O que é recuperação judicial?Entenda o processo que empresas podem solicitar para superar uma crise financeira. Gerando resumoA gestora Latache, uma das principais acionistas da Oncoclínicas, ficou um pouco mais perto de perder a briga com o fundo americano Centaurus em torno do pleito para realização de uma oferta pública de ações (OPA), após decisão contrária da área técnica da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A disputa envolve uma cifra estimada em R$ 6 bilhões, mais de 10 vezes o valor de mercado da empresa (R$ 502 milhões) na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo.PUBLICIDADEProcurados, Latache e Oncoclínicas não responderam. Centaurus e Goldman Sachs não comentaram.O imbróglio acontece enquanto a Oncoclínicas enfrenta dificuldades financeiras profundas, na expectativa de uma solução para a dívida de R$ 3,5 bilhões, com caixa restrito e as ações com queda de 71% no ano. Para evitar um calote generalizado, a Oncoclínicas obteve proteção na Justiça contra credores em abril. Conforme mostrou o Estadão/Broadcast, a negociação para o pedido de recuperação extrajudicial está caminhando, no modelo feito pela Raízen.PublicidadeO início da disputa na CVM, há cerca de dois anos, coincide com a aproximação da Oncoclínicas do Banco Master Foto: Oncoclínicas/DivulgaçãoA área técnica da CVM se manifestou sobre o caso no final de junho, mais de um ano após a Latache — gestora especializada na aquisição de dívidas e empresas em situação de desequilíbrio financeiro — protocolar um pedido de OPA, em abril de 2025. O questionamento sobre a necessidade da oferta veio dois meses após a Latache atingir uma participação de quase 7% na companhia, posição que vinha construindo desde dezembro de 2024. Uma decisão final ainda depende de votação do colegiado da CVM e a Latache deve recorrer da decisão da área técnica, conforme comunicado da empresa.Os dois acionistas que protagonizam o embate têm atualmente as maiores posições na Oncoclínicas: Latache, 14,79%; e Centaurus, por meio do fundo Josephina III, 14,76%, de acordo com informações que constam no site da empresa. A discussão envolve ainda um outro nome de peso, o banco Goldman Sachs — acionista relevante da empresa no passado, trouxe o fundo Centaurus como co-investidor.Quando a Latache entrou no negócioA entrada da Latache se deu num momento em que as coisas já não caminhavam tão bem no negócio. A gestora é especializada em buscar retorno a partir da reestruturação de empresas com problemas financeiros. Em geral, isso é feito com mudanças nas operações das companhias em crise. PublicidadeNo caso da Oncoclínicas, a tese societária levantada pela gestora pode ser um fator adicional e até mais relevante do que a virada do negócio. Isso porque movimentaria recursos bilionários e poderia, a depender da leitura da CVM sobre o caso, beneficiar os atuais sócios (entre os quais a Latache), se confirmada a necessidade de uma oferta de ações.A Latache argumenta à CVM que a Centaurus aparece como um novo acionista, com participação direta na Oncoclínicas, após uma reorganização societária de novembro de 2024 no fundo Josephina II, veículo de investimento de Goldman Sachs na empresa. O estatuto da companhia prevê a OPA se um novo investidor adquirir 15% ou mais de ações emitidas pela companhia. A gestora cita ainda falhas de divulgação e omissão de informações relevantes, além de possíveis prejuízos aos minoritários.Numa das manifestações à CVM, a gestora pede urgência na análise do caso, dada a “rápida deterioração dos indicadores financeiros da Oncoclínicas”. Bruno Ferrari, médico fundador da companhia, também se posiciona no processo a favor da realização da oferta.PublicidadeA Centaurus se defende, conforme o processo instaurado na CVM, dizendo que já era acionista de Oncoclínicas, como co-investidor do Josephina II e que, portanto, se enquadra na exceção do estatuto da exigência de OPA para acionistas já titulares da participação acionária relevante.Num dos documentos