Algumas pessoas preferem terceirizar e acreditam que ele pertence a Deus. Mas o futuro sempre fascinou quem queria adivinhá-lo. De cartomantes a profetas, passando por oráculos e videntes, chegamos aos analistas da Faria Lima. Antecipar tendências (com perdão do tenebroso anglicismo) é mister diário de operadores e economistas do mercado financeiro. Assim ganham a vida. São duas tribos diferentes, que não falam o mesmo dialeto, mas se comportam como etnias miscigenadas, principalmente depois da proliferação de pequenas empresas de gestão de recursos. Para os gestores de fundos multimercados, a regra do jogo é banal. Devem comprar o que eles acham que vai subir e vender (ou ficar vendido) os ativos que, dizem os búzios, vão desvalorizar. A hipótese subjacente é que a expectativa de inflação, sondada no mercado financeiro simbolizado pela Faria Lima, é uma profecia autorrealizável Foto: Tiago Queiroz/EstadãoPUBLICIDADETem dado certo? Não muito. O IHFA é um índice calculado pela Anbima que mede a performance desses fundos. O desempenho tem sido menos do que espetacular. Eles perdem da Selic nos últimos 12, 24, 36 e 60 meses. Para piorar, o risco do IHFA, medido pela volatilidade, é algo como 25 vezes maior do que o da Selic. A bola de cristal das ciganas do mercado não tem funcionado. Não à toa, os saques desses fundos alcançaram R$ 59 bilhões no ano passado. O problema se amplia quando se recorda que o Bacen recorre ao mercado para coletar previsões de inflação que norteiam a fixação da Selic. A hipótese subjacente é que a expectativa de inflação é uma profecia autorrealizável. Se os empresários acham que a inflação vai subir mais adiante, eles podem se precaver e elevar os preços agora. A segunda hipótese dos modelos de meta de inflação é que os juros podem influenciar as expectativas e demover movimentos altistas. Cabem aqui algumas qualificações. A primeira é que os analistas da Faria Lima simplesmente não sabem quanto será o IPCA em 2026 ou 2027. Tampouco são capazes de captar os sentimentos dos empresários. Outro senão é que nem sempre as empresas têm poder de mercado para fazer prevalecer suas expectativas (há, no jargão, price makers e price takers. A atual gestão do Bacen, com propriedade, tentou contornar esse problema com a pesquisa Firmus, que coleta as expectativas das empresas. PublicidadeMas, provavelmente devido à penúria financeira do Banco Central, a pesquisa é apenas trimestral e o número de empresas consultadas é baixo (349 na última edição). Seja como for, a própria autoridade monetária parece acreditar que o papel das expectativas é limitado. Desde o final do ano passado, a previsão dos analistas financeiros para o IPCA de 2026 passou de 4% para 5,3% (e de 3,8% para 4,2% para 2027). A expectativa das empresas também vem subindo. Ainda assim, a taxa Selic sofreu três cortes. Parece ser um reconhecimento de que o futuro realmente não nos pertence.
Opinião | A bola de cristal das ciganas do mercado financeiro não tem funcionado
O problema se amplia quando se recorda que o Banco Central recorre à ‘Faria Lima’ para coletar previsões de inflação que norteiam a fixação da Selic






