Uso de termos ofensivos em diferentes jornais ao longo das décadas pode ajudar a entender casos de comportamento desrespeitoso nos estádios 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Capa do diário Olé publicada em 1996, antes de jogo entre Brasil e Nigéria — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 09/07/2026 - 12:20 Racismo na Imprensa Esportiva Argentina: Um Problema Antigo e Persistente O racismo na imprensa esportiva argentina tem raízes antigas e ainda ressoa nos dias atuais. Desde a década de 1920, com charges ofensivas contra a seleção brasileira, até manchetes recentes de jornais como Olé e Crônica, que usaram termos racistas para se referir a jogadores brasileiros, esses episódios refletem na cultura esportiva e atitudes de torcedores. Tais incidentes mostram a persistência de comportamentos desrespeitosos e racistas no futebol. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A seleção brasileira teve péssimo desempenho no 4º Campeonato Sul-Americano de Football, em 1920, no Chile. Desfalcada dos jogadores paulistanos devido a disputas entre ligas locais, o elenco foi eliminado com goleada de 6 a 0 pelo Uruguai em Viña del Mar. Antes de voltar ao Brasil, porém, o time foi a Buenos Aires para um amistoso contra a Argentina. A recepção não podia ter sido pior. Na data do jogo, dia 3 de outubro, o diário sensacionalista "La Critica" publicou uma charge mostrando um time de macacos com a camisa da seleção, sob o título "Macacos em Buenos Aires" e o subtítulo "Uma saudação aos ilustres hóspedes". No texto cheio de ofensas racistas, o jornal dizia que a partida deveria terminar antes do anoitecer para que os brasileiros pudessem ser vistos. Aquele exemplo de racismo na imprensa do país vizinho ocorreu há mais de século, mas se engana quem pensa que, desde então, não se viu mais algo tipo. Em 1996, a Argentina se classificou para a final dos Jogos de Olímpicos de Atlanta e ficou esperando o jogo entre Brasil e Nigéria, no dia seguinte, para saber qual equipe enfrentaria. Na manhã de 30 de julho daquele ano, o diário esportivo Olé, recém-lançado pelo poderoso grupo Clarín, saiu com a manchete: "Que venham os macacos." Ofensas racistas contra a seleção brasileira no jornal argentino 'La crítica' em 1920 — Foto: Reprodução No dia seguinte, depois de muita repercussão negativa, o Olé publicou um editorial de retratação. Nele, o jornalista Mariano Hamilton, diretor do jornal, alegou que "não houve a intenção de faltar com respeito". Segundo ele, a publicação apenas recorreu a um "jargão" do futebol na Argentina para se referir aos rivais sul-americanos. "Se o título ofendeu, pedimos desculpas aos cidadãos do país". Casos como esses mostram o racismo na cultura esportiva argentina e nos ajudam a entender por que torcedores do país recorrem a ofensas desse tipo na Copa do Mundo. Vídeos recentes mostram o streamer americano IShowSpeed sendo vítima de ofensas racistas de argentinos nos jogos contra as seleções de Cabo Verde e Egito. Antes da Copa, a Fifa multou a Federação Argentina devido a atitudes discriminatórias de torcedores de sua seleção durante um jogo das eliminatórias contra a Colômbia. Em 1920, a manchete do La Crítica gerou revolta entre jogadores brasileiros. Alguns foram à sede da publicação para protestar contra o jornalista Antonio Palacio e o ilustrador Diógenes Taborda. Vários atletas se negaram a participar do amistoso, mas a Confederação Brasileira de Desportos não entrou no boicote e colocou até dirigente em campo, no estádio Sportivo Barracas. O Brasil perdeu o jogo por 3 a 1. Há quem diga até que aquele foi o início da conhecida rivalidade entre as duas seleções. Torcedor argentino imita macaco para IShowSpeed em jogo na Copa — Foto: Reprodução/YouTube/ishowspeed Como se não bastasse o constrangimento em Buenos Aires, aquela charge ecoaria no Brasil de forma lamentável. Em 1921, o torneio que daria origem à Copa América aconteceria justamente na Argentina, no mesmo mês de outubro. Em setembro, o jornal "Correio da Manhã" publicou que a CBD, para evitar "animosidades" com os vizinhos, discutia internamente se deveria enviar jogadores negros ao torneio. O caso foi levado ao então presidente da República, Epitácio Pessoa, que decidiu que a seleção deveria excluir atletas com ascendência africana. Craques como Arthur Friendenreich, que fizera o gol do primeiro título da seleção, no Rio, em 1919, Neco e Luiz da Guia foram barrados por racismo puro. Num texto publicado na revista "Careta" em 1921, Lima Barreto, autor de "Triste fim de Policarpo Quaresma", fez alusão ao veto de Epitácio Pessoa: "Foi sua resolução de que gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores, lá fora", escreveu ele. "A providência, conquanto perspicazmente eugênica e científica, traz no seu bojo ofensa a uma fração muito importante, quase a metade, da população do Brasil”. Mais uma vez desfalcado, o Brasil perdeu duas de três partidas no torneio de 1921. Foi derrotado pelos donos de casa e pelo Uruguai. Só venceu o fraco Paraguai, mesmo assim sem apresentar um bom futebol. Um ano depois, porém, o torneio voltou a acontecer no Estádio das Laranjeiras, no Rio, agora sem a proibição racista na seleção brasileira, que, então, sagrou-se campeã pela segunda vez. Em 1996, depois da manchete do Olé, o então embaixador do Brasil na Argentina, Marcos Azambuja, enviou uma carta formal ao assessor de comunicação do presidente Carlos Menem, Raúl Delgado, protestando contra as "insinuações raciais e depreciativas do jornal". Já o vice-ministro de Relações Exteriores da Argentina na época, André Cisneiros, alegava que o governo "estava consternado". A controvérsia não acabou com o uso do termo racista para se referir aos brasileiros quando o assunto era futebol. Em 1997, o jornal "Crônica", de Buenos Aires, chamou nossos jogadores de "macacos" ao noticiar a vitória da Argentina sobre o Brasil, por 2 a 0, no Mundial Sub-20 que acontecia na Malásia. O termo apareceu em uma legenda logo na primeira página da publicação "A comemoração louca dos nossos juvenis, após derrotar a sub-20 dos macacos, que vinha fazendo dez gols por partida", dizia. Azambuja, mais ume vez, enviou uma carta ao jornal repudiando o uso do termo "macacos". A direção do Crônica, entretanto, reagiu alegando que a "expressão 'macacos' estava "institucionalizada como referência aos brasileiros". De acordo com o jornal, aquilo não era uma "provocação racista". Em 2016, o Olé voltou a ser criticado por uso de termo racista após a derrota de 4 a 2 do time argentino Huracán para o colombiano Atlético Nacional na Taça Libertadores. Ao criticar o trabalho do árbitro venezuelano José Argote, que é negro, o jornal esportivo estampou em sua capa no dia seguinte uma foto do juiz com a expressão "Mano negra" (mão negra), usada para se referir a roubo ou corrupção.