Crise política por que passa a Colômbia tem muitos paralelos com a que o Brasil viveu em 2022 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente da Colômbia, Gustavo Petro — Foto: ANDREA ARIZA / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 09/07/2026 - 19:00 Crise política na Colômbia: desconfiança eleitoral abala democracia A crise política na Colômbia, semelhante à do Brasil em 2022, revela desconfiança populista minando a democracia. Gustavo Petro, presidente em exercício, questionou a legitimidade eleitoral, ecoando táticas de Bolsonaro ao desacreditar o sistema sem provas. Tais ações culminaram em tensões pós-eleitorais, com manifestações e resistência, destacando a fragilidade institucional na América Latina. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A crise política por que passa a Colômbia tem muitos paralelos com a que o Brasil viveu em 2022 — ainda que os polos ideológicos estejam trocados. Tanto lá como cá, a desconfiança populista torna a democracia da região mais frágil. Na última terça-feira, o presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, suspendeu o processo de transição e acusou o presidente em exercício, Gustavo Petro, de deslegitimar o resultado das eleições e tentar um golpe de Estado. A crise explodiu depois de Espriella derrotar o candidato de esquerda Iván Cepeda por uma margem apertada de votos — menos de 1%. Cepeda é apoiado pelo incumbente Petro. Os paralelos entre Colômbia e Brasil chamam a atenção. Assim como Bolsonaro, Petro começou a desacreditar o sistema eleitoral muito antes das eleições. Ao longo do ano de 2025, atacou a empresa Thomas Greg & Sons, responsável pela logística eleitoral, alegando, sem provas, que ela preparava “uma fraude monumental”. Depois, alegou também que formulários de atas de apuração em branco “levam à fraude eleitoral”. Assim como Bolsonaro, Petro não apontou um problema específico, mas sustentou uma desconfiança difusa que foi mudando de alvo à medida que cada denúncia se mostrava frágil e era desmentida. Primeiro a desconfiança recaiu sobre a empresa, depois sobre os formulários em branco, depois sobre o código-fonte, sobre o censo eleitoral e sobre as mesas eleitorais com votos “atípicos”. Bolsonaro também criticou a integridade do código-fonte, a “sala secreta” do TSE, urnas tidas como “viciadas” e saltos de votos nas contagens. É como se, nos dois casos, a certeza da suspeita precedesse as evidências — e os casos fossem surgindo para comprovar o que já se sabia desde sempre. A exemplo de Bolsonaro, Cepeda demorou para reconhecer o resultado das eleições e só reconheceu com ressalvas. Bolsonaro demorou dois dias e fez um reconhecimento indireto, autorizando Ciro Nogueira a dar início ao processo de transição. Cepeda demorou três dias para o reconhecimento, alegando ter havido interferência estrangeira, compra de votos e manipulação por inteligência artificial. Da mesma forma que Bolsonaro, Petro não pretende passar a faixa a Espriella. Antecipou seu discurso de despedida como chefe de Estado da posse, em agosto, para uma manifestação de rua em 20 de julho. A imprensa colombiana especula que a entrega da faixa será feita pelo vice-presidente. Em 2022, Bolsonaro viajou para os Estados Unidos para, entre outras coisas, não passar a faixa presidencial a Lula. Depois de ver seu candidato derrotado, Petro convocou manifestações populares maciças, lidas pelos opositores como tentativa de golpe de Estado, ao estilo do que Trump fez em 6 de janeiro de 2021 e Bolsonaro em 8 de janeiro de 2023. Petro declarou que “Abelardo não venceu as eleições”, que “o presidente [eleito] é o filósofo Iván Cepeda” e que “o processo de transferência de poder continua perante o povo”. Há temor de que apoiadores de Petro aproveitem a manifestação do dia 20 de julho para desafiar as instituições. Espriella pediu que as Forças Armadas “cumpram seu juramento, protejam a Constituição e a democracia e não obedeçam a nenhuma ordem de Petro em contrário”. Ao povo colombiano, pediu “resistência”. Não precisamos escolher qual o maior vilão, se o esquerdista Petro na Colômbia ou o direitista Bolsonaro no Brasil. Não avançamos um milímetro na superação da crise política argumentando que o campo adversário é mais antidemocrático que o nosso. A única pergunta que importa é a seguinte: o que leva tantas pessoas, em tantos lugares diferentes, a deixar de confiar nas instituições que deveriam representá-las? Sem essa resposta, seguiremos combatendo sintomas acreditando defender a democracia.