A um dia de os Estados Unidos tomarem a decisão definitiva sobre um novo tarifaço sobre produtos brasileiros, o governo Luiz Inácio Lula da Silva trabalha com duas hipóteses sobre como a gestão de Donald Trump conduzirá o tema. O prazo para o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) definir as sanções é esta quarta-feira. A hipótese considerada provável é de que os Estados Unidos decidam pela tarifaço de 25% sobre parte das importações do Brasil destinadas ao país. A segunda hipótese avaliada é de que os EUA mudem de ideia, influenciados pela ala ideológica do Departamento de Estado Americano, e adiem a punição econômica sob argumento da presença do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na audiência pública da USTR na última semana. Na oportunidade, o senador afirmou que o "momento" eleitoral é o "pior possível" para a implementação do tarifaço. O governo Lula, no entanto, não tratou a audiência pública como canal de negociação, mas espaço para ouvir a sociedade civil e o empresariado. A hipótese de adiamento de tarifaço para beneficiar Flávio Bolsonaro é vista como um gesto que afetaria a credibilidade do USTR e também mostraria que a investigação comercial não teve critério técnico e foi talhada para influenciar no processo eleitoral brasileiro. Outro ponto é de que uma decisão nesse nível iria contra o modelo de política industrial implementado por Trump, com prática de implantação de tarifas agressivas para encarecer produtos estrangeiros e forçar a reindustrialização dos Estados Unidos. A avaliação do Palácio do Planalto é de que o governo teria narrativa para se defender bem nos dois cenários: de tarifaço ou de adiamento para beneficiar Flavio Bolsonaro. Será apenas a partir da decisão do governo americano nesta quarta-feira que auxiliares de Lula irão calibrar uma resposta e passar a discutir a reação. A possibilidade de reciprocidade no tarifaço ainda não é discutida no detalhe, pois para o governo ainda é imprevisível a lista de produtos que sofrerá as sanções. Auxiliares de Lula explicam que é fundamental aguardar a decisão dos EUA e ver item a item que sofrerá com a tarifa, para então, medir e planejar a reação do governo brasileiro. Lula, no entanto, tem pedido que as negociações sejam mantidas até o último dia. Desde a reunião de Lula com Donald Trump na Casa Branca em maio, quando se tratou do tarifaço, o governo brasileiro se reuniu quatro vezes Jamieson Greer, Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). O tarifaço foi sugerido pelo Escritório do USTR, órgão responsável pela política comercial do país, e classifica uma série de atos, políticas e práticas brasileiras como "irracionais" ou capazes de restringir o comércio norte-americano. A investigação foi aberta em julho de 2025 por determinação do presidente dos EUA, Donald Trump, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento já utilizado em disputas comerciais contra a China. Entre os principais pontos apontados pelos americanos está o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, o Pix. Segundo o relatório, o Banco Central do Brasil atuaria simultaneamente como regulador e operador do sistema, criando vantagens competitivas em relação a empresas privadas estrangeiras que oferecem serviços de pagamento digital. Os EUA também questionam decisões de tribunais brasileiros envolvendo plataformas digitais. O documento afirma que autoridades judiciais emitiram ordens sigilosas para remoção de conteúdos políticos e suspensão de perfis em redes sociais, inclusive de residentes nos Estados Unidos.