Que o sono é importante para a memória, há pouca dúvida. Sabe-se bem menos, no entanto, sobre o que acontece no caminho inverso, ou sobre como as memórias afetam o sono. Um estudo publicado no mês passado na revista Science busca cobrir parte dessa lacuna e mostra como memórias ruins acumuladas durante o dia podem nos manter acesos à noite.

Uma equipe de pesquisadores chineses acompanhou a atividade cerebral de camundongos e mostrou que memórias recentes, especialmente vindas de emoções negativas, deixam o sono mais superficial e interferem diretamente na forma como o cérebro dorme.

"A memória não é apenas consequência do sono, mas um regulador ativo da arquitetura dele", afirma Andrea Bacelar, especialista em medicina do sono e membro da Academia Brasileira do Sono —ela não participou da pesquisa.

O mais importante do estudo, diz o neurologista Augusto Penalva, não é a constatação de que memórias negativas recentes atrapalham o sono —algo que experienciamos com frequência no dia a dia—, mas o mecanismo de como isso provavelmente acontece.

"Parece algo básico, mas do ponto de vista metodológico é extremamente difícil [de observar]. Não sabemos como o elemento material da malha neuronal se transforma em ideia, como a química se transforma em pensamento", diz Penalva, que coordena o grupo de Pesquisa em neurociências do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, e também não participou da nova pesquisa.