Em entrevista ao GLOBO, o diretor nacional de infectologia da Rede D’Or e ex-secretário de Saúde de São Paulo também compara a epidemia atual com a de 2014 O infectologista David Uip — Foto: Maria Isabel Oliveira/ Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 01/06/2026 - 21:29 David Uip: Improvável Chegada do Ebola ao Brasil, Reforça Vigilância O infectologista David Uip considera improvável a chegada do ebola ao Brasil, devido à complexidade da transmissão do vírus, ausência de voos diretos das áreas afetadas e histórico limitado de expansão da doença. Investigações recentes em SP e RJ descartaram casos suspeitos. Uip destaca a preparação das redes de saúde, como o Emílio Ribas, e a necessidade de vigilância, sem alarmar a população. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Nos últimos dias, São Paulo e Rio investigaram casos que foram considerados suspeitos para infecção por ebola, doença que tem se espalhado por regiões da República Democrática do Congo (RDC), Uganda e Congo, neste ano. Nos dois casos, os pacientes tinham passado há pouco tempo por países onde há atividade da doença e apresentaram sintomas gerais que poderiam indicar a presença da infecção. As suspeitas, porém, foram descartadas após exames laboratoriais e acompanhamento médico dos pacientes. No caso do Rio, tratava-se de malária. Em SP, meningite. Apesar dessa movimentação, o médico infectologista, ex-secretário de Saúde de São Paulo e diretor nacional de infectologia da Rede D’Or David Uip acredita que é “pouco provável” a chegada da doença no Brasil. Há alguns motivos, a transmissão dificultada, a falta de conexão direta entre os países em crise e o Brasil, além de não existir qualquer histórico do espraiamento da doença até aqui. Em 2014, por exemplo, São Paulo chegou a identificar três casos suspeitos, mas todos foram descartados. Ao GLOBO, Uip avaliou a resposta ao caso inicial de São Paulo, lembrou a epidemia de 12 anos atrás (quando era secretário de Saúde de SP) e disse por que não é hora de mexer com o fluxo dos aeroportos. Existe risco de ebola no Brasil? Estamos sob ameaça? Eu acho pouco provável a doença vir para o Brasil por alguns motivos. Primeiro, a história que já acontece há alguns anos. Os surtos foram (até aqui) importantes em regiões da África, na República Democrática do Congo e no Zaire, por exemplo, mas começaram e terminaram por ali mesmo, não se expandiram. É curioso, mas isso acontece pela forma de transmissão,que acontece após contato próximo, com paciente na forma aguda, com sintomas. Não é uma transmissão aérea como foi a Covid-19. Em que, ao pegar um avião, em 12 horas (a doença) está em outro continente. A forma de contágio não é simples, é complexa. E, por vezes, ligadas a rituais fúnebres, festivos, onde o hábito faz com que as pessoas fiquem próximas. Vi isso quando trabalhei por 17 anos em Angola e conheci cortejos, casamentos, os enterros, por exemplo. O que mais impede? Os voos. Não há muitos voos diretos de áreas endêmicas e epidêmicas para o Brasil. As portas de entrada seriam Rio de Janeiro e São Paulo, mas quem vem da África Subsaariana são voos intercalados. Acho pouco provável por esses três motivos. O histórico, pela maneira de contágio e pelo transporte (restrito) até o Brasil. Por que a transmissão parece ser mais difícil do que foi com outras doenças? É algo particular desse vírus? Essa é uma doença que é transmitida quando o indivíduo tem sintomas. Muitas vezes, esses sintomas caminham de forma grave. Tem um período de incubação de 2 a 21 dias, mas depois que a pessoa apresenta algum sinal da doença ela pode passar para grave muito rapidamente. Então, não é comum que nós brasileiros tenhamos contato com um paciente grave (que tenha conseguido se locomover, viajar, não esteja hospitalizado), com ebola, para que aconteça o contágio. O que o primeiro