Imaginar pessoas reunidas ao redor de uma mesa, com livros abertos, páginas marcadas e uma conversa que não termina em uma tela de celular pode parecer, nos dias de hoje, uma cena improvável. Em uma época em que notificações disputam a atenção a todo instante e muitas relações passam pela mediação de um aparelho, há quem escolha caminhar na contramão: reservar algumas horas para desconectar, ler e descobrir o que outras pessoas têm a dizer sobre aquelas mesmas páginas. Afinal, quem nunca terminou um livro e sentiu vontade de conversar sobre a história ou saber se alguém enxergou aquela narrativa de uma maneira completamente diferente? É nesse desejo de troca que os clubes de leitura ganham espaço. Livrarias, cafés, restaurantes e iniciativas independentes passaram a reunir leitores de diferentes idades e perfis em torno de um objetivo comum: compartilhar histórias, conhecer novos autores e ampliar os sentidos de uma mesma obra. Na Janela Livraria, os clubes de leitura nasceram junto com a proposta do espaço de transformar os livros em ponto de encontro. De acordo com a sócia-fundadora, Martha Ribas, a ideia sempre foi aproximar leitores por meio da conversa. — A Janela nasceu com a ideia de promover encontros em torno do livro. Mais do que uma livraria, somos um movimento para incentivar a leitura e essa troca em torno dos livros e dos debates contemporâneos — explica. A pandemia acabou impulsionando esse movimento. Os encontros migraram para o ambiente virtual e, com a retomada das atividades presenciais, revelaram um desejo crescente pelo convívio. — As pessoas em casa tiveram mais tempo para ler e também se comunicavam muito virtualmente, fazendo esses encontros cada um em suas casas. Quando voltamos ao presencial, elas queriam muito se encontrar pessoalmente. Então focamos nesse desenho presencial, que sempre foi nosso objetivo, fazer as pessoas se encontrarem na vida real, olho no olho — completa Martha. Encontros & Leitura. Bianca Ramoneda (ao fundo), escritora e roteirista, é mediadora há dois anos do evento na Janela Livraria, na unidade da Gávea — Foto: Divulgação/Janela Livraria Neste segundo semestre, a Janela reúne uma programação com oito clubes distribuídos entre as unidades da Gávea, do Jardim Botânico e de Laranjeiras. Os encontros têm formatos variados, passando por literatura africana, latino-americana, fotografia, escrita, psicanálise e clássicos da literatura brasileira. As inscrições custam R$ 120 mensais ou R$ 300 trimestrais. A exceção é o “Divã na Janela”, com valor de R$ 150 mensal ou R$ 400 trimestral. Os participantes recebem ainda 20% de desconto na compra dos livros indicados. Estudantes dos ensinos médio e superior e quem participa de dois ou mais clubes também têm desconto de 20% na inscrição. Entre a filosofia e a ancestralidade Entre as diferentes propostas da Janela está o Clube de Leitura Orixás e Literaturas Africanas, realizado em Laranjeiras. Mediado pelo professor e pesquisador de pós-doutorado em Filosofia da UFRJ Rogério Ataíde e pelo professor da PUC Alexandre Santos, especialista em literaturas africanas, o grupo promove um diálogo entre filosofia, ancestralidade e literatura. Ataíde, que também é babalaô, conduz a reflexão filosófica a partir dos orixás, enquanto Santos aproxima essas discussões das obras de autores africanos. — Eu pego essas divindades como mecanismos de pensamento, desenvolvo conceitualmente algumas questões, e aí vem o Alexandre, que conhece demais das literaturas africanas, trazendo autores diferentes, que criam condições de diálogo sobre as temáticas que levanto — conta Ataíde. Para o pesquisador, a leitura compartilhada representa uma pausa necessária em um cotidiano marcado pela velocidade. — A gente vive um momento da história da humanidade em que tudo é muito urgente, tudo é muito rápido. Os clubes de leitura podem cumprir um papel muito importante, que é parar sem pressa, olhar para as letras de um livro, segurar um livro na mão, sentir o peso, o cheiro do papel, criar condições de intimidade com essa leitura — afirma. Sarau Epoché. Idealizado pelo poeta e jornalista