Uma das características dos mercados de commodities é o comportamento de “montanha-russa” que se repete de forma ciclotímica e imprevisível. Nos últimos seis anos vivemos um momento de enorme euforia de preços e margens (2021/23), seguido de um momento de profunda depressão (2025/27). Não é novidade: sempre foi assim, sempre será assim. O que muda é a capacidade de cada empresa de administrar os riscos que vêm com essa volatilidade.PUBLICIDADEHá riscos operacionais (de produção, clima, preços e logística) e macroeconômicos (ligados a políticas públicas como inflação, juros e câmbio), parcialmente mitigáveis pelo produtor. E há riscos de gestão (de estratégia, governança e sucessão), estes sim totalmente na mão de cada família empresária, que são os principais agentes econômicos do setor produtivo.Em seis anos, passamos do “alinhamento perfeito dos astros” (custos estáveis, margens altas, juros baixos, ativos se valorizando) para a “tempestade perfeita” (preços baixos, custos altos, margens negativas e juros nas alturas).Cenário de "montanha-russa" é uma característica dos mercados de commodities Foto: Tiago Queiroz/EstadãoHá muito a discutir sobre essa trajetória, mas o foco aqui é outro: mostrar como a crise atual deveria virar uma oportunidade de aprendizado para as famílias do agro.Comecemos pelas que “pisaram no acelerador” na fase de ouro. Para elas, a crise trouxe a necessidade de desalavancagem, liquidação de ativos, relacionamento difícil com credores, pedidos de recuperação judicial e a necessidade de reestruturação interna, com cortes e controles mais rigorosos. O aprendizado é claro: como evitar a repetição desse ciclo.PublicidadeJá as famílias mais cautelosas, que acumularam reservas, vivem o momento oposto: o de aproveitar as oportunidades que toda crise cria - identificar ativos baratos, negociar e estruturar aquisições, desenvolver relação com financiadores e ampliar a capacidade de gestão, inclusive implementando governança. Aqui, o aprendizado é como crescer na crise.Em ambos os casos, o pano de fundo é o mesmo: a maioria das empresas familiares do agro ainda opera de maneira “intuitiva”, como pessoa física e com um déficit de profissionalismo justamente quando a geração que abriu as fronteiras agrícolas nas últimas três décadas começa a passar o bastão. Sem planejamento, controle e compliance, o negócio fica refém da intuição do fundador - sustentável até certo ponto, mas não eterna.Leia tambémO Brasil no jogo global: ter commodities é poder, mas o País ainda não percebeu issoChina transforma segurança alimentar em questão de Estado - e o Brasil sentirá os efeitosA boa notícia é que a crise obriga famílias a lidar com os problemas e oportunidades e a se preparar para o futuro a ser conduzido pela nova geração, o que inclui a adoção de métodos de gestão mais profissionais que, na bonança, pareciam dispensáveis.O resultado provável é um agro brasileiro mais concentrado, porém mais eficiente; um player global ainda mais forte; e, sobretudo, uma nova geração de gestores mais preparada, resiliente e lúcida para a próxima volta da montanha-russa, porque ela virá.*Agradeço ao Fernando Jank, conselheiro profissional de várias empresas familiares do agro, pelas contribuições a este artigo.Publicidade