Em entrevista ao GLOBO, Nísia Trindade, que comandou a Fiocruz durante a emergência do coronavírus, fala sobre as lições da Covid-19 e a preparação para as futuras pandemias 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Nísia Trindade, em foto de 2024, defende ações contra nova pandemia — Foto: Brenno Carvalho RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 17/07/2026 - 14:36 Nísia Trindade destaca preparo para futuras pandemias em novo livro Nísia Trindade, ex-ministra da Saúde e ex-presidente da Fiocruz, lançou o livro "Ainda Há Tempo" e enfatizou a inevitabilidade de futuras pandemias, destacando a importância de preparar-se adequadamente. Ela critica a gestão da pandemia de Covid-19 no Brasil e alerta para o impacto de fatores socioambientais e o negacionismo científico. Trindade destaca a necessidade de políticas públicas integradas com iniciativas sociais para enfrentar desigualdades agravadas pela pandemia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Enquanto, em 2020, cada dia era repleto de angústia e expectativa à espera de uma vacina, passados seis anos do início da pandemia é comum passar dias, ou até semanas, sem se lembrar de uma das maiores crises sanitárias que o mundo já viveu. Mas surtos como os de mpox, Ebola, hantavírus, entre outros, mostram que não é hora de baixar a guarda: é preciso estar preparado para a próxima pandemia, que especialistas classificam não como uma questão de “se”, mas sim de “quando” vai acontecer. Nesse sentido, a ex-ministra da Saúde e ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade, primeira mulher a ter ocupado ambos os cargos, defende a importância de não deixar a Covid-19 e suas lições caírem no esquecimento. Para ela, que comandou a maior instituição de pesquisa biomédica da América Latina durante os anos da crise, temos avançado, mas ainda não o suficiente. — Fala-se, com muita frequência, que ocorrerá uma nova pandemia, a questão é quando. Então o preparo é fundamental para todos os países. Avançamos em muitas áreas, mas ainda é insuficiente para o necessário esforço de prevenção, preparação e resposta — diz ao GLOBO. Em junho, a socióloga com longa formação em Saúde Pública pela Fiocruz, onde é pesquisadora emérita, lança o livro "Ainda Há Tempo" (Civilização Brasileira), que conta o enfrentamento à pandemia e os dois anos à frente da pasta da Saúde, e inaugura a exposição "Vida Reinventada", no Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS), no Rio de Janeiro, que revisita os impactos da crise. No livro, a senhora comenta sobre ser a primeira vez que pode falar de forma mais aberta sobre a época à frente da Fiocruz. Quais são as principais mensagens que deixa? Não pude colocar naquela época, sobretudo por meu lugar institucional. Mas o que vejo como mensagens principais do livro é, primeiro, a importância de se lembrar. A memória é fundamental quando passamos por um processo como a pandemia, que no Brasil foi um quadro dramático com 715 mil vidas perdidas, mas cujas ações de proteção à sociedade não foram adequadamente tomadas pelo governo federal. Está respaldado em vários estudos que as ações de governo, a resposta dada às pandemias, fez diferença. E para isso, era preciso ter levado a pandemia a sério. E destacaria a importância de entender questões que levam às pandemias, sobretudo as socioambientais. O modo como as pessoas, as mercadorias circulam, fatores ambientais, como o desmatamento e o aquecimento global, tudo interfere no desenvolvimento de doenças infecciosas que possam se tornar pandemias. Um exemplo é a epidemia de dengue. Começamos a ter epidemias em áreas subtropicais, onde isso não ocorria. Passados seis anos do início da pandemia, acredita que estamos em um lugar melhor no Brasil? Nos últimos anos, criamos um memorial da pandemia de Covid-19, aqui no Rio de Janeiro, e ações relacionadas à preparação para uma possível futura pandemia. Porque fala-se, com muita frequência, que ocorrerá uma nova pandemia, a questão é quando. Então o preparo é fundamental para todos os países. Houve um investimento muito grande no âmbito da vigilância do sistema de saúde, no Programa Nacional de Imunizações e no Complexo Econômico e Industrial da Saúde, porque a pandemia revelou a vulnerabilidade da nossa produção interna, não só de tecnologias complexas, como vacinas, mas também das mais simples, como respiradores, máscaras. Uma avaliação da OMS mostrou avanço do Brasil em várias áreas, mas também apontou a necessidade de olhares específicos como para a vulnerabilidade maior das mulheres, a necessidade de uma melhor integração de dados e vários pontos críticos. E também temos o desenvolvimento