EUA vão emitir passaportes comemorativos com rosto e assinatura de TrumpIniciativa faz parte das celebrações dos 250 anos da independência do país; entre 25 mil e 30 mil dos novos passaportes estarão disponíveis para os requerentes. Crédito: Mariana Cury/ EstadãoOs Estados Unidos da América completam nesta semana 250 anos de independência. Declarada numa tarde de verão na Filadélfia em 1776, a independência ainda levaria sete anos e uma guerra sangrenta com o maior império da época para ser concluída. Após a vitória contra o Império Britânico, as 13 colônias da América do Norte criaram um experimento inédito na história da humanidade: a república constitucional e democrática.PUBLICIDADEAté então, repúblicas eram raras e frequentemente limitadas a cidades-estados de pequeno porte, como ocorreu na Itália no a partir da Idade Média. A América foi a primeira experiência do tipo em larga escala.Além disso, trouxe também a inédita figura do presidente - um governante com o mandato limitado pelo tempo e pelo voto, em vez de um monarca ungido pelo direito celestial e de sangue. Trump não tem candidato nas eleições brasileiras, só interessesPresidente dos EUA desrespeita o multilateralismo e é um trator com sua política do ‘America First’, mas países efetivamente não têm amigos, só interesses. Não. Crédito: EstadãoA estrutura jurídica da Constituição americana também foi vanguardista naquele fim de século 18. Ao criar a separação de poderes e o federalismo para gerir o nascente Estado, fundiu os ideais iluministas franceses com a ideia da Grã-Bretanha pós-Revolução Gloriosa, de que o governante, e consequentemente o Estado, devem estar subordinados ao Império da Lei.Nesse sentido, a experiência democrática americana é, de certa forma, filha do iluminismo francês, com seus ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, e da revolução industrial britânica, com a defesa da livre iniciativa e da inovação. Não à toa, a América é a mãe do que se convencionou chamar de democracia liberal. PublicidadeNenhum homem traduziu melhor os conceitos criados pela Revolução Americana que George Washington, o primeiro presidente do país. E hoje, o 47º, Donald Trump, leva ao limite o experimento que ajudou a moldar os rumos do planeta nas últimas 25 décadas.Trump discursa em Washington: presidente tem batido recordes de decretos assinados no segundo mandato Foto: AP Photo/Julia Demaree Nikhinson Entre a declaração da independência e a eleição de George Washington, passaram-se 13 anos. Ao longo da guerra, o general ganhou fama de bom estrategista e de um comandante com lealdade canina das tropas patriotas. Quando uma ameaça de motim por falta de pagamento tomou conta do Exército continental, Washington colocou a própria reputação em risco e, com seu capital pessoal, conseguiu manter a unidade das milícias pró-independência. Na primeira eleição, Washington foi praticamente aclamado como presidente. A trajetória do general, um dos líderes políticos mais influentes da colônia da Virgínia, foi desenhada em paralelo com figuras do Império Romano. Historiadores indicam que Cincinato, o líder militar romano que renunciou ao poder após defender Roma dos bárbaros no século V, foi uma espécie de inspiração para Washington devolver o poder ao Congresso Continental após a derrota britânica. PublicidadeGeorge Washington, Abraham Lincoln, John Kennedy e Donald Trump são alguns dos presidentes da história dos EUA Foto: NYTEsse fato, para os congressistas, credenciou o general a liderar o país como seu primeiro presidente, já que Washington não demonstrou, durante a guerra, a sede pelo poder. Ele ainda seria reeleito em 1785 e entregou o poder pacificamente para seu sucessor, John Adams, seu vice-presidente. É na comparação com a trajetória de Washington onde aparece as maiores dissonâncias entre Trump e a tradição política americana. Ruptura na tradiçãoEntre 1789 e 2020, apenas uma transição de poder nos EUA não ocorreu com o perdedor reconhecendo a derrota: quando Joe Biden substituiu Donald Trump. O ataque ao Capitólio deixou uma cicatriz visível no processo democrático americano. Quatro anos depois, no entanto, Trump retornou à Casa Branca, com uma agenda mais personalista que no seu primeiro mandato.PublicidadeDesde janeiro de 2025, Trump tem recorrido a um número recorde de decretos para impor sua agenda. Em um ano, foram 225, mais do que as 220 assinadas durante os quatro anos de seu primeiro mandato. Muitas delas foram contestadas judicialmente por exceder os poderes atribuídos ao Executivo. Ao mesmo tempo, a relação legislativa do presidente com o Congresso é tímida. Neste ano e meio de mandato, apenas um grande projeto foi aprovado: Chamado de ‘grande e bela lei’, o pacote prevê gastos e benefícios fiscais de US$ 3,4 trilhões nos próximos dez anos. Além do Congresso de maioria republicana pouco ativo, Trump conta com uma maioria conservadora na Suprema Corte que coloca raros obstáculos à sua agenda. O maior deles foi o veto recente às tarifas impostas indiscriminadamente a parceiros comerciais em abril do ano passado. Outros decretos polêmicos, como o que versa sobre a cidadania de estrangeiros nascidos nos EUA, ainda não foram julgados. Quando juízes federais decidem contra ele, o presidente os acusa de agirem sob motivação política. O mesmo discurso é usado contra outras entidades que, junto do judiciário, formam os pilares da democracia liberal cultivada desde 1776: a academia e a imprensa livre.Capitólio foi atacado em janeiro de 2021, após Joe Biden vencer a eleição para presidente dos EUA Foto: Rahmat Gul/AP PhotoEleições de meio de mandatoO próximo teste de estresse da democracia americana já tem data marcada. Em 3 de novembro, a Câmara e uma parte do Senado serão renovados. PublicidadeRecentemente, Trump tentou, também via decreto, restringir o direito a votos de minorias que geralmente votam na oposição democrata, mas a medida foi derrubada por um juiz federal. Nos EUA, a organização de eleições cabe aos Estados, e não ao executivo federal. A medida foi incluída pelos pais fundadores na Constituição para impedir abusos.
Opinião | De George Washington a Trump: EUA fazem 250 anos com herança da independência sob teste de estresse
Após a vitória contra o Império Britânico, as 13 colônias da América do Norte criaram um experimento inédito na história da humanidade: a república constitucional e democrática














