Em democracias, a conversa pública tem rito e tem propósito 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Redes sociais são palco de extremismo — Foto: AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 13/07/2026 - 22:16 Barbárie na Política: Como o Debate Democrático Está em Risco Globalmente O artigo discute como a barbárie pode substituir o debate democrático quando o foco está em derrotar o oponente, em vez de persuadir. Exemplos de ataques pessoais e "lacração" na política são abordados, destacando que o problema não é apenas americano, mas global. O texto defende que, para preservar a democracia, é necessário tolerar opiniões divergentes e promover o debate baseado em argumentos, não em batalhas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO ‘Aí ela diz coisas como você é gay ou você é horrível.’ Quem conta a história é Jeremy Boreing, comentarista político conservador americano, em seu podcast. Foi agora, nesta semana última. Ele se referia a Candace Owens, ativista pró-Trump com uma massa de seguidores nas redes: — As pessoas vão nos meus comentários: “Aposto que você não queria nem ter saído da cama hoje” ou “A Candace te destruiu.” E ela não havia dito nada, nenhum argumento, só um ataque pessoal. Mas, para aquelas pessoas, ela ganhou o debate. Esse é um desafio difícil para nós, que tentamos nos comunicar nesse novo ecossistema de informação. Se a gente não sustenta nossos argumentos com uma certa dose de paixão, com um tom de briga, existe um grupo inteiro de gente lá fora que não é capaz de avaliar, no mérito, se o que estamos dizendo é verdade ou não. Se tentamos nos comunicar de um jeito que não nos deixe com vergonha de aparecer em público, perdemos metade da plateia. Porque dá a impressão de que, se realmente acreditasse no que está dizendo, você a atacaria pessoalmente. Esse não é um problema apenas americano. Nas democracias do Ocidente, principalmente naquelas mais inflamadas politicamente, a sensação é essa para todos que participam do debate público digital. Por aqui, a gente tem um nome bastante específico para esse jeito de conversar — é a lacração. Seu principal símbolo são os óculos escuros pixelizados. A turma que segue o MBL e o bolsonarismo ainda os usa vez por outra. A mensagem que passa não é de que convenceu. Porque, nesse tipo de embate, o objetivo é outro. É derrotar. O fenômeno não é único à direita. À esquerda, a derrota a um adversário político se impõe por outros métodos. Com cancelamentos, aquele jeito de humilhar publicamente por ataques em enxame cujo objetivo final é destruir profissionalmente o adversário ou, dependendo do caso, até vê-lo preso por manifestar ideias impróprias. Em comum está a noção de que o objetivo do debate público é derrotar, não persuadir. Nessas horas, é tentador reagir concluindo que os bárbaros assumiram a conversa e é por isso que as democracias entraram em crise. É mais complicado. Quando os Estados Unidos eram ainda uma rara democracia viva, ainda cambaleante, as páginas de sua imprensa primitiva eram abarrotadas de ataques pessoais espalhados em todas as direções políticas. No início do século XX, no momento em que as metrópoles começavam a cruzar a marca do milhão de habitantes, novamente. O debate voltou a flertar com a barbárie. Dá para ir para ainda antes. O resultado do surgimento da imprensa, inventada no final do século XV, não foi um surto de sabedoria e razoabilidade. O resultado foi a Reforma, depois as guerras religiosas que só o Iluminismo resolveu. Naquele tempo, ninguém parou nas ofensas. As pessoas se matavam. Em democracias, a conversa pública tem rito e tem propósito. Não é trivial participar desse experimento de não ter um tirano. Nele, duas coisas são certas. A primeira é que teremos pessoas com temperamentos progressistas, e gente com inclinação conservadora. Algumas das discordâncias serão profundas e difíceis. A segunda é que, de tempos em tempos, a democracia se expandirá. Isso quer dizer que uma nova tecnologia de comunicação aparecerá e mais gente terá voz no debate público. Quem já tinha voz vai ficar horrorizado com os maus modos de quem acabou de entrar. Todos os ciclos de democratização são assim. A gente simplesmente não vem pronto para participar de debate. É. Nossa natureza quer derrotar, quer calar, deseja humilhar. Não somos anjos. Por isso se construiu um rito para o debate público que nasce de disciplina, não da natureza. Tolerar a existência de gente que pensa diferentemente, às vezes de forma ofensivamente diferente, é o único jeito de convivermos numa democracia. Não há outro. Mas, para além da tolerância, é necessário também o exercício da persuasão. Nem todo mundo poderá ser convencido por um argumento. Aos poucos, no entanto, bons argumentos fazem as pessoas cederem. Tem acontecido há tempo suficiente para sabermos que funciona. É só que demora. James Madison já sabia, no século XVIII, que o debate democrático não nasce por educação. Nasce se adaptamos as instituições para favorecê-lo. Alexis de Tocqueville falava disso no século XIX. Esse não é conhecimento novo. Sabemos como fazer democracias funcionarem. A forma como nos comunicamos tem de ser calibrada para favorecer o tipo de debate que promova persuasão. Não batalhas. Hoje, há empresas que lucram muito insuflando essas batalhas. Enquanto permitirmos, é a barbárie que substituirá o debate.