Igor Calazans no Capitu Café — Foto: Divulgação/Capitú Café Além de incentivar a leitura, Ataíde acredita que o grupo contribui para ampliar o conhecimento sobre a cultura africana e combater a intolerância religiosa. — Tenho a preocupação, como pesquisador e como sacerdote, de falar dessas divindades, da complexidade e da sofisticação que elas sugerem. Um trabalho como esse também contribui para combater a intolerância religiosa e a violência que ela produz — diz. Além desse grupo, a Janela oferece clubes dedicados às literaturas latino-americana e brasileira, fotografia, escrita, psicanálise e à leitura compartilhada de “Grande sertão: veredas”. Segundo Martha Ribas, a diversidade das propostas atrai leitores de perfis variados. — A graça é juntar gente diferente. Tem gente que lê muito, tem quem lê pouco, tem gente que vai para poder ler mais. A ideia dos encontros é convidar os leitores a entrar nesse mundo e realizar trocas — afirma Martha. Na unidade da Gávea, um dos eventos é o Encontros & Leituras, mediado pela escritora, roteirista e apresentadora Bianca Ramoneda. Criado durante a pandemia, inicialmente em formato virtual, o clube ganhou uma versão presencial com a abertura da unidade e completou dois anos de atividades. Para Bianca, a principal diferença entre ler sozinho e participar de um grupo está justamente na possibilidade de ampliar a percepção sobre uma obra. — É a possibilidade de ter a nossa leitura iluminada por um outro ponto de vista. Não existe uma verdade, mas múltiplas percepções e ambiguidades. A gente aprende junta a ouvir e debater com respeito. É um exercício de democracia que vai muito além de gostar ou não de um livro — afirma Bianca. A mediadora procura criar encontros em que os participantes possam compartilhar impressões sem a obrigação de demonstrar conhecimento técnico ou fazer análises acadêmicas. — Busco despertar nos participantes que eles se sintam tocados e motivados para trocar impressões e sensibilidades, sem ter que “falar bonito”, sem ter que performar. Não estamos ali em uma rede social, tendo que aparentar nada. Livros são vozes de pessoas como nós. A troca verdadeira só existe num espaço de afeto e confiança — explica. Livraria Alento. Três clubes para adultos e um para crianças — Foto: Divulgação/Livraria Alento O movimento também ganhou força em outros espaços da cidade. Na Livraria Alento, no Flamengo, quatro clubes gratuitos reúnem leitores de diferentes idades: o Insubmissas, o Clube do Livro Pequeno, o Giro de Leitura e o infantil Alentinho. A participação é aberta ao público, com contribuição voluntária para ajudar na manutenção das atividades. O primeiro grupo criado foi o Insubmissas. Inicialmente voltado à leitura de autoras publicadas por editoras independentes, o clube ampliou a proposta ao longo do tempo para discutir obras que abordam a ruptura com padrões sociais. Segundo Isabella Benevides, sócia da livraria, a mudança acompanhou os interesses dos próprios participantes. — A gente manteve o nome Insubmissas porque ele tem tudo a ver com a proposta do clube, que é ler livros que falam sobre insubmissão a padrões sociais. Agora também lemos autores homens e livros de grandes editoras, além das independentes — explica Isabella. A diversidade do público é um dos aspectos que mais chamam a atenção da livreira. Pessoas de diferentes idades chegam aos encontros com repertórios distintos. — Às vezes você tem um ponto de vista e o pessoal mostra outro que você não tinha pensado. É muito bom porque você vê a história com outro olhar quando encontra um grupo e conversa — afirma. Para Isabella, os encontros também funcionam como espaços de acolhimento, já que as histórias despertam conversas que ultrapassam a literatura. — Falamos sobre a história, mas também acabamos falando um pouco sobre nossas experiências, nossas opiniões. Compartilhar isso é muito bom. Os clubes acabam sendo também um espaço de conforto — diz. A Alento abriga ainda o Clube do Livro Pequeno, cuja curadoria é feita pelos próprios participantes; o Giro de Leitura, dedicado a autoras brasileiras contemporâneas; e