Eu não queria estar na pele dos técnicos que precisarão convencer os habitantes da Grande São Paulo de que é legal usar água de esgoto, tratada, frise-se, para irrigar as represas de onde tiramos o líquido que chega a nossas torneiras. Eles terão de enfrentar uma das mais poderosas emoções humanas, o nojo.

Encastelado num planalto, o conurbado paulistano fica perto demais das nascentes dos rios adjacentes, onde a vazão de água tende a ser baixa. Compensamos isso nos abastecendo em mananciais cada vez mais distantes. Não é uma solução que possa ser estendida indefinidamente.

Num futuro que se afigura cada vez mais quente, será necessário adotar medidas de racionalização, notadamente o reaproveitamento da água de esgoto. A barreira para fazê-lo não é técnica e sim cultural/emocional. A simples menção da possibilidade de que água que bebemos tenha um dia sido esgoto já nos embrulha o estômago. É a psicologia do nojo, tema que atrai pesquisadores desde Charles Darwin.

O nojo tem enorme valor adaptativo ao nos manter afastados de potenciais contaminantes que poderiam nos custar a vida, como fezes, vômitos, coisas apodrecidas e sujeira em geral. A reação de aversão é instintiva. É a primeira linha de defesa de nosso sistema imune.