Juros x Inflação: Entenda a relação entre eles Crédito: Larissa Burchard/Laís NagayamaGerando resumoA inflação de 2026 passa por uma tempestade quase perfeita. Desde que estourou a guerra entre Estados Unidos e Irã, as projeções do mercado para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial da inflação, subiram mais de um ponto porcentual. Na véspera do início do confronto, em 27 de fevereiro, o mercado esperava que o IPCA deste ano fosse de 3,91%, abaixo do teto da meta de inflação de 4,50% estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. De acordo com o último Boletim Focus do Banco Central (BC), do dia 29 de maio, a expectativa é de que a inflação deste ano atinja 5,09%.Leia tambémCom piora da inflação, mercado reduz projeções de cortes da Selic e coloca Banco Central sob pressãoA escalada meteórica das projeções em apenas três meses ocorreu por conta de uma conjugação desfavorável de fatores, como a disparada das cotações do petróleo por causa da guerra no Oriente Médio e, por tabela, dos combustíveis, com desdobramentos sobre os preços de fertilizantes e alimentos.PUBLICIDADETambém a perspectiva de um super El Niño, fenômeno climático que aumenta as temperaturas do oceano Pacífico e afeta as safras agrícolas no mundo, coloca mais pressão nos preços da comida para este ano e o próximo.Além disso, estímulos fiscais dados pelo governo em um ano eleitoral, que variam entre 1,5% e 2% do Produto Interno Bruto (PIB), combinados com o mercado de trabalho aquecido, turbinam a demanda e os preços dos serviços.No trimestre encerrado em abril, por exemplo, a taxa de desemprego era de 5,8%. É um desemprego que está muito abaixo da taxa de desocupação, que não provoca inflação e varia entre 7,5% e 8%.Alimentos voltam a ser vilão da inflação, afetados pelo petróleo e El Niño Foto: Tiago Queiroz/Estadão“Parece que estamos tendo uma tempestade quase perfeita do ponto de vista de inflação, porque há um choque de oferta internacional, uma inflação provocada pela demanda doméstica e, provavelmente, teremos um evento climático no final do ano, que é o El Niño”, observa Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos.A tempestade é quase perfeita porque há poucos fatores que jogam para conter a inflação. Um deles, apontam os economistas ouvidos pelo Estadão, é o câmbio bem comportado. O outro é a política monetária rígida do BC.PublicidadeNeste caso, a disparada de preços do petróleo registrada depois do início da guerra já colocou em xeque o ritmo de corte dos juros básicos, a Selic, atualmente em 14,50% ao ano. No mercado, é cogitada a hipótese de que o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC interrompa o corte dos juros antes do final do ano para segurar a inflação.Guerra reverteu perspectivas“Começou um novo ano a partir de 28 de fevereiro”, afirma o economista sênior da consultoria 4intelligence, Fabio Romão. A afirmação faz referência ao dia em que foi deflagrada a guerra entre Estados Unidos e Irã.Até aquela data, a consultoria projetava, por exemplo, inflação de 4,1% para este ano. Agora espera um aumento de 5,4%. É uma estimativa que está muito acima da mediana do mercado.Do final de fevereiro para cá, quase todas as projeções de inflação da consultoria por grupo de preços mudaram para pior, exceto a dos bens industriais, que são afetados pelo câmbio.PublicidadePUBLICIDADEA alteração mais significativa ocorreu na projeção dos preços da alimentação no domicílio, que mais que dobrou no período. Em fevereiro, antes da guerra, a expectativa era de que os preços dos alimentos no domicílio subiriam 3,7% este ano. Agora a projeção é de 7,7%. É um salto em relação a 2025, quando esse grupo teve alta de 1,4%.O encarecimento previsto para a comida que o brasileiro prepara dentro de casa é resultado da alta do petróleo. A commodity afeta os preços dos alimentos por dois caminhos.Um deles é que a cotação do petróleo pressiona os preços do diesel e amplia os gastos com transporte dos produtos e também com a movimentação das máquinas no campo usadas nas safras.Outra fonte de pressão, diz Romão, vem dos fertilizantes derivados de petróleo ou gás natural, que pesam no custo de produção dos produtos agrícolas.PublicidadeSe for confirmado um super El Niño, com excesso de chuvas ou secas, poderá haver mais pressão no preço dos alimentos. “O momento mais complicado por conta dos efeitos do El Niño é o trimestre que começa em novembro e termina em janeiro do ano que vem e, é claro, pode contaminar (os preços de alimentos) de 2027”, prevê o economista.Alta do diesel encarece os custos da produção agrícola Foto: Tiago Queiroz/EstadãoOutra mudança importante que houve nas projeções por causa da guerra aparece nos preços administrados pelo governo. E é nesse grupo que estão os combustíveis. Segundo Romão, a aposta inicial era que os preços administrados poderiam segurar um pouco o IPCA deste ano. Antes do início do conflito, a consultoria projetava alta de 3,5% para os preços administrados em 2026, mas agora a perspectiva é de um aumento de 5%.Marcela, da Lifetime, observa que uma alta de preços administrados chega rápido no dia a dia das pessoas quando, por exemplo, elas vão abastecer o carro. Esses aumentos são repassados para os custos e os preços de outros produtos e serviços, sobretudo no momento atual, com a economia muito aquecida. Publicidade“Com o mercado de trabalho forte e os salários crescendo, a possibilidade de repasse aumenta”, diz a economista. Ela projetava que a inflação deste ano seria de cerca de 4% antes da guerra e agora espera 5,07%.Serviços ganham fôlegoDados do IPCA-15 – a prévia da inflação – acumulados em 12 meses até maio mostram que já existe o repasse da pressão inflacionária para além dos grupos de preços impactados diretamente pelo choque de commodities. O movimento é nítido em dois grupos de preços. Um deles é a alimentação no domicílio, que acumulava alta de 0,82% em 12 meses até abril e atingiu 2,26% em maio, segundo o IPCA-15. Esse foi o estopim de um movimento de revisões das projeções de inflação para este ano.O outro grupo é o dos serviços, que voltaram a subir. Em 12 meses até maio, eles acumulam alta de 6,16%, de acordo com o IPCA-15. Em março estavam em 5,97%, mas tinham desacelerado para 5,80% em abril, na mesma base de comparação.PublicidadePara a economista-chefe do banco Inter, Rafaela Vitoria, que elevou de 4,9% para 5,1% a projeção de inflação para este ano, o que provocou impulso na inflação de serviços foi a reaceleração dos gastos do governo. Ela destaca que houve um acúmulo de estímulos de crédito e de transferências de renda, como o desconto do Imposto de Renda, o aumento do salário mínimo, a redução da fila do INSS, a antecipação de precatórios e, mais recentemente, o programa de crédito para motoristas. Esses estímulos deixaram a demanda mais aquecida, o que facilita o repasse dos aumentos de custos para os preços.De toda forma, foi considerado na revisão das projeções da inflação da economista o choque de oferta provocado pela alta de preços do petróleo por causa da guerra. Mas Rafaela acredita que o fator preponderante para a elevação das estimativas de inflação para este ano foi o estímulo fiscal. “Os estímulos pesam mais, o choque de oferta (provocado pelo petróleo) se dissipa.”Na sua avaliação, o País poderia ter uma política fiscal mais alinhada com a política monetária e que contribuísse para uma inflação menor. “Mas, em ano eleitoral, isso é praticamente impossível de se esperar.”PublicidadeO C6 Bank também elevou a projeção de inflação deste ano de 4,8% para 5%, embora tenha reduzido a estimativa da cotação do dólar para o final do ano de R$ 5,50 para R$ 5,20.Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, diz que a revisão ocorreu por causa da persistência das pressões inflacionárias observadas nos últimos meses.“Os preços de serviços aceleraram, sustentados por um desemprego que tende a se manter em níveis historicamente baixos. Além disso, o conflito no Oriente Médio traz um risco adicional para a inflação deste ano, dada a possível alta nos preços de combustíveis e alimentos”, afirma Salles.Situação difícil, mas sem descontroleApesar da grande preocupação com a inflação rompendo a barreira de 5% este ano e repetindo um movimento que houve em 2022, no pós-pandemia, quando o IPCA chegou a 5,8%, o quadro poderia ser pior, avalia Marcela Kawauti, economista-chefe Lifetime. “Não é o pior dos mundos e não estamos falando em descontrole”, frisa a economista.PublicidadeIsso porque o Banco Central está sendo conservador, argumenta. Isto é, demorou para começar a cortar os juros porque estava incomodado com a demanda doméstica e, quando decidiu cortar, a guerra eclodiu.A grande dúvida que existe hoje no mercado é como o Banco Central irá proceder daqui para frente e se irá interromper o ciclo de corte de juros antes do final do ano, avaliação que ganha força no mercado.Por ora, o que se vê é um ajuste das expectativas. De acordo com o último Boletim Focus do Banco Central, a Selic deve encerrar 2026 em 13,25% ao ano. Em 27 de fevereiro, na véspera do início da guerra entre Estados Unidos e Irã, o mercado esperava terminar o ano com uma taxa básica de juros de 12% ao ano.