o Alentinho, voltado a crianças de 0 a 7 anos, com mediação de leitura e atividades lúdicas. — É um projeto que criamos em conjunto com a Aurora da Leitura. Tem uma curadoria cuidadosa para trazer livros que agreguem às crianças. Elas participam, têm a mediação da leitura e também brincadeiras relacionadas ao tema — conta Isabella. A experiência de ler em grupo também transforma a relação dos próprios participantes com os livros. Mediadora do Clube Insubmissas, Litza Godoy começou como frequentadora dos encontros e, depois de alguns anos, passou a conduzir as discussões ao lado de Cláudia Lamego. Para ela, a leitura compartilhada amplia os sentidos de uma obra. — O livro cresce quando é lido junto, fica muito mais cheio de camadas de interpretação. Às vezes eu não gosto de um livro e, depois do debate, termino gostando mais pelas coisas que as pessoas trazem. O clube também aproxima leitores de obras que talvez eles não escolhessem sozinhos — afirma Litza. Entre os participantes, os clubes também podem transformar a relação com a leitura e com o próprio cotidiano. O fisioterapeuta Leonardo Vinote conta que o grupo ampliou sua relação com os livros e com pessoas de diferentes trajetórias. — Estou me sentindo mais inteligente com as leituras, mais aberto a conversar com pessoas diferentes e a enxergar outras formas de ver a vida — relata. Rodrigo Condessa. Morador da Zona Sul criou clube da leitura on-line para recuperar o hábito de ler — Foto: Arquivo pessoal Para Elaine Bittencourt, a literatura ganhou um significado especial durante o luto pela perda da mãe. No Insubmissas, ela encontrou uma forma de transformar uma experiência solitária em troca coletiva. — Os livros me ajudaram a atravessar um dos momentos mais difíceis da minha vida. O clube ampliou meu repertório, trouxe novos olhares e mostrou que um livro não termina na última página, ele continua nas conversas e nos encontros que provoca — conta. Espaços de reflexão e convivência No Capitu Café, no Cosme Velho, a literatura também virou motivo para reunir pessoas. O espaço promove encontros gratuitos com projetos como Tragos Y Ideas; Conversa com o Eleitor; Dia do Machado, com o professor Oswaldo Martins; Prosa com Poetas, com Georgia Annes; Projeto de Literatura, com Maria Eugenia; Terças Literárias, com Isis Proença; Projeto Mano a Mano, com Mano Melo e Cristina Bethencourt; e o Sarau Epoché, com Igor Calanzans. — Esse é um espaço que une cultura e gastronomia. É o lugar onde Machado de Assis morou por 25 anos. Os encontros foram surgindo gradualmente com lançamentos de livros e a procura por parte de escritores que queriam fazer encontros literários aqui. Hoje, temos dez encontros literários, semanais ou mensais — diz Victor Ferreira, gerente de comunicação. A proposta é manter a literatura como centro das conversas. A participação é gratuita, sem taxa de inscrição. Outra iniciativa que une livros e convivência é o Entre Tragos e Páginas, novo clube de leitura do coletivo Tragos y Ideas. A estreia, marcada para o próximo dia 26, teve as vagas esgotadas na pré-venda e precisou ser transferida para a Vinoteca do Visconde, em Botafogo. Criado por Shantell Da Silva, o coletivo busca tirar as pessoas das telas e promover encontros sobre cultura, comportamento e temas contemporâneos. No clube, o livro funciona como ponto de partida para conversas sobre questões que atravessam a vida dos participantes. O primeiro encontro terá como tema “Tudo sobre o amor”, de Bell Hooks, com mediação de Jaqueline Souza, bebida de boas-vindas e momentos de compartilhamento de trechos e debates. O ingresso custa R$ 40, sem incluir o livro. Para Shantell, o diferencial está em transformar a leitura em espaço de troca e reflexão. — Mais do que um clube do livro, conectamos o que está nas páginas com o que vivemos fora delas, criando um espaço de troca genuína, reflexão e pertencimento. Esgotar as vagas antes da abertura geral mostrou que essa ideia faz sentido — afirma. Tragos Y Ideas fará o seu primeiro evento no Rio — Foto: Divulgação A busca por criar espaços de convivência também aparece no clube