caso suspeito, identificado em São Paulo, nos oferece de pistas sobre a vigilância dessa doença no Brasil? A origem desse paciente de 37 anos não foi clara. Ele veio da República Democrática do Congo, mas não se sabia exatamente onde ele esteve. O que chamou atenção foi a forma clínica grave. Normalmente, o que acontece com esses pacientes é que eles chegam pelas unidades de saúde e depois vão para os hospitais. A rede precisa estar preparada para identificar sintomas e fundamentalmente para observar a epidemiologia. Se vier das regiões endêmicas ou atualmente epidêmicas, tiver essa história, e apresentar minimamente sinais iniciais como dor de cabeça, febre, dor muscular, tem que estar atento. E isso começa já nos cuidados iniciais e no encaminhamento, que é uma coisa muito complicada. Fizemos essa preparação em 2014. Preparamos o Emílio Ribas (instituto de infectologia em São Paulo). E isso se perdeu? Não, ele está preparado. Estava e segue. Ele passou por uma reforma enorme que está na terceira fase. O Emílio Ribas é e será um dos principais hospitais de infectologia no mundo por tudo que se investiu. É o hospital das grandes epidemias. A porta de entrada do doente grave no sistema. O que aconteceu com esse paciente era o que se esperava. O primeiro caso é sempre complicado. Eu era plantonista do HC quando apareceu o primeiro caso de cólera, todos tomamos um baile. O caso zero é sempre temeroso. Achei, porém, que neste caso suspeito a atitude pública foi adequada. Fez-se a hipótese, teve encaminhamento, e se chegou ao diagnóstico. Faria sentido uma medida de controle em aeroportos? Nos voos, existem anúncios sonoros, principalmente do sarampo, que pedem para procurar a autoridade sanitária caso note sintomas compatíveis. Mas, no caso do ebola, não é o momento sequer de você estar falando de um preparo especial em aeroporto para algo que provavelmente não acontecerá. É pouco provável. Uma pessoa sintomática no avião, inclusive, é percebida pela tripulação. Não é o momento de um alerta desse nível. Há muita diferença entre a epidemia de ebola atual e aquela de 2014? Naquele ano, foram milhares de casos e mortes. Então, obviamente alarmou as pessoas. Na época preparamos o Emílio Ribas e as pessoas, fizemos até simulação, estávamos prontos. Não vejo necessidade de alarme agora, ou da população estar assustada. O profissional da saúde, porém, tem que estar preparado. Hoje sou diretor nacional de infectologia da Rede D’Or. São 79 hospitais em 14 estados. Passamos o sábado tomando atitudes. Tanto de divulgação para toda a rede. E na quarta-feira haverá uma reunião com toda a infectologia, emergência e UTI, para prepará-la. Tanto a rede pública quanto a privada estão prontas para uma eventual chegada da doença ao país? Em relação à rede privada, eu falo por aquela que eu sou responsável hoje, estamos atentos. Estamos tomando providências. Vejo também que o Emílio Ribas está pronto e o Instituto Adolfo Lutz (o principal laboratório de saúde pública de SP) tem grande competência. A resposta foi rápida. É difícil para o Adolfo Lutz sozinho atender grandes epidemias, como foi a Covid, mas para esse tipo de resposta (em menor escala) ele é imbatível. O que temos de tratamento para o ebola, ou para proteção contra o vírus? Existem duas vacinas, mas não servem para a cepa atual. Provavelmente as novas vacinas caminharam para a tecnologia do RNA Mensageiro (de mais rápida adaptação). Os anticorpos monoclonais também estão evoluindo. Eles são um avanço que foi usado no Covid-19 e está progredindo. Para terapêutica viral, num geral, ainda existe pouca coisa.
'É pouco provável o Ebola chegar no Brasil', afirma o infectologista David Uip
Em entrevista ao GLOBO, o diretor nacional de infectologia da Rede D’Or e ex-secretário de Saúde de São Paulo também compara a epidemia atual com a de 2014













