A colunista Vicky Bloch escreve que evitar pensar no futuro pode resultar em mudanças pautadas apenas pelas circunstâncias Há tempos criticamos a visão de curto prazo que se consolidou nas organizações. Falamos das decisões importantes orientadas pela urgência, da dificuldade de inovar quando tudo precisa gerar resultado imediato e dos riscos para a sustentabilidade dos negócios que esse modelo provoca. Mas não notamos que essa mesma lógica passou a orientar também as decisões das pessoas no que diz respeito à própria vida e carreira. Vivemos respondendo às inúmeras demandas do presente e adiamos as decisões que dizem respeito ao futuro que queremos construir. Me lembrei de um caso que contei nesta coluna, em 2012. Um amigo, executivo de alto escalão de uma grande empresa, estava prestes a vivenciar uma grande mudança na organização que provavelmente lhe custaria o emprego. Ele me procurou com muitas dúvidas sobre o que fazer. Procuraria outro emprego? Partiria para uma atividade diferenciada como dar aulas e participar de conselhos de administração? Daria um tempo e tiraria um sabático? Mesmo experiente e calejado, ele definitivamente não havia se preparado para um novo ciclo. Esperou a situação sair do controle para só então pensar no próximo passo. Na época, reforcei a importância de dedicarmos recorrentemente uma parcela do nosso tempo para reflexão e autoconhecimento. Destaquei o valor de termos conversas frequentes sobre nossos planos com pessoas de confiança, seja um amigo, um coach, um mentor ou mesmo um familiar. Lembrei que quando deixamos para o último minuto a tomada de decisões importantes, procuramos uma solução específica para o problema mas não visamos a construção de um projeto de vida. Minhas recomendações continuam sendo as mesmas até hoje, embora em um novo contexto. Colunista ressalta que adiar a reflexão e as ações que nos ajudarão a conduzir os próximos ciclos não impede que eles existam, apenas reduz nossa liberdade de escolher como queremos atravessá-los — Foto: Pexels De 2012 para cá, o mundo do trabalho mudou significativamente, assim como mudou a nossa relação com o tempo. A sucessão de transformações e estímulos nos empurrou para um estado permanente de vigilância e que exige resposta imediata a tudo. Embora o discurso de uma busca por uma vida mais equilibrada e com propósito tenha ganhado força nessa última década, ainda não parece corresponder à realidade uma sociedade cada vez mais pressionada, adoecida e individualista. Triste dizer isso, mas vejo crescer uma lógica em que o sucesso parece se medir apenas por dinheiro e pela felicidade individual e imediata, como se o avanço da sociedade não dependesse das escolhas que fazemos hoje. Me perdoem pelo clichê, mas o futuro não pode esperar indefinidamente. É importante haver intencionalidade e mão na massa para que as nossas escolhas estejam em sintonia com aquilo que dará sentido à história que queremos construir. Talvez seja difícil para alguém muito jovem projetar a vida aos 60, 70 ou 80 anos. Mas, para quem já acumulou experiência, esse exercício é essencial. A maior parte das pessoas tem consciência de que quer viver uma vida melhor, mas na prática não age para que isso aconteça. Adiar a reflexão e as ações que nos ajudarão a conduzir os próximos ciclos não impede que eles existam, apenas reduz nossa liberdade de escolher como queremos atravessá-los. Não conseguimos prever o futuro, mas podemos evitar que ele seja apenas resultado das circunstâncias. Quando vivemos com mais intenção, ampliamos nossa capacidade de contribuir, de exercer nossa cidadania e de deixar um legado que ultrapassa os cargos que ocupamos e o sucesso individual que alcançamos. Vicky Bloch é fundadora da Vicky Bloch Associados, professora do IBGC, da FIA e membro de conselhos de administração e consultivos.
A hora de planejar o novo ciclo é agora
A colunista Vicky Bloch escreve que evitar pensar no futuro pode resultar em mudanças pautadas apenas pelas circunstâncias










