Dois estudos publicados pela pasta tentam contrapor críticas crescentes do mercado de que medidas adotadas desde meados de 2025 geram excesso de demanda, pressionam os preços e pioram contas públicas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Fachada do prédio do Ministério do Planejamento e Orçamento e do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos — Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 09/07/2026 - 15:13 Crédito de Lula pode elevar PIB em R$ 110 bi sem inflação, diz estudo Medidas de crédito implementadas pelo governo Lula desde 2025 podem aumentar o PIB em R$ 110,9 bilhões sem elevar a inflação, segundo estudos do Ministério do Planejamento. As iniciativas, que incluem programas de habitação e crédito para setores específicos, têm um efeito multiplicador econômico e visam mitigar restrições do mercado de crédito, sem pressionar a inflação. Estudos destacam que choques externos, não as medidas, são os principais causadores das expectativas inflacionárias. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO , pacote de medidas de crédito que vem sendo implementado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva desde meados de 2025 tem o potencial de elevar o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em R$ 110,9 bilhões ao longo de sua execução. E, apesar do impulsionar o crescimento econômico, as iniciativas não gerariam pressão inflacionária por terem efeito diluído ao longo do tempo e focos bem definidos. As conclusões constam de dois estudos conduzidos pelo Ministério do Planejamento e Orçamento e publicados recentemente na página do órgão. A ideia, segundo o GLOBO apurou, foi fazer um contraponto às teses de setores do mercado financeiro de que o governo estaria com uma postura excessivamente expansionista, gastando fora do orçamento e pressionando não só o IPCA como as expectativas para o futuro, cada vez mais longe da meta de inflação de 3%. Ainda que feitos separadamente, os dois estudos são complementares na mensagem que a equipe econômica de Lula quer transmitir: as ações feitas recentemente passam todas pelo orçamento, ainda que tenham natureza creditícia (despesa financeira), enfrentam problemas e questões setoriais, não sobreaquecem a economia e nem pioram o cenário inflacionário. No primeiro estudo, para calcular o impacto no PIB, a pasta estima que a injeção de recursos de crédito tem um efeito multiplicador (cada real injetado, gera um valor adicional), que varia conforme o programa, mas na média é de 1,3 (cada R$ 1 injetado pelos programas, gera um PIB de R$ 1,3, como se fosse um bônus de 30% ao que foi gasto pelo governo). O material contempla os impactos econômicos das seguintes iniciativas: ampliação do Minha Casa Minha Vida, criação do Reforma Casa Brasil, programa de renegociação de frotas para caminhões, ônibus, taxistas e motoristas de aplicativos (MOVE Brasil), crédito para indústria 4.0 e crédito para bens de capital verdes. O volume mobilizado pelo conjunto de medidas é de até R$ 83,5 bilhões, de acordo com as dotações financeiras autorizadas para cada uma delas. Como resultado, o documento diz que as ações têm potencial de gerar 1,9 milhão de empregos diretos e indiretos, R$ 110,9 bilhões a mais no PIB e R$ 45,4 bilhões de arrecadação para os cofres públicos, caso haja execução integral dos recursos. As contas foram feitas como se fosse um impacto imediato, mas tanto o material como interlocutores ouvidos pelo GLOBO destacam que é preciso ter claro que a execução se dá em alguns casos em períodos superiores a um ano, diluindo os efeitos ao longo do tempo. E isso seria um dos principais motivos para que as medidas não impliquem em alta da inflação atual, além do fato de as ações serem consideradas tópicas e com pouca capacidade de mudar a equação de oferta e demanda geral na economia. O governo até reconhece que as medidas mitigam a restrição provocada pela política monetária no mercado de crédito, mas tratam isso como algo parcial e com o objetivo de evitar crises setoriais, com um efeito macroeconômico considerado marginal e incapaz de ensejar impacto inflacionário relevante. Aí que entra em cena o segundo estudo do Planejamento. Ao contestar a tese de que as medidas estariam por trás do salto nas expectativas inflacionárias, todas desancoradas (ou seja, acima da meta) segundo a pesquisa Focus, do BC, até 2029, a análise do Planejamento conclui que os principais vetores da inflação hoje são: os choques de oferta, como a disparada do petróleo devido ao conflito no Oriente Médio e a