do processo, a Centaurus diz ainda que a denúncia da Latache é uma “estratégia oportunista” da gestora, que estaria buscando utilizar o regulador para “uma saída do investimento a preços significativamente superiores aos de mercado”.Investimento do Goldman Sachs começou em 2015O banco Goldman Sachs investiu pela primeira vez na Oncoclínicas em 2015, por meio de um fundo proprietário, o Josephina I, composto por recursos do banco e do fundo de pensão de empregados do banco, adquirindo 20%.PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEA história que deu origem à reorganização societária começou em 2017 e foi concluída em 2018, quando o Goldman Sachs decidiu ampliar o investimento. Como a regulação norte-americana limitava a exposição, trouxe o fundo Centaurus para compor uma fatia de controle, sendo então constituído o fundo Josephina II, com participação de 36,14% de Centaurus. Em julho de 2019, a participação do Centaurus no Josephina II aumentou para 43,88%. Os fundos Josephina I e II chegaram a superar os 90% de fatia da empresa antes da oferta inicial de ações (IPO) da Oncoclínicas, em 2021, quando a empresa levantou R$ 3,6 bilhões na B3. O restante da participação estava com Bruno Ferrari e médicos. A regra da OPA foi incluída no estatuto da companhia na ocasião do IPO e virou mote da disputa de Latache com Centaurus em 2024, quando o Goldman Sachs decidiu praticamente sair da Oncoclínicas, por meio de uma reorganização do fundo Josephina II. O Josephina I já constava com uma participação residual.PublicidadeEm 2021, no IPO, o Josephina II era acionista da Oncoclínicas com 72,5% do capital da empresa, enquanto Centaurus, com uma fatia de 43,88% no fundo, tinha uma participação indireta de 31,81% na companhia. Pós-IPO, o Josephina II reduziu sua participação da Oncoclínicas para 48,13% e a Centaurus restou com uma fatia indireta de 21,12%.Reorganização societária deu início à disputaO principal evento seguinte, e que dá origem à disputa dos acionistas, foi a reorganização societária do fundo Josephina II em novembro de 2024, quando o banco norte-americano já tinha uma exposição menor, de 36% da companhia, dos quais 16% estavam com a gestora Centaurus. Nesta reorganização, houve a transferência da participação da Centaurus do Josephina II para o fundo Josephina III.Em sua defesa, a Centaurus mostra à CVM que a reorganização societária não pode ser vista como uma aquisição de nova participação, mas como um exercício de “direito contratual da Centaurus” com o Goldman Sachs, “de assumir a gestão direta de um investimento que já possuía”. Já como companhia listada, os movimentos feitos pelos fundos Josephina foram comunicados ao mercado, mas a Latache alega que a Centaurus era desconhecida.Para reforçar a presença da Centaurus na Oncoclínicas, consta no parecer técnico da CVM a informação de que, em outubro de 2019, o diretor de investimentos da Centaurus, Allen McMichael Gibson, foi eleito para um assento no conselho de administração.Na decisão, a área técnica conclui que não houve acionamento da cláusula de veneno (poison pill), sustenta que a exceção prevista para acionistas relevantes antes da abertura de capital é aplicável e que a reorganização de 2024 não criou uma nova participação relevante, como argumenta a Latache. Daí porque não existe, na avaliação dos técnicos, obrigação de oferta pública de ações.O caso será apreciado agora pelo colegiado da CVM. Num processo recente, envolvendo discussão também sobre a necessidade ou não de fazer uma oferta pública de ações por questões societárias, da Ambipar, a decisão final acabou em direção contrária ao parecer da área técnica, num vaivém de ritos e votação que gerou questionamentos no mercado.PublicidadeOncoclínicas também contabiliza problemas com o MasterO início do enredo que permeia a discussão na CVM, há cerca de dois anos, coincide com a aproximação do Banco Master com o sócio-fundador da Oncoclínicas, Bruno Ferrari.O comunicado ao mercado de 11 de julho