A menos de três meses da celebração dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, e em meio ao conflito com o Irã, Donald Trump tenta colocar sua marca sobre alguns dos símbolos mais reconhecíveis do país. O presidente americano já terá sua imagem em passaportes comemorativos, sua assinatura em futuras cédulas de dólar e seu governo disputa, ao mesmo tempo, arquivos presidenciais, monumentos em Washington e a moldura política da festa nacional. O que poderia ser apenas comemoração passou a ser lido por especialistas como disputa sobre história, símbolos e poder de Estado. Para o historiador americano Kirk Savage, professor da Universidade de Pittsburgh e especialista na relação entre monumentos, espaço público e memória, os episódios recentes não devem ser lidos como fatos isolados. — Definitivamente são parte de uma campanha muito maior. A administração Trump é muito honesta sobre isso, de certa forma. Deixam claro que estão tentando mudar o que eles acham que é a história revisionista que envergonhou nosso país. Batalha pelos arquivos A questão também passa pelo que será preservado. Em 1º de abril, o gabinete de assessoria jurídica do Departamento de Justiça sustentou que a Lei de Registros Presidenciais, de 1978, é inconstitucional. A posição põe em xeque o princípio de que os registros produzidos por um presidente pertencem ao público e à história institucional do país, não ao ocupante temporário da Casa Branca. Governo dos EUA divulgou modelo de passaporte com rosto de Donald Trump — Foto: Reprodução / X / Departamento de Estado dos EUA Historiadores e entidades de controle foram à Justiça para impedir que o governo use o parecer como base para descumprir a lei. A pressão simbólica também chegou ao dinheiro em circulação e ao espaço físico. Em março, o Tesouro anunciou que futuras notas de dólar trarão a assinatura de Trump, rompendo uma tradição de 165 anos em que a moeda levava a assinatura do tesoureiro dos EUA. Em Washington, o projeto da construção de um arco triunfal de 76 metros também avança, sob contestação. Na última semana, um comitê responsável pela preservação do patrimônio artístico e arquitetônico de Washington aprovou o projeto. A comissão, composta por sete membros, todos indicados pelo presidente, no entanto, não tem poderes para autorizar o início das construções, tarefa a cargo do Comitê de Planejamento da Capital Nacional, que anunciará uma decisão no mês que vem. Projeto mostra 'Arco de Trump', de 76 metros, construção que é contestada internamente — Foto: U.S. Commission of Fine Arts via The New York Times Para Savage, há também uma zona de incerteza nesse repertório. Parte do debate, diz ele, é atravessada pela dificuldade de distinguir o que é projeto concreto, blefe político ou provocação calculada. O historiador pondera que campanhas oficiais de memória podem empurrar grupos inteiros para as margens. Vitrine pessoal O exemplo histórico, segundo ele, é a releitura glorificadora da Confederação depois da Guerra Civil. — Essa foi uma campanha massiva que absolutamente marginalizou a memória negra e a participação negra na vida pública. Há momentos em que esse tipo de marginalização pode funcionar. Na avaliação de Daniel Toledo, advogado que atua em Direito Internacional e especialista em negócios internacionais, o risco político está em transformar símbolos de Estado em vitrine pessoal de poder. — Dentro dos EUA, opositores e parte do centro tendem a ver um padrão de hipertrofia presidencial, em que a nação vira cenário para a exibição do governante. O presidente dos EUA, Donald Trump, fotografado a bordo do Air Force One — Foto: Alex Wong/Getty Images/AFP É nesse ponto que a crise com o Irã muda o peso da efeméride. Ela retira os 250 anos de um terreno puramente cívico e os insere em um ambiente de guerra, pressão doméstica e teste da autoridade presidencial. Para Carlo Patti, professor de História das Relações Internacionais da Universidade de Padova, na Itália, o conflito corrói a imagem de força que Trump tenta projetar, porque não produziu, até agora, uma vitória clara nem uma explicação convincente para o público interno. — É uma crise cuja solução não é vista no radar, não é bem explicável para os americanos e está erodindo a confiança em relação à Presidência Trump — diz ele, destacando que há relutância na própria base trumpista. — Ela está começando a se mostrar receosa em relação às decisões de Trump. Na leitura do professor, os 250 anos foram pensados como celebração da primazia americana e poderiam funcionar como vitrine de renovação patriótica se houvesse uma vitória militar ou diplomática capaz de reforçar a narrativa de força. O efeito, porém, pode ser o inverso caso a guerra reforce a percepção de impasse. Patti vê ainda o risco de o conflito entrar na celebração como sinal de limite, e não de força. Segundo ele, "o grande perigo é que esses 250 anos sejam marcados pela crise". — Esse impasse e a dificuldade de chegar a uma vitória se somam à incapacidade dos Estados Unidos, nos últimos 20 ou 25 anos, de converter seus objetivos militares em resultados concretos. A tentativa de transformar a crise em demonstração de força também se liga ao modo como Trump tenta vender sua liderança, avalia o especialista italiano. — Trump se apresenta, como já tinha feito no primeiro mandato, como uma figura-chave na solução dos grandes conflitos, mas desmonta mais que cria. Desmonta para criar algo novo, mas ainda não sabemos o que seria esse novo. Questionamento interno Já Toledo analisa que o americano organiza esse repertório simbólico sob a lógica de uma liderança de confronto. Para ele, o conjunto cria uma “narrativa de monumentalização da Presidência”. — Do ponto de vista político, isso comunica que Trump quer ser visto não apenas como governante de um mandato, mas como personagem de época, quase como um presidente de reconstrução simbólica da nação. É uma imagem de liderança que mistura chefe de guerra, guardião da identidade nacional, reformador institucional e figura histórica. A tentativa de personalizar a força americana encontra limites no próprio ambiente político do país, explica o historiador americano: — Trump quer projetar sua imagem como homem forte, tanto internamente, na reestruturação da sociedade americana, quanto externamente — diz Savage. — A grande questão é: é possível projetar essa imagem se, mesmo dentro de sua base, há grandes dúvidas em relação à capacidade de articulação política e de cálculo estratégico? No fim, a batalha pelos 250 anos talvez diga menos sobre a comemoração em si do que sobre a natureza do poder americano atual. A disputa tanto rememora a celebração de 1776 como define quem pode controlar o vocabulário da república dois séculos e meio depois: seus documentos, seus monumentos, seus arquivos, sua moeda e sua imagem para o mundo. Mas há um limite nessa disputa, avalia o historiador: — Nenhum regime, não importa o quão autoritário seja, pode, no final, controlar completamente a memória pública, porque as pessoas têm suas próprias experiências e conhecimentos que não podem ser erradicados por um poder central.