Somos livres? Essa pergunta é cansativa. Deixemo-la para os iniciantes. Uma coisa é discutir liberdade no âmbito de algum autor específico, outra coisa é fazê-lo a céu aberto, tipo "liberdade é...". Principalmente depois da contracultura, esse assunto se transformou, na melhor das hipóteses, num debate vazio acerca de produtos dentro da esfera do marketing de comportamento —criado na sequência da contracultura—, ou, na pior das hipóteses, coisa de picareta, vendendo dicas infantis de "como ser livre, em sendo mulher...", por exemplo.

Quanto a autores, a lista é vasta. Agostinho (354-430) e a fundamental pergunta se temos ou não livre-arbítrio depois da queda e do pecado original, ou se, desde então, nos arrastamos no mundo sob a égide de compulsões como orgulho, luxúria, busca por poder e por aí vai. Quem tentar provar essa tese como falsa, provavelmente, acabará mentindo ou passando atestado de dano cognitivo.

O liberalismo humanista descendente de gente peso pesado como John Locke, no século 17, criará quase uma religião centrada na ideia de que, agindo de forma livre e racional —Kant, no século 18, tem seu lugar nessa linhagem do mito da autonomia moral humana—, progredimos para estágios superiores de comportamento político e moral. Passamos da tolerância religiosa de Locke para a liberdade individual absoluta de consumo, penso, como um dos mitos típicos da modernidade.