A duas semanas de ser formalizado pré-candidato do PL à Presidência, Flávio acumula desgastes, registra alta rejeição nas pesquisas, não tem o apoio da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, não definiu a vice e pode ficar sem partidos do Centrão na aliança, como Republicanos, União Brasil e Progressistas A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de bloquear os bens do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, gerou um novo revés à pré-campanha do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e preocupa aliados do postulante. A duas semanas de ser formalizado pré-candidato do PL à Presidência, Flávio acumula desgastes, registra alta rejeição nas pesquisas, não tem o apoio da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), não definiu a vice e pode ficar sem partidos do Centrão na aliança, como Republicanos, União Brasil e Progressistas. A pré-campanha do PL completa dois meses de sucessivas crises, desde a divulgação do pedido de dinheiro de Flávio ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master. Em áudio divulgado pelo portal Intercept Brasil em maio, o presidenciável cobrou o pagamento de recursos para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em um caso sob investigação da Polícia Federal. Na sexta-feira (10), Flávio Dino determinou o bloqueio de R$ 119 milhões em bens de Valdemar Costa Neto e ordenou a suspensão de emendas que teriam sido indicadas de forma irregular, com a influência do presidente do PL. Na decisão, o ministro do Supremo disse que há indícios de que o presidente do PL teria influenciado a distribuição de recursos públicos por meio das emendas. Costa Neto negou irregularidades e disse, por meio de nota, ser natural que o presidente de um partido “influencie politicamente sua bancada”. Com a decisão do ministro do STF, o presidente do PL tornou-se alvo de suspeitas de irregularidades, desgastando o partido às vésperas da convenção partidária, no dia 25, que definirá o candidato à Presidência do partido. — Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil Aliados de Flávio e lideranças do PL avaliam que, após a decisão do ministro do STF, Costa Neto terá dificuldades até a convenção partidária de dedicar-se à costura de alianças e à missão de reconciliar o presidenciável e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) – que não se falam desde dezembro, segundo Michelle. Na quarta-feira, o presidente nacional do PL disse que se o campo conservador continuar desunido, o presidenciável poderá perder a disputa eleitoral, e afirmou que atuaria para buscar a reaproximação entre Flávio e Michelle. A ex-primeira-dama indicou que está traçando seu próprio caminho na política e anunciou a criação do grupo “Imparável MB”, depois que gravou um vídeo expondo as divergências com Flávio e deixou o comando do PL Mulher. Na gravação, divulgada nas redes sociais em 24 de junho, Michelle disse ter sido maltratada e humilhada por seu enteado, e afirmou que não está participando da pré-campanha de Flávio. Um dos motivos do rompimento com o senador teria sido a montagem do palanque do Ceará e o acordo do PL com o ex-governador e pré-candidato ao governo cearense Ciro Gomes (PSDB) no Estado. Com a pré-campanha marcada por sucessivas crises, Flávio enfrenta dificuldades para montar sua chapa e ainda não conseguiu garantir o apoio de partidos como União Brasil, PP e Republicanos – que podem garantir mais recursos, mais tempo de televisão na propaganda eleitoral e capilaridade para a campanha nos Estados. O presidenciável ainda não definiu quem ficará na vice e tem sondado a ex-presidente da Caixa Daniella Marques (Republicanos). Há resistências, no entanto, ao nome de Daniella até mesmo dentro do PL e do Republicanos. Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro têm feito críticas públicas à pré-campanha de Flávio e cobram mudanças. O advogado Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo Bolsonaro, publicou nas redes sociais um recado ao presidente nacional do PL, pedindo uma nova alteração da comunicação e da coordenação política da pré-campanha. “Time que não performa tem que mexer”, afirmou. “ A [pré] campanha de Flávio não tem agenda, não tem comunicação, não tem organização, não tem planejamento.” O coordenador-geral da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), também tem sido criticado por bolsonaristas, como o influenciador Kim Paim, que comparou o senador ao técnico da seleção brasileira de futebol, Carlo Ancelotti, depois da derrota do Brasil na Copa. No fim de maio, depois da divulgação do pedido de dinheiro de Flávio a Vorcaro, o presidenciável trocou o marqueteiro e a equipe de comunicação, em meio a críticas de aliados pela demora e pela falta de estratégia para responder sobre o caso. O senador foi para os Estados Unidos para tentar mudar a pauta e reuniu-se com o presidente americano Donald Trump, em encontro com a presença do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. No entanto, pouco depois da viagem, Flávio desgastou-se novamente após o anúncio de um novo tarifaço pelo presidente dos Estados Unidos. Alvo de críticas do governo federal por atuar contra os interesses do país, Flávio viajou novamente aos Estados Unidos no início do mês e tentou argumentar ao governo Trump que a sobretaxa neste momento ajudaria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições. No ano passado, no entanto, quando Trump anunciou o primeiro tarifaço contra o Brasil, Flávio e Eduardo apoiaram a medida para tentar garantir uma anistia a Bolsonaro e condicionaram o fim da sobretaxa à anistia. Apesar dos sucessivos desgastes, Flávio polariza a disputa presidencial com o presidente Lula, mas mantém-se em segundo lugar, nas simulações dos dois turnos. No levantamento do Datafolha divulgado em 20 de junho, Lula aparece com 41% das intenções de voto e Flávio, com 31% no primeiro turno. Em um eventual segundo turno, o presidente seria reeleito com 47% a 43% do senador. Flávio é rejeitado por 48% e Lula, por 46%. (Colaborou Lilian Venturini)