idealizado por Rodrigo Condessa. Morador da Zona Sul, engenheiro de formação e criador de conteúdo nas redes sociais, ele formou o grupo a partir de uma necessidade pessoal: recuperar o hábito da leitura em meio à rotina dividida entre internet, trabalho e a chegada do filho. A iniciativa reuniu pessoas que também queriam voltar a ler ou simplesmente conversar sobre livros. O projeto já passou por três turmas e hoje reúne cerca de 70 pessoas em um grupo de WhatsApp. Os encontros acontecem, em média, a cada três semanas, com debates de até duas horas, seguindo o ritmo de leitura definido pela própria turma. A proposta inicial de Condessa era abordar temas ligados à masculinidade e ao feminismo, mas os participantes passaram a escolher obras variadas, como “A cabeça do santo”, de Socorro Acioli; o já citado “Tudo sobre o amor”; e “Torto arado”, de Itamar Vieira Júnior. — Tem muita gente que não conseguia ler e está conseguindo ler agora. Tem pessoas passando por problemas pessoais, e os encontros ajudam também — afirma. Na terça-feira, o Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, recebe uma edição especial do Clube da Leitura, coletivo promovido por amantes da escrita e da leitura de narrativas curtas. O encontro, com entrada franca, marca a retomada da programação presencial itinerante do grupo, que existe desde 2007 e nasceu no sebo e livraria Baratos da Ribeiro, em Copacabana. Leitura une crianças em oficinas no Morro Azul Livros, desenhos e brincadeiras com as palavras se transformam em ferramentas para estimular a criatividade, a imaginação e o pensamento crítico de crianças do Morro Azul, no Flamengo. Essa é a proposta da Roda de Leitura, iniciativa promovida pela ONG carioca Instituto de Medicina e Cidadania (IMC), em parceria com o Sesi/Firjan, que reúne mensalmente participantes de 5 a 13 anos em oficinas gratuitas voltadas ao universo da literatura. Os encontros têm duração de uma hora e meia e combinam leitura de textos literários com atividades de escrita, desenho e criação coletiva. A proposta é incentivar a expressão, a autonomia, a empatia e a reflexão por meio das histórias. Desde o início do projeto, em julho de 2025, já foram realizados seis encontros, que abordaram temas como sonhos, imaginação, neologismos, rimas, meio ambiente, reciclagem, respeito às diferenças e a importância de saber perguntar. A próxima oficina está marcada para 4 de agosto. Coordenadora do projeto, a mestre em Literatura Inglesa e doutora em Linguística Aplicada Sonia Zyngier explica que a iniciativa nasceu da vontade de ampliar as ações de cidadania desenvolvidas pelo instituto. — Achei que, além do atendimento médico e psicológico, a parte de cidadania poderia ser desenvolvida junto às crianças do Morro Azul. Há um ano, demos início às Rodinhas de Leitura. A leitura é uma atividade que vai muito além da compreensão de uma história. Pode ser transformada em um momento em que a criança interpreta e busca compreender o mundo e o seu entorno por meio de perguntas, da expressão de opinião e da emoção — diz. As oficinas são realizadas uma vez por mês, das 14h30 às 16h, na Indústria do Conhecimento do Sesi/Firjan, no Morro Azul. Este mês, o IMC completa dez anos de atuação. Ao longo desse período, a ONG contabiliza cerca de 30 mil atendimentos voluntários nas áreas de medicina, psicologia, nutrição e fisioterapia para moradores do Morro Azul, Parque da Cidade e Tavares Bastos. A instituição também mantém uma parceria com a Escola Dom Cipriano Chagas, em Botafogo, onde oferece atendimento médico gratuito, e inaugurou uma biblioteca na Associação de Moradores do Morro Azul. Quem tiver interesse em participar do projeto pode acessar a página do IMC (medicinaecidadania.org.br) e fazer um cadastro ou ligar para os telefones 96447-1849 e 98075-7950. O instituto fica localizado na Rua Conde de Lages 44, na Glória.
Longe das telas: clubes de leitura conquistam cariocas e transformam livros em encontros
De livrarias a cafés, grupos reúnem leitores de diferentes idades para compartilhar histórias, ideias e novas formas de olhar para os livros







