Para Abep, a proposta cria um “incentivo perverso”, uma vez que institutos “sem rigor metodológico” poderiam ajustar seus números para “convergir ao consenso” Presidente do TSE, ministro Nunes Marques — Foto: Luiz Roberto/TSE A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) criticou nesta terça-feira (14) a proposta do ministro Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de um selo para premiar institutos que mais acertarem o resultado das eleições em levantamentos de intenção de voto. A minuta do chamado “Selo de Acurácia Eleitoral” foi proposta nesta terça, durante reunião entre ministros do TSE e representantes de institutos de pesquisa. O objetivo é reconhecer e valorizar “empresas de pesquisa eleitoral, cujas estimativas apresentem maior aderência aos resultados oficiais proclamados pela Justiça Eleitoral”. “A proposta de criar um selo para premiar institutos de pesquisa que mais se aproximarem do resultado das urnas parte de uma premissa equivocada sobre o que é uma pesquisa eleitoral. Pesquisas medem a intenção de voto no momento em que são realizadas. Não são previsões nem promessas de resultado. Entre a entrevista e a votação, eleitores mudam de opinião, deixam de votar ou alteram seu comportamento. Exigir que uma pesquisa ‘acerte’ o resultado é confundir ciência com bola de cristal”, diz trecho da nota da Abep, que tem entre seus filiados grandes institutos, como Datafolha, Quaest, Real Time Big Data, Ipsos, entre outros. Ainda segundo a associação, a proposta cria um “incentivo perverso”, uma vez que institutos “sem rigor metodológico” poderiam acompanhar pesquisas de “institutos sérios” e ajustar seus números para “convergir ao consenso”. “Quando o objetivo passa a ser ganhar um selo de 'acerto', o incentivo deixa de ser produzir a melhor pesquisa e passa a ser publicar o número que maximize a chance de receber o prêmio. Isso enfraquece, em vez de fortalecer, a qualidade da informação oferecida ao eleitor.” De acordo com a Abep, causa “especial preocupação” que a Justiça Eleitoral pretenda assumir o papel de “árbitro de qualidade” das pesquisas a partir de critério “tecnicamente equivocado”. A avaliação da qualidade de um levantamento deve considerar metodologia, desenho amostral, transparência, execução do campo e aderência às boas práticas científicas — não apenas a proximidade entre um retrato da opinião pública e um resultado que ainda estava por acontecer quando a pesquisa foi realizada. Reafirmamos nosso respeito ao Tribunal Superior Eleitoral e ao seu papel fundamental na garantia da lisura das eleições. Justamente por isso, entendemos que iniciativas dessa natureza precisam ser construídas em diálogo com a comunidade científica e com os institutos de pesquisa, para que não acabem estimulando práticas oportunistas e desvalorizando o rigor metodológico que deve orientar toda pesquisa séria.” Reunião com TSE A reunião entre representantes de institutos e ministros ocorreu na manhã desta terça, entre 9h20 e 10h30. Primeiro, Nunes Marques fez um discurso tratando da importância do encontro e apresentou a minuta do “Selo de Acurácia Eleitoral”. Depois, cada instituto presente falou por até cinco minutos. Nunes Marques também informou que o TSE seguirá recebendo sugestões sobre a minuta até sexta-feira (17). Além dele, participaram da reunião os ministros Antonio Carlos Ferreira, Estela Aranha, Floriano de Azevedo Marques e o vice-procurador-geral eleitoral Alexandre Espinosa. Os presentes, incluindo os integrantes do TSE, só tiveram conhecimento da minuta durante a reunião. Alguns deles também relataram discordar do documento apresentado por Nunes Marques. Segundo a minuta, o selo é “destinado ao reconhecimento e a valorização das empresas de pesquisa eleitoral, cujas estimativas apresentem maior aderência aos resultados oficiais proclamados pela Justiça Eleitoral”. “Receberão o selo todas as empresas que atenderem aos critérios de acurácia definidos no regulamento a ser editado pela presidência do Tribunal Superior Eleitoral”, prossegue o documento. A minuta também afirma que a iniciativa busca contribuir para “a precisão entre os dados levantados pelas pesquisas e os resultados oficiais das eleições”. O CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, se disse favorável ao selo. “A AtlasIntel apoia a iniciativa do ministro Nunes Marques para a criação do selo de qualidade de pesquisas a partir de critérios objetivos de precisão. Estamos à disposição para contribuir na discussão metodológica, a partir de iniciativas semelhantes a nível institucional”, disse em publicação no X. Já institutos que consideram a iniciativa problemática sustentam que pesquisas de intenção de voto são um retrato do momento em que elas são feitas, de forma que premiar resultados seria desconhecer como levantamentos são realizados. A minuta, assim como as sugestões a serem feitas pelos institutos até sexta, podem servir para a edição de uma súmula mais ampla a respeito de levantamentos de intenção de voto. Nunes Marques e outros integrantes do TSE planejam tratar do tema antes da disputa deste ano.