Ao contestar resultado das urnas, colombiano mostra que agressão à democracia não está restrita à direita 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O atual presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e o presidente eleito, Abelardo de la Espriella — Foto: LUIS ACOSTA / AFP O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, cancelou no início desta semana o processo de transição de poder conduzido com a equipe do presidente Gustavo Petro. Mesmo depois que a autoridade eleitoral oficializou a vitória por margem apertada do ultradireitista Espriella sobre o esquerdista Iván Cepeda, candidato do governo, Petro continuou a contestar o resultado (o próprio Cepeda reconheceu a derrota). A semelhança com o que fizeram Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no Brasil é evidente. É uma prova de que a veia antidemocrática não está restrita aos populistas de direita. Sem apresentar um única prova, Petro afirma que houve fraude, nega-se a passar a faixa presidencial no dia da posse em agosto e marcou uma manifestação de rua para o dia 20 de julho, que vem sendo descrita como um replay do 6 de Janeiro de Trump ou do 8 de Janeiro de Bolsonaro. Não surpreende que Espriella acuse Petro de tramar um golpe de Estado e peça às Forças Armadas que protejam a Constituição e a democracia. Em qualquer circunstância, ataques ao sistema eleitoral são um retrocesso. Ao erodirem a confiança no voto, golpeiam a democracia em seu coração. Isso vale para os Estados Unidos, vale para o Brasil e, naturalmente, vale também para a Colômbia. No caso colombiano, há um agravante. Por décadas, o país enfrentou grupos armados dispostos a introduzir uma ditadura de esquerda, além de forças paramilitares de direita atuando à margem da lei. Entre 1985 e 2018, quase meio milhão de colombianos morreram em conflitos armados, segundo a Comissão da Verdade. Ao redor de 750 mil foram forçados a abandonar seus lares. Em três décadas, os sequestros chegaram a 50 mil. A sociedade colombiana traz cicatrizes dolorosas da guerra civil recente. Foi preciso uma longa reconciliação entre os vários grupos para conter a violência política, convencer guerrilheiros e paramilitares a abandonar as armas e a participar da disputa pelo poder nas urnas. Somente em novembro de 2016, o Parlamento aprovou um acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, o maior dos grupos guerrilheiros. O próprio Petro surgiu como exemplo da transformação no país. Ainda adolescente, entrou para a guerrilha, no Movimento 19 de Abril (M-19). Preso na década de 1980, ajudou a promover negociações que levaram ao desarmamento do grupo. A transição para a política foi coroada com a vitória na eleição de 2022. Agora, depois de quatro anos no poder, o primeiro presidente de esquerda da História da Colômbia comete o disparate de atacar, sem provas, o mesmo sistema eleitoral que o elegeu. Na quinta-feira, Petro afirmou em telefonema ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter “compromisso com a democracia e com a transição pacífica”. Para provar que não são palavras vazias, ele deveria reconhecer de forma inequívoca o desejo popular traduzido nas urnas, cancelar a manifestação de rua e começar a preparar seu campo político para as eleições de 2030. É assim que a disputa deve funcionar numa democracia.