Sondagens são fotografias de um momento, não bolas de cristal. TSE deveria abandonar a ideia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O prédio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil O prazo para a entrega de sugestões de institutos de pesquisa sobre a proposta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de criar o “Selo Acurácia Eleitoral” acaba nesta sexta-feira. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, deveria aproveitar a oportunidade para abandonar a ideia. Ainda que bem-intencionada, ela parte de uma premissa equivocada. O objetivo de uma pesquisa não é nem deve ser acertar o resultado de um pleito. Levantamentos realizados por amostra ao longo de um ano eleitoral fazem um retrato do momento em que as entrevistas são realizadas. Nem mesmo sondagens a pouco tempo da eleição têm essa ambição. É comum eleitores trocarem de candidato horas antes do voto. No início de junho, Nunes Marques, em decisão sem precedentes na Corte, suspendeu, após apresentação de pedido do Partido Liberal (PL), a divulgação de um levantamento de intenção de voto da AtlasIntel publicada três semanas antes. A sondagem captou os efeitos da revelação do áudio em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedia dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar filme a respeito da vida de seu pai. Uma leitura atenta da metodologia e do questionário aplicado permitia concluir que os erros denunciados na acusação do PL não existiam. Em seguida, quando o caso foi ao plenário, houve debate sobre a necessidade de regulamentar as sondagens, e a votação foi interrompida por um pedido de vista da ministra Estela Aranha. Aproveitando a pausa no julgamento, Nunes Marques reuniu na terça-feira representantes de 16 institutos numa reunião no TSE para apresentar seu plano. A minuta prevê “reconhecer e valorizar empresas de pesquisa eleitoral cujas estimativas apresentem maior aderência aos resultados oficiais”. O selo de qualidade, diz o texto, busca “contribuir para a precisão entre os dados levantados pelas pesquisas e os resultados oficiais das eleições” e dar “visibilidade às empresas com melhor desempenho”. A proposta alimenta uma polêmica que acaba por erodir a confiança no trabalho de institutos sérios, voltados a informar os eleitores a respeito da disputa usando a melhor metodologia existente. Também torna corriqueiro todo tipo de acusação de irregularidade. Ante nova pesquisa desfavorável a Flávio, na quarta-feira o PL alegou ao TSE que sondagem recente feita pela Atlas/Bloomberg, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente na corrida eleitoral, apresenta “inconsistências” e deve ser impugnada. É fato que existem pesquisas comprovadamente fraudulentas e institutos que mentem sobre quem os financia, sobretudo nas esferas municipal e estadual. Mas há leis para combater essas irregularidades, e o TSE tem agido. A proposta de Nunes Marques leva o debate para outra dimensão. Pede o cumprimento de meta impossível. Em nota, a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) resumiu o tamanho do equívoco: “Exigir que uma pesquisa 'acerte' o resultado é confundir ciência com bola de cristal”.