianni Infantino, também tem alimentado preocupações de que a Copa de 2026 seja marcada por controvérsias que extrapolam o campo esportivo. Em dezembro de 2025, o presidente da Federação pôs à prova de forma inédita a neutralidade política da Fifa ao laurear Trump na primeira edição do Prêmio da Paz da entidade. “Infantino é bajulador por natureza e fará o que for necessário para manter os bilhões de dólares entrando nos cofres da Fifa”, aponta Boykoff. À medida que o torneio começa, analistas avaliam que as tensões políticas devem continuar e não esperam que Trump modere sua retórica, especialmente diante da continuidade da guerra com o Irã. Ainda que a Copa não seja capaz de resolver esses conflitos, Simon Kuper, colunista do Financial Times e autor de World Cup Fever: A Footballing Journey in Nine Tournaments (“Febre da Copa do Mundo: Uma Jornada pelo Futebol em Nove Torneios”), argumenta que o evento mantém seu poder de aproximar pessoas. Para ele, quando a bola começar a rolar, o futebol voltará a ocupar o centro das atenções. “Neste momento estamos discutindo política - e devemos fazê-lo. Mas, quando a Copa começar, haverá gols extraordinários. Haverá discussões sobre impedimentos. Surgirão seleções surpreendentes e jogadores que farão coisas incríveis”, diz o jornalista. “É isso que permanece na memória quando pensamos em Copas do Mundo. Lembramos dos jogadores, do futebol, das surpresas e dos grandes momentos.” É nesse contexto que a seleção brasileira desembarcou nos EUA com a missão de buscar o hexacampeonato. Única equipe presente em todas as edições da Copa do Mundo, o Brasil tenta encerrar um jejum de 24 anos desde a conquista do pentacampeonato, em 2002. “A Copa é uma excelente forma de aumentar os laços entre indivíduos dentro de países como Brasil”, completa Kuper. Veja o especial da Copa do Mundo clicando aqui