no CNPEM, em Campinas, numa parceria entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o Ministério da Saúde, do primeiro laboratório NB4, que é um ambiente de segurança máxima capaz de apoiar a vigilância nessas situações de gravidade epidemiológica. Avançamos em muitas áreas, mas ainda é insuficiente para o necessário esforço de prevenção, preparação e resposta. Discutimos muito, por exemplo, a criação de uma legislação específica para as emergências sanitárias, que possa contemplar ações como disponibilização de leitos em situações emergenciais, uma entre várias ações a serem tomadas. E do ponto de vista mundial? Avançamos com o Acordo de Pandemias? Vivemos hoje num mundo, como disse o embaixador Celso Amorim, sem regras, o que nos deixa muito temerosos, com redução de investimentos em saúde e situações de conflito mundial que impactam fortemente a saúde. Na situação de hoje, tudo fica muito mais fragilizado, lembrando que países como os EUA saíram da OMS. Em relação ao acordo, ele foi aprovado, mas uma parte substantiva ainda está pendente. E é exatamente a que trata do compartilhamento de informações e de benefícios, ou seja, que garante que os países tenham acesso aos tratamentos e que compartilhem informações sobre o surgimento de novos vírus e outros fatores que possam gerar pandemias. É urgente que na próxima Assembleia Mundial da Saúde se complete esse quadro e se garanta que, numa nova situação de emergência, não aconteça o mesmo que aconteceu durante a Covid-19. A ciência foi capaz de desenvolver vacinas seguras e eficazes que salvaram vidas, mas com uma enorme desigualdade entre os países. Em setembro de 2021, somente 10 países concentravam 75% das doses de vacinas disponíveis aplicadas. O Brasil assumiu essa agenda de pensar a melhor forma de atuar no campo da saúde global, mas também no fortalecimento da produção local e regional de vacinas, medicamentos e outras tecnologias de saúde. São caminhos, forças a serem mobilizadas para que o mundo esteja mais preparado para uma próxima pandemia. Tivemos uma melhora da vacinação nesses últimos anos no Brasil, ao mesmo tempo vemos a onda crescente de negacionismo científico. Como a senhora avalia o cenário hoje? O negacionismo científico é um grande problema para avançarmos nas políticas de saúde. E ele não é algo pontual, não é simplesmente a hesitação vacinal, a dúvida. Trata-se de um projeto que busca negar descobertas e orientações científicas com base em falsos argumentos, como se houvesse lados opostos numa política de saúde pública, como é o caso da vacinação. Isso é inédito. Desde Oswaldo Cruz, com a revolta da vacina, há muitos momentos de falta de confiança na imunização, de questionamento, mas um projeto político como vemos hoje é uma construção. Esse é um fenômeno mundial, mas que, no Brasil, infelizmente apareceu como uma política de governo, como na indicação da cloroquina da Covid-19 quando sabidamente era ineficaz. A senhora é socióloga e isso foi muito comentado quando assumiu o Ministério da Saúde. Qual o lugar das Ciências Sociais quando se fala em saúde pública? Eu tenho 40 anos na saúde pública, atuando na Fiocruz, e as Ciências Sociais há muito tempo atuam no campo da saúde de forma relevante. Desde o pós Segunda Guerra Mundial, intensificaram-se programas com a presença de sociólogos e antropólogos para pensar as questões de saúde não apenas na dimensão do conhecimento biomédico, mas de um olhar profundo da sociedade. Essa ação se mostra absolutamente necessária em relação à vacinação, por exemplo. Podemos desenvolver uma ótima vacina, mas, se não houver adesão da população, ela perde totalmente a sua finalidade. E isso não é só no Brasil, vemos em muitos países, como Reino Unido, França, sociólogos e antropólogos atuando em programas de saúde. Essa interdisciplinaridade é cada vez mais urgente num mundo que enfrenta o desafio demográfico com o envelhecimento da população, o negacionismo científico, que é um projeto que tem uma fortíssima dimensão política, uma mudança profunda no trabalho e nas tecnologias de informação e comunicação. Quais outras lições a senhora vê com a pandemia? A pandemia não afeta todos de maneira igual, então há que se olhar para essas desigualdades em termos de renda, de educação, em termos étnico-raciais. E temos muitos efeitos da pandemia aumentando as desigualdades. Mas, ao mesmo tempo que nós vivemos um período tão terrível, nós vimos a sociedade se movimentar, movimentos sociais se articularem. Então as políticas públicas são muito importantes, mas defendo uma via de mão dupla com aquilo que vêm de iniciativas, propostas dos vários territórios do nosso país.