Os jornais brasileiros parecem mais afeitos a tratar cada momento da Copa como histórico do que os de outros países 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O atacante da Argentina, número 10 Lionel Messi, comemora após marcar o terceiro gol de sua equipe durante a partida de futebol do Grupo J da Copa do Mundo de 2026 entre Jordânia e Argentina, no Dallas Stadium, em Arlington, em 27 de junho de 2026 — Foto: Paul ELLIS / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 01/07/2026 - 22:32 Paixão Nacional: Tratamento Histórico da Copa no Brasil Os jornais brasileiros tendem a tratar momentos da Copa como históricos mais do que veículos de outros países. Enquanto no Brasil se usa frequentemente o termo "histórico", publicações estrangeiras optam por adjetivos como "dramático" ou "extraordinário". Essa diferença pode ser atribuída à paixão brasileira pelo futebol ou à cultura local. A percepção de eventos como históricos varia, mas cada feito significativo contribui para a história do futebol. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Eu já tinha me prometido seguir o conselho de Renato Teixeira e Almir Sater, que cantam “cada um de nós compõe a sua história” na linda “Tocando em frente”. Então, que cada um de vocês da imprensa decida o que tratar como tal. Maaaas... Numa Copa com tantos feitos históóóóricos!!!! indo para as manchetes, acabei cedendo à curiosidade e fazendo uma pergunta que considero pertinente à proposta desta coluna: será que essa expressão e suas variantes são tão populares no resto do mundo quanto aqui no Brasil? Nas pesquisas que fiz para as edições anteriores, não me lembrava de ter visto alusões a historic goal, victoire historique ou remontada histórica. Então, pedi ajuda à inteligência artificial para saber se tinha sido só falta de atenção ou se a impressão batia. Não consegui um levantamento numérico (inteligências artificiais são muito inteligentes quando querem te convencer a fazer o que você pediu do jeito que elas preferem), mas até que veio uma boa lista de exemplos. Dos ingleses, de quem sempre se espera comedimento, vitórias consideradas históricas por aqui foram descritas com uma série de verbos: no Guardian, survive (sobreviver), advance (avançar), edge (superar), stun (chocar), beat (bater), reach (alcançar); na BBC, além desses, qualify (classificar-se) e knock out (eliminar). Mesmo o The Athletic, que tem um pé na Inglaterra e outro nos Estados Unidos, onde é responsável pela cobertura esportiva do New York Times, embora use adjetivos, prefere outros: dramatic (dramático), remarkable (marcante), extradordinary (extraordinário), stunning (chocante). Os franceses do L’Équipe vão na mesma linha: héroïque (heroico), magnifique (magnífico), incroyable (inacreditável), épique (épico) – este último o mais próximo de histórico. Quem mais se aproxima do estilo brasileiro é o Marca, embora seja um pouco mais econômico. O primeiro gol de Cristiano Ronaldo na Copa foi um dos poucos momentos tratados como histórico pelo jornal espanhol, por ter transformado o português no primeiro jogador a marcar em seis edições. E ficou sozinho. O alemão Bild preferiu dizer que o atacante desencantou, já que passara em branco na primeira rodada. E até A Bola, de Portugal, usou outra expressão: Cristiano está de volta. Botando nossa inteligência humana para funcionar, eu e você podemos teorizar sobre a razão dessa diferença. Talvez sejamos simplesmente mais empolgados para falar de Copa do Mundo. Talvez tenhamos menos pudor para dizer que o futebol faz parte da nossa história ou até da História mesmo, com inicial maiúscula – há quem considere o Maracanazo o evento fundador da sociedade brasileira. Talvez seja apenas uma questão de falta de vocabulário mesmo. Ou minha opção preferida, que sempre deixo por último: talvez seja uma mistura de tudo isso e algo mais. Só queria deixar bem claro, antes de aplicar a sabedoria sertaneja e cumprir a vida com outros assuntos, que não acredito que um fato diminua por ser histórico. Messi e Mbappé passarem Klose e continuarem brigando para saber quem será o maior artilheiro de todas as Copas. Vozinha fechar o gol contra a Espanha e Cabo Verde se classificar. O gol inédito de cada seleção estreante nesta Copa. E até Budimir ter se tornado o primeiro jogador do Osasuna a marcar num Mundial. Cada um desses feitos entrará para uma história, maior ou menor – da competição, de um país, de um clube e, talvez ainda mais importante, da vida de seu autor. Todo mundo ama um dia, todo mundo chora, e na Copa do Mundo cada ser em si carrega não só o dom, mas no tom de ser capaz de ser feliz.
Redação do mundo: andar devagar ou ter pressa com a história?
Os jornais brasileiros parecem mais afeitos a tratar cada momento da Copa como histórico do que os de outros países