expectativa de um El Niño bastante forte neste ano. O texto detalha os vetores do avanço das expectativas desde março e salienta que o aumento das projeções inflacionárias coincidiu com a eclosão da guerra no Oriente Médio e de pressões específicas sobre os preços de alguns alimentos. De outro lado, o documento aponta que não haveria elementos concretos para associar a piora no cenário inflacionário às medidas de estímulo porque o cenário de PIB na pesquisa Focus não teria se alterado substancialmente após os anúncios. O crescimento maior previsto entre março e agora, na visão do Planejamento, está basicamente associado ao resultado acima do esperado no primeiro trimestre, que não indicaria pressão específica de demanda, até porque, mesmo com a revisão para cima, estaria crescendo abaixo do potencial. Para além da leitura dos eventos, o texto testa o argumento ao replicar a fórmula (modelo) que o BC usa para projetar a inflação. E buscou decompor a diferença nas previsões de inflação considerando apenas choques energéticos, cambiais, de commodities e climáticos, além da inércia (o efeito que faz uma inflação mais alta em um ano se propagar para os períodos seguintes). “O exercício mostrou que esses fatores bastam para explicar o avanço das expectativas de inflação no período. Esse resultado é coerente com as expectativas praticamente estáveis nesse intervalo para o crescimento do PIB e para a evolução da dívida pública e resultado primário como fração do PIB de 2026 a 2028.” O Planejamento ressalta ainda que a subvenção aos combustíveis conteve o repasse do choque energético à inflação, em vez de pressioná-la, embora o choque internacional tenha afetado outros preços. Além disso, a renegociação de dívidas das famílias inadimplentes pode inclusive ter impacto negativo na atividade no curto prazo, ao deslocar renda do consumo para o pagamento de dívidas. Apesar de terem sido divulgados sem muito alarde, os estudos surgem em um contexto de crescimento das avaliações críticas à política econômica de um grupo de analistas econômicos, em geral ligados ao mercado financeiro. Para esse grupo, o pacote de medidas, ao beneficiar com juros mais baratos parcelas específicas da população e estimular o crédito, tem viés eleitoral e representa um prejuízo ao esforço do Banco Central de colocar a inflação na meta de 3,0%. Além disso, os analistas avaliam que o uso de fundos públicos como fonte de financiamento seria uma forma de driblar o arcabouço fiscal, já que os programas não afetam nem o limite de gastos nem a meta de primário. Isso pioraria o cenário fiscal de longo prazo ao elevar o custo da dívida de maneira disfarçada e pressionar por uma taxa Selic mais alta. Como os recursos são usados como fonte para os financiamentos, eles retornam aos cofres do governo com o pagamento dos empréstimos. O custo, então, para a União é dado pela diferença entre a remuneração que o dinheiro teria se ficasse parado no caixa do Tesouro Nacional (taxa Selic) e os juros cobrados em cada contrato de crédito, que tende a ser menor do que a taxa básica. A análise do Ministério do Planejamento, porém, destaca que parte relevante dos recursos investidos no programa retornam aos cofres públicos por meio da tributação sobre a produção, produtos, renda e faturamento. “Dessa forma, o custo fiscal dessas medidas derivado do subsídio implícito presente nas diferentes linhas de crédito é atenuado”. Um integrante da pasta lembra ainda que parte dos recursos sequer pode ser usada para pagar dívida, como defendem alguns economistas, porque no fim das contas o BC acabaria tendo que “enxugar” a liquidez gerada nessa situação com operações compromissadas, o que eleva a dívida do mesmo jeito. Para o Planejamento, os textos reforçam a importância de se avaliar as políticas de crédito sob uma ótica macroeconômica ampliada, que considere não apenas seus custos imediatos, mas seus efeitos multiplicadores sobre a economia, além do impacto social e ambiental. “A compreensão desses mecanismos é essencial para qualificar o debate público e subsidiar a tomada de decisão acerca da alocação de recursos públicos em iniciativas que conciliem desenvolvimento econômico, justiça social e sustentabilidade”, defende o órgão.
Medidas de crédito podem elevar PIB em R$ 110 bi ao longo do tempo, sem pressão inflacionária, diz Planejamento
Dois estudos publicados pela pasta tentam contrapor críticas crescentes do mercado de que medidas adotadas desde meados de 2025 geram excesso de demanda, pressionam os preços e pioram contas públicas









