Será que toda forma de traição é necessariamente maligna? Nem sempre. Começo estas considerações evocando o caso do português Domingos Fernandes Calabar, que, em 1632, desertou das tropas luso-espanholas e passou a lutar ao lado dos holandeses durante a invasão do Nordeste brasileiro. Proprietário de terras e engenhos de açúcar na então Capitania de Pernambuco, Calabar foi retratado por cronistas portugueses como um traidor da pátria. Vários historiadores ponderam, porém, que era um homem da terra, discriminado por sua condição de mestiço.
Convencido de que os holandeses poderiam trazer mais progresso e liberdade ao Brasil, além de pagar melhores preços pelo açúcar produzido na região, Calabar mudou de lado. Dois anos depois, acabou enforcado sob a acusação de traição à Coroa portuguesa. A rigor, dificilmente poderia ser considerado um traidor do Brasil, que ainda não existia como nação, e tampouco de Portugal, à época sob domínio da Monarquia Hispânica.
Chico Buarque e Ruy Guerra revisitaram esse episódio na peça teatral Calabar: Elogio da Traição, que, como o próprio título sugere, questiona se o personagem deveria entrar para a história como um herói nacional ou um desprezível vilão. Escrita em 1973, a obra foi censurada pela ditadura e só chegou aos palcos no início dos anos 1980. O temor dos militares era compreensível. A simples possibilidade de o público refletir se os opositores do regime eram, de fato, perigosos subversivos ou, ao contrário, defensores de uma pátria livre da tirania, já representava uma grave ameaça.