de 2024, sobre a homologação de um aumento de capital feito em maio do mesmo ano, de R$ 1,5 bilhão, do qual o Master foi subscritor de R$ 1 bilhão e Ferrari, de R$ 500 milhões, cita Latache e a WNT Gestora de Recursos.No documento, a Oncoclínicas diz que o Master informa que passou a deter 20,18% do capital social de Oncoclínicas por meio fundos geridos pela Latache, representando uma fatia de 11,97% da empresa, e pela WNT Gestora de Recursos, com outros 8,20%. O Master diz ainda que os fundos são controlados direta ou indiretamente pelo Master e seus controladores.PublicidadeA entrada do Master acabou deixando um legado de perdas na companhia mais adiante. Parte do dinheiro do aumento de capital foi aplicado pela Oncoclínicas em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do próprio banco e, na data da liquidação, em novembro de 2025, a empresa de saúde ainda detinha quase R$ 500 milhões em papéis do Master.A Latache vinha somando participação desde dezembro de 2024. Autora do pedido de OPA na CVM contra o acionista Fundo Centaurus e o Goldman Sachs, a gestora aparece no quadro acionário da Oncoclínicas individualmente em fevereiro de 2025, quando sua participação atingiu 6,84%, como gestora dos fundos ARCL III e Nova Almeida. Já o nome do sócio-fundador da Latache, Renato Azevedo, também surge na companhia ainda em 2024, mas em dezembro, por meio de um comunicado informando sua renúncia do conselho de administração. O aumento de capital deu ao Master o direito de escolha de um assento em conselho. A saída de Azevedo ocorreu um mês após a reorganização societária feita em novembro de 2024 pelo Goldman Sachs em sua participação na Oncoclínicas e que gerou a tese da OPA.PublicidadeQuando a oferta de ações foi questionadaO questionamento sobre uma OPA surgiu em março de 2025, pela Associação Brasileira de Investimento, Crédito e Consumo (Abraicc), criada em outubro de 2024, seguido pela Latache em abril, conforme documentos obtidos pelo Estadão/Broadcast. Sem eco, a Latache convocou em agosto de 2025 uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para votar a suspensão do exercício de direito do fundo Josephina III, que resultou na reorganização societária da participação da Goldman Sachs na empresa. O conselho de administração recusou o pedido.Este ano, a pressão da Latache e da Abraicc aumentou, não só na CVM mas extrapolando para a Justiça brasileira e para a norte-americana. Em maio, a Abraicc chegou a protocolar um recurso no colegiado da autarquia para que fosse reconhecida a obrigatoriedade da OPA sem avaliação do mérito pela área técnica, citando demora excessiva.PublicidadeComo a briga é vista pelo mercadoNo mercado, há dúvida sobre qual o benefício dessa discussão da OPA, enquanto a Oncoclínicas busca uma saída para sua crise. De acordo com pessoas a par do assunto, existe atualmente um esforço para a venda de ativos, mas a potencial diluição de Latache tem impedido que uma transação chegue a um ponto final. De acordo com informações levadas pelo Josephina III à CVM, um novo conselho foi eleito este ano, com sete membros, sendo 5 indicados pela Latache.Leia tambémOncoclínicas admite tratativas para recuperação extrajudicial em meio a negociações com credoresOncoclínicas obtém liminar na Justiça para suspender vencimento antecipado de dívidasQual a situação da Oncoclínicas após Fleury e Porto desistirem de acordoPorto Seguro e Fleury chegaram a propor um aporte de R$ 1 bilhão em ativos que seriam segregados em uma NewCo (nova companhia), mas desistiram da transação, sem revelar os motivos. Os ativos depreciados ficaram em uma outra empresa. Na avaliação de pessoas a par do assunto, as incertezas que cercam a Oncoclínicas a respeito da viabilidade financeira fizeram ambas recuarem do negócio.Em manifestação enviada à CVM, a Centaurus diz que neste ano houve “tomada de controle” pela Latache e afirma que as negociações envolvendo Porto Seguro e Fleury foram estruturadas para beneficiar a gestora. Publicidade