Ainda faltam duas semanas para a próxima reunião do Copom – o que é uma eternidade no Brasil e no mundo de hoje –, mas há um acúmulo de fatores que sugerem um cenário internacional de pressão inflacionária. É um contexto que sugere cautela não só do Banco Central, mas de autoridades monetárias do mundo todo, no horizonte relevante.Em primeiro lugar, desde o final de fevereiro, quando os Estados Unidos fizeram o primeiro ataque ao Irã, o mercado internacional vive de sobressaltos, em especial nos preços do petróleo. O presidente Donald Trump alterna quase diariamente ameaças e anúncios de novos ataques e falas sobre um acordo de paz com o Irã.Cenário leva a população a conviver por mais tempo com preços e juros altos Foto: Gabriela Biló/EstadãoPUBLICIDADENa semana passada, Trump falou em estabelecer um pedágio de 20% para proteger navios que passassem pelo Estreito de Ormuz. Em seguida recuou: disse que, em vez do pedágio, os Estados Unidos cobrariam acordos comerciais de países do Golfo Pérsico. Como cerca de 20% do petróleo consumido no mundo passa pelo estreito, os preços são duramente afetados.A verdade é que não se sabe o que acontecerá no caso. Isso faz com que o preço do petróleo seja uma incógnita com viés de alta pelos próximos meses, o que constrói um cenário de pressão inflacionária em todo o mundo por tempo indeterminado. Não é à toa que o governo adiou a retirada do subsídio aos combustíveis.O Brasil, claro, tem suas particularidades. Além dessa pressão mundial no preço dos combustíveis, o Ministério da Fazenda aumentou sua projeção de inflação para este ano de 4,5% para 5,1% – o que coloca o IPCA acima do teto da meta perseguida pelo BC –, devido à expectativa do forte El Niño que se avizinha.PublicidadeAs altas temperaturas esperadas afetarão a produção agrícola e, portanto, os preços dos alimentos. Há também a pressão dos gastos públicos. Na semana passada, o Senado aprovou um gasto extra de R$ 30 bilhões nos próximos dez anos ao conceder aposentadoria especial para agentes de saúde. Além de ir contra os preceitos da reforma da Previdência de 2019, os senadores não indicaram de onde virá a receita – o que é uma obrigação básica. Ao mesmo tempo, foi feito um acordo para o governo aceitar uma renegociação de dívidas rurais de R$ 100 bilhões, que custará mais R$ 3,6 bilhões ao ano.É mais dinheiro jogado na economia. O Banco Central lida com um cenário difícil, que exige cada vez mais cautela. Somados, a imprevisibilidade de Trump no Irã, o El Niño e a recorrente prática brasileira de criação de gastos públicos alimentam a inflação, o que exige juros altos por mais tempo.
Opinião | Guerra no Irã, efeito El Niño e recorrente criação de gastos públicos alimentam a inflação no Brasil
R$ 3,6 bi ao ano em renegociação de dívidas rurais e R$ 30 bi extras em dez anos para aposentadoria especial de agentes de saúde reforçam cenário de pressão inflacionária







