China não substitui mercado americano, pois absorve itens agrícolas, como soja, carne e petróleo. UE, Índia e Oriente Médio são alternativas para commodities, dizem analistas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Área de movimentação de contêineres no terminal do Porto de Santos — Foto: Jonne Roriz/Bloomberg RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/07/2026 - 12:14 Brasil busca novos mercados após queda nas exportações para EUA Com as tarifas dos EUA, o Brasil enfrenta dificuldades em encontrar mercados para seus produtos industriais, já que a China não substitui completamente o mercado americano. A China absorve principalmente commodities, enquanto os EUA compram bens manufaturados. União Europeia, Índia e Oriente Médio são alternativas, mas a diversificação é essencial. As exportações para os EUA caíram 13%, e especialistas sugerem que encontrar novos mercados é crucial para a resiliência do comércio exterior brasileiro. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A China ajudou a sustentar o crescimento das exportações brasileiras no primeiro semestre, com um salto de 22% das vendas (totalizando US$ 58,3 bilhões), mas o gigante asiático não substitui completamente o mercado americano, no caso de encolhimento do comércio por conta do tarifaço. Especialistas lembram que a pauta de produtos comprados do Brasil é diversa entre os dois países: commodities para os asiáticos e bens insdustriais para os americanos. — Os chineses compram uma pauta diferente dos americanos. Soja, minério de ferro, petróleo, celulose e açúcar têm espaço para crescer, mas a cota chinesa para carne bovina limita uma expansão maior desse produto — explica Jackson Campos, especialista em comércio exterior. Para Campos, com o tarifaço, a tendência é de nova redução das exportações brasileiras para os EUA, principalmente em produtos industriais e de maior valor agregado, como máquinas, madeira, transformadores, aço, etanol e parte da indústria de transformação. — O impacto dependerá da capacidade das empresas de absorver custos ou encontrar novos mercados — diz. 'Repor manufaturados é complexo' Humberto Aillon, professor Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), afirma que a compensação de perdas no mercado americano pela China é assimétrica: no caso da carne bovina, por exemplo, a cota de 1,1 milhão de toneladas se esgotou em julho e a tarifa acima da cota vai a 67%. — E o ponto central: a China absorve commodities, mas não compra o manufaturado que os EUA taxaram. Repor manufaturados no mercado internacional é bem mais complexo do que repor commodities — avalia. Para ele, com o tarifaço, a tendência é de mais pressão sobre produtos industriais brasileiros, e os setores mais afetados são madeira, ferro-gusa, etanol, açúcar bruto, máquinas, calçados e têxteis. No primeiro semestre, as exportações para o mercado americano encolheram 13,0% em comparação ao mesmo período de 2025, totalizando US$ 17,4 bilhões. Esse recuo reduziu a participação dos EUA nas vendas externas brasileiras para 9,4%, o menor percentual para um primeiro semestre desde 1997. Allan Gallo, professor de Economia e Direito Internacional da Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador do Núcleo de Estudos sobre a China, diz que o país asiático continua sendo o "nosso principal amortecedor" em relação às exportações. Mas essa compensação tem um limite: ela acontece nas commodities, mas não substitui os manufaturados de maior valor agregado que os EUA compram, como produtos de aço, máquinas e os sucos. — No total, a nossa balança aguenta, mas na composição, não existe uma troca perfeita. A carne bovina é um dos gargalos sérios, com o esgotamento da cota. Minha expectativa é de uma queda de até 10% nas exportações de carne em 2026. Dificilmente, a carne vai compensar as perdas no mercado americano. O que ainda pode ganhar espaço na China é soja, minério de ferro, celulose, algodão e, principalmente, petróleo — explica. Fora da China, a União Europeia, diz ele, é a nossa principal alternativa. Ele vê espaço para ampliar vendas de café, carne, celulose e outros produtos do agro. Oriente Médio, Índia e Sudeste Asiático também ajudam, mas principalmente nas commodities, observa. Para Campos, União Europeia, Índia, Sudeste Asiático, Oriente Médio e Norte da África podem ampliar compras de produtos brasileiros, incluindo açúcar, milho, petróleo, celulose, café, algodão, minerais, carne e parte dos produtos industriais vendidos para os EUA têm potencial para ganhar espaço, dependendo das condições de cada mercado. Ele diz que, mesmo sem o tarifaço, diversificar mercados continua sendo uma estratégia importante para reduzir riscos, ampliar oportunidades e diminuir a dependência de poucos compradores, tornando o comércio exterior brasileiro mais resiliente. Diversificação deve ser 'estratégia permanente' Humberto Aillon avalia que o Brasil pode crescer suas exportações para outros mercados, com destaque para a União Europeia, que já teve alta de 12,8% no primeiro semestre, especialmente com o acordo Mercosul-UE em implementação. No café, por exemplo, a Alemanha já assumiu o lugar dos EUA como maior comprador. Na proteína, os caminhos são Chile e a aposta estrutural em Japão e Coreia do Sul. No petróleo, a Índia cresceu 78% em volume comprado do Brasil . — A diversificação não deve ser um plano B, mas estratégia permanente. Mesmo perdendo 13% nos EUA, as exportações totais do país cresceram 11,5%, no primeiro semestre, para o recorde de US$ 184,8 bilhões. O cuidado é que o Brasil não pode trocar uma dependência por outra, tanto que a China também usa instrumentos comerciais quando lhe convém, como mostrou a cota da carne. Sergio Goldbaum, professor da Escola de Políticas Públicas, Governo e Empresas da FGV de Brasilia (FGV EPPG) avalia que a diversificação dos destinos das exportações brasileiras já é uma realidade. Ele lembra, no entanto, que as decisões de comércio exterior são tomadas com antecedência e planejamento. Exportações requerem documentação, burocracia, acertos entre fornecedores, distribuidores, contratos de transporte, seguro. E os exportadores brasileiros tomaram suas decisões considerando o cenário atual (sem o tarifaço). — Qualquer mudança no cenário levará tempo para apresentar efeitos. Mas se mantida a atual política comercial dos Estados Unidos em relação ao Brasil, a tendência de médio prazo é mesmo de desvio das exportações brasileiras em direção a outros destinos. Como há isenções – o setor aerospacial, alguns produtos agropecuários — pode ser que essa tendência se estabilize em um patamar baixo. Mas o efeito, até agora, é enorme — afirma. Apesar de integrantes do governo do governo Lula aventarem um renegociação do tarifaço de 25% (se ele for implementado) apenas no próximo governo, Jackson Campos discorda dessa possibilidade. Para ele, questões comerciais costumam seguir uma lógica própria e podem avançar independentemente do calendário eleitoral. Se houver interesse econômico dos dois lados, ajustes nas tarifas ou novas negociações podem acontecer ainda este ano, afirma. Para Humberto Aillon, a negociação estrutural das tarifas fica para o próximo mandato, pois a decisão do USTR tem caráter predominantemente político e envolve temas complexos como Pix, etanol e propriedade intelectual. — Mas a negociação tática das exceções está viva neste momento — argumenta. Allan Gallo diz que um acordo substantivo entre EUA e Brasil é improvável antes de outubro de 2026, porque o retorno político da pressão está atrelado à eleição brasileira, não à americana. — Mas a Seção 301 é um instrumento administrativo, ajustável a qualquer momento e não está “travado” até um novo mandato — afirma.
Com tarifaço de Trump, Brasil terá dificuldade de encontrar mercados para produtos da indústria
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